REVISTA “FOMENTO MERCANTIL”, Ano XV – Edição 64 – Mai/Jun de 2007
REFLEXOS DA MOEDA NORTE-AMERICANA NA ECONOMIA BRASILEIRA -
06/07/2007
| Régis Varão - Consultor de Finanças Pessoais |
Quais são os fatores determinantes
para a atual situação de desvalorização do dólar em relação ao real?
Nos últimos meses a taxa de câmbio
tem se apreciado por causa de vários fatores, tais como: o forte ingresso de
recursos externos no País; a obtenção de crescentes saldos no balanço comercial
(recordes sucessivos, inclusive em 2006), o declínio sistemático do risco
Brasil (atingiu 150 pontos, o menor nível desde a criação do índice pelo
JPMorgan) e não deixando de considerar a atuação conservadora da Autoridade
Monetária. Assim, a estabili-dade dos fundamentos da economia têm contribuído
indiretamente para essa conjuntura. É importante perceber nesse período de
forte ingresso de recursos externos no País e de crescentes saldos da balança
comercial, a grande valorização dos preços internacionais das commodities,
o que ajudou substancialmente para a obtenção dos crescentes saldos da balança comerciais.
Não podemos desconsiderar o fator China como fator de pressão de demanda
ajudando para a valorização dessas commodities, tendo em vista que
aquele país é grande demandante de commodities agrícolas e metálicas. Outro
exemplo, temos uma empresa brasileira, a Cia Vale do Rio Doce (CVRD), que é
formadora de preço no mercado internacional de minério de ferro, uma commodity
importante. Outro fator a considerar é a desvalorização que a moeda
norte-americana vem apresentando nos últimos meses. Assim, o fenômeno que está
acontecendo no Brasil não pode ser considerado um fenômeno isolado, o dólar
está se desvalorizando frente às principais moedas internacionais.
Como os investidores estrangeiros têm
se posicionado frente ao risco Brasil?
Os investidores internacionais quando
decidem colocar seus recursos em algum país, eles avaliam vários fatores e o
risco país, calculado pelo banco JP Morgan, é considerado um dos mais
importantes na hora de alocação desses recursos a busca de melhores negócios,
maior rentabilidade, segurança e liquidez. Nesses últimos anos, o risco-Brasil
tem caído substancialmente (já esteve acima de 2700 pontos) e tem atraído
muitos investidores internacionais. E isso é importante porque acaba gerando um
círculo virtuoso. O cenário de uma economia segura, estável, com uma meta de
inflação que está sendo cumprida, com as instituições funcionando normalmente é
um grande e importante porto seguro para investidores internacionais.
Quais as perspectivas com relação às
exportações e os reflexos da queda do dólar no curto prazo?
Sempre foi dito que as exportações
dependiam muito do câmbio desvalorizado. Paradigma quebrado, pois o Brasil está
obtendo saldos positivos e sistemáticos na sua balança comercial com o câmbio
apreciado. Por outro lado não podemos desconsiderar um fator relevante para a
obtenção desses saldos crescentes, é que a valorização das commodities no mercado internacional tem ajudado muito o Brasil,
tradicional exportador de commodities.
Não podemos desconsiderar o fator China como fonte de pressão de preços
internacionais. Essa história de dizer que tem que depreciar o câmbio para
exportar mais, não tem suporte na atual conjuntura, pois estamos com câmbio
apreciado e continuamos obtendo saldos crescentes na balança comercial brasileira.
O Brasil é privilegiado como produtor-exportador de algumas commodities agrícolas e minério de
ferro, embora tenhamos empresas que não se prepararam para os novos tempos de
câmbio apreciado e, nesse caso, estão sofrendo com a concorrência cada vez mais
próxima, algumas vezes concorrência desleal. Por exemplo, o setor calçadista e
o têxtil sofreram muito com o câmbio apreciado, além de que a concorrência
chinesa está desequilibrando aqueles setores. Essas empresas perderam espaço e
algumas ficaram com dificuldades financeiras e, até mesmo, após anos de
produção simplesmente tiveram que fechar suas instalações, não suportaram a
concorrência chinesa, o câmbio apreciado e a carga tributária entre outros.
