HÁBITOS FINANCEIROS SAUDÁVEIS!
Régis Varão/¹
A grande maioria das pessoas com problemas
financeiros decorre da inadequada gestão de seus recursos financeiros. Gastar
mais do que ganha, viver constantemente no vermelho, pagar o valor mínimo da
fatura do cartão de crédito, comprar sempre a prestação, são alguns dos motivos
que contribuem para que as pessoas tenham uma qualidade de vida financeira
ruim.
A má gestão dos recursos financeiros diários decorre,
em grande parte, de atitudes e hábitos inadequados e repetitivos na
administração das receitas provenientes de salário, pró-labore, bónus,
premiações, comissões e outros, e que interferem negativamente no sucesso da vida financeira.
Maus hábitos no trato com o dinheiro podem levar ao
endividamento, com danos paralelos, pois pesquisas demonstram que indivíduos
endividados ou com problemas financeiros vão ao médico com mais frequência,
faltam mais ao trabalho, usam mais atestados médicos, discutem mais com colegas
e familiares, estão mais sujeitos a perderam o emprego, reduzem o nível de
concentração, diminuem a produtividade e se separam ou divorciam com mais
frequência que os indivíduos sem problemas de endividamento.
Mais do que nunca, precisamos de investimentos em
educação financeira porque é de fundamental importância tirar grande parte das famílias brasileiras do analfabetismo
econômico-financeiro. Para ilustrar o desconhecimento de educação financeira,
no caso específico dos juros, um dos princípios que regem o impulso dos
consumidores brasileiros ao adquirirem bens e serviços a prazo e com juros
exorbitantes, é se as parcelas cabem no orçamento pessoal ou familiar.
Hábitos que ajudam as pessoas e famílias a terem um
desempenho positivo e adequado na gestão de suas receitas mensais:
1. Economizar sempre:
Qualquer
pessoa sabe ou deveria saber que economizar é essencial para uma vida financeiramente
saudável e tranquila. A prosperidade está associada em parte, aos recursos
financeiros que são guardados mensalmente em uma reserva financeira. A bíblia
faz várias referências à prosperidade, e em Jeremias 29-11 temos: Porque sou eu que conheço os planos que
tenho para vocês', diz o Senhor, 'planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar
dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro. Na citação de Jeremias o
termo prosperidade está associado à esperança de dias melhores e um futuro com
segurança e tranquilidade.
Para
atingir a prosperidade, você pode iniciar economizando 5% da renda líquida
mensal e gradualmente - elevar esse percentual até atingir 30%, em um prazo de
até doze meses. Considere as peculiaridades de cada um, muitas famílias têm avós,
pais, filhos e netos morando juntos, nesse caso, esses percentuais servem como
indicativo, mas cuidado para não perder qualidade de vida. Muitas vezes 10%,
20% pode ser adequado para uma família padrão - marido, mulher e filhos -, no
entanto, um assalariado de alta renda pode guardar entre 25% e 50% de seus rendimentos
mensais líquidos sem alterar seu padrão de vida.
Obedeça
sempre a regra universal: economize
sempre. Muita atenção com os supérfluos. Não precisa ser um “Tio Patinhas”,
guardar dinheiro por guardar, tenha um ou mais objetivos bem definidos, estabeleça
metas e as discuta com sua mulher e filhos, afinal de contas trata-se da sua
família. Transmita aos seus filhos hábitos saudáveis, oriente-os enquanto são
jovens e serão adultos responsáveis financeiramente. Economizar parte do que se
ganha (10-15% por mês) é um hábito saudável, é simplesmente uma questão de
sabedoria. Incorpore esse hábito no seu dia-a-dia e de sua família.
2. Fazer Planejamento Financeiro:
Fazer orçamento pessoal/familiar e gastar menos do
que se ganha é questão de bom senso e até de sobrevivência financeira. Faça mensalmente
um orçamento pessoal, liste as receitas provenientes de aluguéis, aplicações financeiras, salários,
pró-labore, gratificações, bónus, premiações, comissões etc. Relacione os
recibos com as despesas realizadas no mês, inclusive os pequenos valores (café
espresso, cigarro etc), crie grupos de despesas como alimentação, educação,
lazer, moradia, saúde e transporte, isso ajuda nos controles e no planejamento
financeiro.
