quinta-feira, 17 de maio de 2018

ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS RECUA EM ABRIL
Régis Varão/¹

O total de famílias brasileiras com dívidas apresentou decréscimo em abril deste ano, assim como em comparação ao patamar observado em igual período de 2017. O percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso registrou declínio no período mar-abr/18, bem como em relação ao mesmo período de 2017. Com relação ao percentual de famílias sem condições de pagar suas contas houve elevação tanto na comparação mensal quanto na anual, segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

O percentual de famílias com dívidas entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro atingiu 60,2% em abr/18, registrando redução em relação ao percentual verificado em mar/18 (61,2%) e abr/17 (62,1%).

O percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso caiu em abr/18 na comparação mensal, passando de 25,2% para 25% do total. Houve declínio do percentual de inadimplência das famílias em relação a abr/17 (25,4%) do total. O percentual de famílias sem condições de pagar as dívidas em atraso, e permanecem inadimplentes, subiu de 10% em mar/18 para 10,3% em abr/18, e cresceu também em relação a abr/17 ao chegar a 10,2%. Segundo Marianne Hanson, economista da CNC, “A redução do endividamento observada ao longo do primeiro quadrimestre deste ano reflete um ritmo menor de recuperação do consumo das famílias”.

O número de famílias endividadas, na comparação com o mês anterior, registrou queda em ambas as faixas de renda (<10 e >10 Salários Mínimos-SM). Na comparação anual, houve declínio apenas entre as famílias da faixa de renda <10 SM. Para as famílias que ganham <10 SM, o percentual de famílias com dívidas chegou a 62% em abr/18, abaixo dos 62,8% observados em mar/18 e inferior aos 64,1% em abr/17. Para as famílias com renda >10 SM, o percentual de famílias endividadas passou de 54,0% em mar/18 para 52,2% em abr/18. Em abr/17, o percentual de famílias com dívidas nesse grupo de renda também estava em 52,2%.

O percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso registrou tendências diversas na comparação anual entre os grupos de renda pesquisados. Já na comparação mensal, houve queda do indicador nas duas faixas de renda. Na faixa <10 SM, o percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso passou de 28,1% em mar/18 para 28% no mês seguinte. Em abr/17, 28,9% das famílias nessa faixa de renda haviam declarado ter contas em atraso. Já no grupo com renda >10 SM, o percentual de inadimplentes atingiu 12,6% em abr/18, ante 12,8% observado no mês anterior e 10,8% em abr/17.

Considerando as duas faixas de renda, o percentual de famílias que declararam sem condições de pagar contas em atraso também apresentou comportamentos diversos entre os grupos pesquisados, nas duas bases de comparação. Na faixa de renda >10 SM, o indicador alcançou 4,2% em abr/18, ante 4,4% em mar/18 e 3,4% em abr/17. Para o grupo com renda <10 SM, o percentual de famílias sem condições de quitar seus débitos passou de 11,3%, em mar/18, para 11,8% no mês seguinte, enquanto com relação a abr/17, houve queda de 0,3 p.p. Ainda segundo Marianne Hanson, da CNC, “A taxa de desemprego ainda bastante alta ajuda a explicar a dificuldade das famílias em pagar suas contas em dia.”

A proporção das famílias que se declararam muito endividadas manteve-se praticamente estável no período mar-abr/18, ficando em 14,1% e 14,2% naqueles meses, respectivamente. Na comparação anual, houve decréscimo de 0,7 p.p. Na comparação entre abr/17 e abr/18, a parcela que declarou estar mais ou menos endividada passou de 23,1% para 22,6%, e a parcela pouco endividada passou de 24,1% para 23,4% do total de famílias. O endividamento das categorias a seguir apresentou declínios na comparação anual: (a) muito endividado (-0,7 p.p.); (b) mais ou menos endividado (-0,5 p.p.); e (c) pouco endividado (-0,7 p.p.).

Entre as famílias com contas/dívidas em atraso, o tempo médio de atraso ficou em 64,3 dias em abr/18, acima dos 63,1 dias observados em abr/17. O tempo médio de comprometimento com dívidas entre as famílias endividadas foi 7 meses, sendo que 25,9% delas estão comprometidas com dívidas até 3 meses e 32,1%, por mais de 12 meses. Ainda com relação as famílias endividadas, a parcela média da renda comprometida com dívidas caiu na comparação anual, de 30,2% em abr/17 para 29,2% em abr/18, “e 19,9% delas afirmaram ter mais da metade de sua renda mensal comprometida com pagamento de dívidas”, segundo o relatório.

O cartão de crédito continua em destaque na preferência das famílias endividadas, atingindo em abr/18 a expressiva marca de 76,1%, seguido por carnê de loja com 16,5%, crédito pessoal com 10,4%, financiamento de carro com 10,2%, financiamento de casa com 8,4%, cheque especial com 6,1%, crédito consignado (5,7%) e cheque pré-datado com 1,1%. A partir de mai/10 (71,2%) o cartão de crédito atingiu o patamar de 70%, e cinco anos depois, em mai/15, chegou a 76,9%, inaugurou o patamar acima de 76%. A preferência das famílias com relação ao endividamento com o cartão de crédito vem se mantendo elevado desde mai/10.

Nas famílias com renda até 10 SM, o cartão de crédito chega a 76,8% nas preferências das famílias, enquanto as de maior renda cai para 73,2%. O carnê de loja chega a 17,8% no primeiro caso e cai para 10,2% no segundo. Duas disparidades: financiamento de carro chega a 8,3% nas famílias de baixa renda e sobe para 19,2% na faixa de maior renda, e financiamento de casa atinge 6,7% nas famílias com renda até 10 SM e sobe para 16,2% para as de maior renda.

Portanto, o comportamento dos indicadores macroeconômicos em geral, tem contribuído para melhorar as expectativas dos agentes econômicos, embora o endividamento e a inadimplência das famílias ainda continuem elevados. A alta taxa de desemprego tem contribuído, em parte, para explicar a dificuldade das famílias em pagar suas contas em dia. Por outro lado, a preferência das famílias brasileiras pelo endividamento com o cartão de crédito demonstra desconhecimento de princípios básicos de educação financeira.

¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoas. Educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, vida financeira saudável, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, e bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.