O que o câmbio apreciado traz de
positivo?
Existem empresas que são
competitivas, porque se prepararam, investiram em capital humano e em
equipamentos. Os equipamentos e máquinas sofisticadas estão baratas nesse tempo
de câmbio apreciado e, o setor que vislumbrou isso continua no mercado. Grande
parte da indústria já se adaptou a essa situação de câmbio aprecia-do. Nunca
antes tivemos saldos de balança comercial ano de US$ 100 bilhões, hoje isso já
ocorre. Além disso, nós temos uma disponibilidade de bens de consumo que
dependem de matérias-primas importadas a um preço menor, o que é bom para o
consumidor brasileiro. Os viajantes da classe média estão adorando o câmbio
apreciado. Câmbio apreciado tem vantagens e desvanta-gens, mas as primeiras são
proporcionalmente maiores e melhores que as últimas.
Podemos considerar a valorização do
real também como resultado dos altos juros brasileiros em relação aos demais
países?
Os juros do Brasil sempre foram
elevados, mas o Banco Central adotou uma política consistente e conservadora de
redução da taxa de juros. A Autoridade Monetária tem sofrido críticas
constantes da imprensa, do vice-presidente da República, do atual ministro da
Fazenda quando presidente do BNDES, de parlamentares influentes, de empresários
etc, mas como os tempo mudaram o Banco Central tem atuado com autonomia na hora
de decidir sobre a nova taxa de juros (Selic). O Banco Central antes de tomar a
decisão (são dois dias de reuniões) sobre a taxa de juros, discute o cenário
internacional, o comportamento dos preços internos e das commodities internacionais,
ou seja, levam em consideração uma série de variáveis macroeconômicas antes de
decidir sobre a taxa de juros.
Existe necessidade de mudança nessa
política monetária?
Apesar das pressões, o Banco Central
vem gradativamente reduzindo as taxas de juros. Antigamente quando o presidente
da República queria reduzir os juros, chamava o ministro da Fazenda e o
presidente do Banco Central e decidia sobre os juros. Não resta dúvidas que as
taxas de juros ainda estão altas e poderiam ter sido reduzidas um pouco mais.
Mas tem que se ter uma postura pragmática e responsável e por isso, mesmo com
todos esses pontos que temos aí, nada afetou a decisão do Banco Central no que
se refere à política monetária. Assim, não podemos afirmar que a valorização do
real frente ao dólar dos EUA decorrem de outros fatores, já explanados.
Você acredita que existe um ponto de
equilíbrio do dólar para evitar pressões inflacionárias?
Apesar da aparente barreira dos R$ 2,00, eu
acredito que um valor adequado para a taxa de câmbio e, que não criaria mais
problemas seria uma taxa de câmbio entre R$ 1,90 e R$ 1,95. Mas eu não teria
como mencionar qual é taxa de câmbio adequada para a economia brasileira,
porque isso depende da estrutura de custos do setor (alguns produtos têm grande
participação de matérias-primas importadas, por exemplo), da competição, da
carga tributária etc. Por exemplo, para o setor de calçados, um câmbio ótimo
seria acima de R$ 2,30, enquanto no setor automobilístico o câmbio apreciado
não está dificultando as exportações. Não existe um câmbio ótimo, existe uma
faixa razoável, pois tem-se que respeitar as peculiaridades de cada segmento.
Um câmbio considerado ótimo para a economia, como um todo, só é encontrado nos
textos acadêmicos e nos modelos desenvolvidos por professores em universidades.
Porque na realidade, o câmbio de equilíbrio depende da oferta e da demanda de
moeda estrangeira, mas se a Autoridade Monetária sempre que deseja realiza
leilões para pressionar para baixo o valor do câmbio, como determinar um câmbio
de equilíbrio, se o Banco Central está sempre monitorando o mercado de câmbio.
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