Com receitas e despesas relacionadas já se tem um indicativo
para onde está indo o dinheiro, que na maioria das vezes desaparece sem deixar
vestígios, é como um grande ralo embaixo de um chuveiro ligado. Ao listar as
despesas, observe com muita atenção todos os valores, sem exceção, o que ajudará
a tomar conhecimento de sua real situação financeira e a decidir qual a melhor
estratégia para realizar o planejamento financeiro.
3. Fazer Reserva Financeira:
Muitos não fazem reserva financeira por desconhecerem e até não compreenderem sua importância. Deve-se
reservar um percentual da renda líquida mensal para formá-la, comece com 5% e
gradualmente chegue a 30% ou até mais. Todos estão sujeitos a surpresas agradáveis
(formatura do filho, casamento da filha, MBA dos filhos, pós-graduação em boa
universidade etc); e desagradáveis como perda do emprego, acidentes diversos,
doenças em família, gravidez inesperada, desemprego etc.
O ideal é ter uma reserva que seja suficiente para
cobrir gastos entre 6 e 12 meses. No entanto, se conseguir formar uma reserva que
cubra os gastos equivalentes às despesas totais realizadas em 6 meses, já está
bom. Exemplo: se você gasta em média R$ 4.000,00 por mês, incluindo despesas
fixas e variáveis, você deveria ter no mínimo R$24.000,00 (6 x R$4.000,00) depositado
em banco. Por outro lado, se puder manter em banco o equivalente a um ano de despesas,
total de R$48.000,00 (12 x R$4.000,00), seria bem melhor.
Os valores acima podem servir como colchão
financeiro em casos de desemprego e dívidas inesperadas, mas também podem
ajudar nas despesas com o casamento da filha etc. O objetivo da reserva
financeira é atender a demandas inesperadas, sem endividar a família. Ela pode
ter destinos diversos, desde que atenda as necessidades e não leve a pessoa ou
família a tomar crédito no sistema bancário. Mantenha distância das carteiras
de crédito do setor bancário.
4. Observar o Poder dos Pequenos Valores:
Muita gente comete equívocos ao pensar que pequenos
valores não são importantes na estrutura global de despesas das famílias. Um
simples café expresso de R$5,00, tomado sete vezes por semana fica em R$35,00,
que chega a R$140,00 no mês, e atinge R$1.680,00 no ano, em 10 anos temos
R$16.800,00, sem considerar os juros incidentes. Um lanche diário de R$9,00, custa
R$63,00 por semana, R$252,00 por mês e no ano R$3.024,00. Junte-se a eles o
cigarro (R$7,00) e a cerveja com os amigos (R$12,00), e temos um valor razoável.
Segundo o jornal O Estado de São Paulo, de 21.11.13, o “Brasileiro que consome um maço de cigarros por dia
durante 50 anos gasta, no mínimo, o equivalente a um Golf zero quilômetro; despesa
anual do governo com a saúde dos fumantes soma R$ 21 bilhões.” Somando esses
pequenos valores gastos no dia-a-dia, a despesa anual atinge R$11.088,00, um
valor elevado que pode reduzir a qualidade de vida da família e nada contribui
para uma saúde melhor.
Produtos necessários, como alimentos, vestuário e
lazer, poderiam ser adquiridos com esses “pequenos grandes valores” se economizados.
Imagine o que você poderia adquirir para sua casa, sua mulher e seus filhos, evitando
esses gastos excessivos. Reduza essas despesas pela metade e temos uma sobra de R$5.544,00
(R$11.088,00/2), que pode ajudar na reforma da casa, na troca da velha máquina
de lavar roupas e até mesmo nas férias da família. Logo, fique atento ao Poder
dos Pequenos Valores.
