UM PAÍS DE MALANDROS
E ESPERTOS!
Régis
Varão/¹
Transcrevo
o atualíssimo discurso do publicitário Nizan Guanaes como paraninfo
de uma turma de formandos em Administração de Empresas na Bahia, em 2010. O
discurso reflete aspectos da cultura brasileira, tão bem caracterizada no “o jeitinho
brasileiro,” descrito pelo antropólogo Roberto Damatta.
“Dizem
que conselho só se dá a quem pede. E, se vocês me convidaram para paraninfo,
sou tentado a acreditar que tenho sua licença para dar alguns. Portanto, apesar
da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja, aqui vão
alguns, que julgo valiosos.
Não
paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo
coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro
virá como conseqüência. Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem
um grande bandido, nem um grande canalha. Napoleão não invadiu a Europa por
dinheiro. Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro. Michelangelo não
passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro. E, geralmente, os que só
pensam nele não o ganham. Porque são incapazes de sonhar. E tudo que fica
pronto na vida foi construído antes, na alma.
A
propósito disso, lembro-me uma passagem extraordinária, que descreve o diálogo
entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário
texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse: "Freira, eu
não faria isso por dinheiro nenhum no mundo." E ela responde: "Eu
também não, meu filho".
Não
estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário. Digo
apenas que pensar em realizar tem trazido mais fortuna do que pensar em
fortuna.
Meu
segundo conselho: pense no seu País. Porque, principalmente hoje, pensar em
todos é a melhor maneira de pensar em si. Afinal é difícil viver numa nação
onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo. O caos político gera
uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos, e uma
elite brega, sem cultura e sem refinamento, não chega viver como homens.
Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguassu.
Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguassu.
Meu
terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: seja quente ou seja frio, não seja
morno que eu te vomito. É exatamente isso que está escrito na carta de
Laudiceia: seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito. É
preferível o erro à omissão. O fracasso, ao tédio. O escândalo, ao vazio.
Porque já vi grandes livros e filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso.
Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso. Colabore com
seu biógrafo. Faça, erre, tente, falhe, lute. Mas, por favor, não jogue fora,
se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido. Tendo consciência
de que, cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e
traz em si uma revolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro.
Você
foi criado, para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos,
e caminhar sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de
possibilidades na outra. Não use Rider, não dê férias a seus pés. Não sente-se
e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do
cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: eu não disse!, eu sabia!
Toda
família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo,
tem que aguentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo
que ele faria, se fizesse alguma coisa. Chega dos poetas não publicados.
Empresários de mesa de bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite,
todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam.
Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar.
Porque não sabem trabalhar. Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às
12, de 12 às 8 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o
ócio, que é a morada do demônio, e constrói prodígios.
O
Brasil, este país de malandros e espertos, da vantagem em tudo, tem muito que
aprender com aqueles trouxas dos japoneses. Porque aqueles trouxas japoneses
que trabalham de sol a sol construíram, em menos de 50 anos, a 2ª maior
megapotência do planeta. Enquanto nós, os espertos, construímos uma das maiores
impotências do trabalho. Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está
perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque
você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior,
conversar as mesmas conversas, mas o tempo, que é mesmo o senhor da razão, vai
bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e
mundos que os acomodados não conhecerão. E isso se chama sucesso.
Trabalhe
Em Algo Que Você Realmente Goste, E Você Nunca Precisará Trabalhar Na Vida.”
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