quarta-feira, 30 de abril de 2014

ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS: FATORES DE RISCO
Consultor Régis Varão/¹ 

A política econômica de incentivo ao consumo ainda mantida pelo atual governo tem demonstrado sinais de esgotamento nos últimos anos, embora tenha sido útil quando de sua implementação. Elevadas taxas de juros e inflação crescente de dois dígitos tem impactado negativamente a capacidade de pagamento da população. Tendo em vista o atual nível de endividamento das famílias, como mostra a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor-PEIC/CNC, divulgada esta semana. 

A pesquisa afirma que o percentual de famílias com dívidas atingiu 62,3% em abr/14, ante 61,0% do mês anterior, embora tenha declinado de 62,9% (abr/13) e apresentado elevação de 5,5 p.p., ante abr/12 (56,8%). Cabe ressaltar que a elevação do número de famílias endividadas foi observada nas duas faixas de renda pesquisadas (até 10 SM e + de 10 SM) tanto na comparação com o mês imediatamente anterior como na comparação anual. 

O percentual de famílias com contas em atraso atingiu 21,0% em abr/14, ante 20,8% observado em mar/14, mas tendo declinado quando comparado a abr/13 (21,5%), abr/12 (23,0%) e abr/11 (23,4%). O percentual de famílias com contas em atraso, na faixa de renda até 10 SM, apresentou elevação pelo quarto mês consecutivo, saindo de 21,8% em jan/14 para 23,5% em abr/14 (+1,7 p.p.). Já as famílias com renda superior a 10 SM passaram de 9,5% em jan/14 para 10,5% em abr/14. A taxa média mensal do período abr/13-abr/14, do percentual de famílias com contas em atraso, com renda até 10 SM, atingiu 23,43%, com pico em jul/13 (25,0%) e menor valor em jan/14 (21,8). 

Com relação às contas em atraso, na faixa de renda acima de 10 SM, a taxa média atingiu 10,54% no período abr/13-abr/14, observado o maior valor em out/13 (12,3%) e o menor em nov/13 (8,7%). A diferença (renda até 10 SM e acima de 10 SM) entre as taxas médias é 12,89 p.p., demonstrando que a população de menor nível de renda está em situação mais desconfortável que as famílias com renda mais elevada. Segundo a pesquisa “A elevação do percentual de famílias com contas em atraso no início do ano é influenciada pela sazonalidade do período e reforçada pelo maior comprometimento médio de renda que as famílias endividadas relataram ter este ano.” 

O percentual de famílias que relataram não terem condições de quitarem suas dívidas em atraso apresentou trajetória semelhante, tendo recuado de 7,8% em abr/11, para 6,9% em abr/12 e 6,7% em abr/13, mas subindo em abr/14 para 6,9%. 

Por outro lado, o percentual de famílias que se declararam muito endividado atingiu 11,8% em abr/14, ante 12,1% em abr/13, 14,1% em abr/12 e 15,7% em abr/11, demonstrando melhora nesse item, ao cair 3,9 p.p. no comparativo abr/11-abr/14. Já o percentual de famílias que se declarou mais ou menos endividada atingiu 24,1% em abr/14, ante 22,2% em abr/13, 21,3% em abr/12 e 23,1% em abr/11. Já o percentual de famílias que se declararam pouco endividado apresentou comportamento atípico nos meses analisados, quando atingiu 26,3% em abr/14, ante 28,5% em abr/13, 21,4% em abr/12 e 23,8% em abr/11. 

O cartão de crédito vem ganhado destaque nos últimos anos, sendo apontado como um dos principais tipos de dívida por 74,8% das famílias endividadas em abr/14, por 76,6% em abr/13 e por 73,7% em abr/12, o que em média dos períodos atinge 75,03%. Cabe ressaltar que o endividamento das famílias está fortemente comprometido em apenas um tipo de dívida, e justamente o que cobra as mais elevadas taxas de juros por atraso ou falta de pagamento, normalmente atingindo três dígitos. O endividamento por carnês vem em segundo lugar com média mensal de 18,83%, na mesma base de comparação, seguido em terceira posição por financiamento de carro (12,3%), crédito pessoal com média de 7,23% e cheque especial com média de 5,83%. Dos cinco maiores tipos de dívidas das famílias elas possuem três das mais caras praticadas pelo mercado financeiro nacional, que são cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, não subestimando o potencial explosivo de elevação do endividamento das demais. 

Com a perda do poder de compra pelo trabalhador devido a elevação dos indicadores de preços - inflação - associada ao aperto da política monetária pode levar uma maior quantidade de pessoas a deixarem de honrar seus compromissos, contribuindo para o agravamento do índice de inadimplência nos próximos meses. 

Uma alternativa para não haver perda de qualidade de vida, poderia estar no crédito consignado (no regisvarao.blogspot.com.br,  ver artigo de 03/12/13 a respeito de crédito consignado) que ainda pratica a menor taxa de juros do mercado financeiro, mas tem que haver cuidadoso planejamento, direcioná-lo totalmente para o pagamento das dívidas mais caras como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. 

¹/ Consultor de Finanças Pessoais, Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do BACEN. Originalmente este artigo foi publicado no “Jornal Brasília Notícias”, de abr/14. Site: www.ravecofinancas.com.