5. Evitar Compras Parceladas:
Evite comprar a prazo, pois muitas vezes várias
pequenas prestações podem levar ao endividamento quando agregadas. Segundo a
Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da
Confederação Nacional do Comércio-CNC, de jan/17, o carnê de loja é o segundo tipo de endividamento preferido das famílias brasileiras
com 14,1%, perdendo apenas para o cartão de crédito com 77,3% das preferências,
na sequência temos o terceiro lugar com financiamento de carro (10,1%) e
crédito pessoal (9,7%).
O segredo do sucesso financeiro é: se não tiver
dinheiro para comprar a vista não compre, deixe para o próximo mês, para o
próximo semestre ou ano. Antes de abrir a carteira pergunte-se: (a) Eu preciso?
(b) Tenho dinheiro? (c) Tem que ser agora? Com apenas uma resposta negativa a qualquer das perguntas, não
compre. Se as respostas forem positivas, mesmo assim antes de comprar peça desconto.
Proteja seu dinheiro, não faça dívidas, evite compras parceladas, adquira “apenas”
o necessário e planeje-se para adquirir algum produto novo, pode ser que você
não esteja precisando dele e até em muitos casos pode ter um parecido.
6. Desconfiar da Memória:
A grande armadilha das finanças pessoais é o mau
hábito de confiar nas chamadas contas mentais. Anote toda e qualquer despesa,
solicite recibos/notas fiscais - o vendedor é obrigado por lei a fornecer os
comprovantes - para não ter surpresas desagradáveis no final do mês. Um bom Planejamento Financeiro e o cuidado
com os pequenos valores nos gastos do dia-a-dia podem ajudar a evitar as
armadilhas preparadas pela memória. Tudo que é gasto é importante, mesmo os
pequenos valores, e sempre peça nota fiscal de tudo o que adquirir, pois além
de facilitar o controle das despesas pode contribuir para reduzir o IPVA e o
IPTU em cidades como Brasília (nota legal) e São Paulo (nota paulista), e até
mesmo receber valores em espécie como devolução.
7. Tirar Proveito do Cartão de Crédito:
Pague sempre a fatura integral, não pague o valor
mínimo em hipótese alguma, pois os juros incidentes sobre o saldo devedor é o
mais elevado do mercado, e ultrapassa dois dígitos ao mês. Segundo dados do Banco Central a taxa média
de juros do crédito rotativo do cartão de crédito atingiu 484,57% a.a. (15,85
a.m.) em dez/16, ante 431,38% a.a. (14,93% a.m.) em igual período do ano anterior,
mantendo-se no maior patamar da série histórica. O segundo lugar foi para o
cheque especial com 328,63% a.a. (12,89% a.m.) em dez/16, ante 287,02% a.a. (11,94%
a.m.) observado em dez/15.
Utilize o cartão de crédito a seu favor, cadastre-o em programas de milhagem, que podem ajudar a
adquirir passagens gratuitamente, obter descontos em bens e serviços entre
outros benefícios. Não leve na carteira cartão de crédito e talão de cheques, os
dois juntos podem estimular o consumo desnecessário, coloque apenas um na
carteira. Só saia com o cartão de crédito quando estiver realmente precisando
de adquirir um produto essencial, como comida, remédio etc.
Portanto, o segredo da prosperidade está em fazer
planejamento financeiro, economizar sempre, evitar compras por impulso, fazer
reserva financeira, não comprar a prazo, evitar muitas prestações, não pagar
juros e manter-se atento ao poder multiplicador dos juros compostos e dos
pequenos valores. Bons hábitos reduzem o estresse, melhora o humor e a pressão
sanguínea, aumenta a produtividade e ajuda a manter a qualidade e a expectativa
de vida das pessoas elevadas. Uma regra de ouro a ser observada: “Para juntar
R$ 1 milhão é fundamental resistir a 1 milhão de tentações.”
¹/ Economista com
pós-graduação stricto sensu em
economia e bacharel em direito. Foi professor universitário durante 23 anos, é
ex-servidor do Banco Central. Atua como Coach Financeiro, Coach Executivo e Coach
Pessoal. É educador financeiro e palestrante nas áreas de finanças pessoais,
liderança, educação corporativa e conjuntura macroeconômica, com artigos
publicados. Para mais informações visite o site www.ravecofinancas.com.