domingo, 18 de dezembro de 2016

AUSÊNCIA DE SEGURANÇA PÚBLICA REDUZ COMPETITIVADE
Régis Varão/¹

Nos últimos anos tem crescido o crime e a violência nas grandes cidades brasileiras, o que incorre em elevados custos para a sociedade e para a economia como um todo. Além das perdas materiais e pessoais, a violência impõe custos indiretos, afetando negativamente as decisões de investimento e consumo, o uso eficiente dos recursos e mais que isso impactando diretamente na produtividade e na competitividade, afirma a Nota Econômica de nov/16, divulgado pela  Confederação Nacional da Indústria-CNI, que trabalha com as estatísticas do relatório World Economic Forum-WEF.

De acordo com o relatório da WEF, os custos relacionados ao crime e seus impactos no setor produtivo mantêm-se elevados no Brasil por quase uma década. “Desde 2006, início da série histórica, o país está entre os 25% com pior desempenho no ranking mundial do indicador, cuja avaliação compreendeu, em média, entre 2006 e 2015, 138 economias. Na percepção das empresas, os custos com o crime têm crescido nos últimos anos. Entre 2012 e 2015, o indicador caiu de 3,48 em 2012 para 2,87 (em escala de 1 a 7), o que reduziu a distância entre o Brasil e o pior colocado no ranking mundial - de 15,3% para 8,6%”.

Ainda segundo o relatório, no período 2010-15, o número de ocorrência de roubo e furto de carga no País subiu 64%. Paralelamente, observa-se elevação da demanda por serviços de vigilância e segurança, e uma situação que já era preocupante, piorou recentemente, o que em parte pode ser explicado pela crise econômica.

Em 2015, com relação ao indicador custos para as empresas do crime e da violência, os primeiros colocados - no critério menor custo - são os países de elevada renda do Oriente Médio e norte da África, como Emirados Árabes Unidos (1ª posição), Catar (3ª) e Omã (6ª). Entre os 140 países pesquisados, o último lugar é da Venezuela (140ª posição), o país de mais elevado custo.

Os países do continente americano, com exceção do Canadá (29ª posição) e Nicarágua (46ª), têm um baixo desempenho no indicador, pois todos se encontram entre os 50% piores posicionados entre as 140 economias pesquisadas (os EUA está na 77ª posição).

A situação piora quando a avaliação é restrita à América Latina, onde 17 dos 22 países estão entre os 25% piores posicionados. A nota do Brasil (2,87) em 2015 é inferior à média da América Latina (3,22) e da África subsaariana (4,13). O Brasil, com a queda recente no desempenho entre 2014 e 2015, quando passou de 3,23 para 2,87, respectivamente, se encontra atrás do Haiti, República Dominicana e Argentina.

A pesquisa Enterprise Surveys do Banco Mundial, avalia os custos de crimes violentos que recaem especificamente sobre o custo das empresas, no entanto, a última pesquisa realizada no Brasil é de 2009. Segundo a pesquisa, os custos com segurança privada com equipamentos, pessoal ou serviços especializados, participaram com 1,7% do faturamento das empresas brasileiras em 2007, enquanto as perdas com roubo e vandalismo representaram 2,5% do faturamento no mesmo ano.

Segundo a publicação da CNI, o crime foi identificado por 69% das empresas brasileiras como grande obstáculo para suas operações, sendo que o percentual é o mais elevado entre os 133 países pesquisados no período 2009-16.

Ainda de acordo com a Nota Econômica, “Embora as empresas brasileiras tenham gasto, como proporção do faturamento anual, aproximadamente o mesmo percentual com segurança privada que a média das empresas na América Latina (1,5%) e no mundo (1,6%), as perdas com roubo e vandalismo foram maiores: o percentual no Brasil é quase três vezes o observado na América Latina (2,5% contra 0,9%) e no mundo (0,8%)”.

Os gastos privados com segurança no Brasil não produziram os mesmos efeitos que os verificados em economias com características semelhantes à nossa. Na Rússia, Turquia e África do Sul, embora os custos com segurança privada como proporção do faturamento, tenham sido iguais aos realizados no Brasil, as perdas decorrentes de roubos e vandalismo naquelas economias foram muito menores que no Brasil.

O número de ocorrências de roubo e furto de carga no País subiu 63,6% entre 2010 e 2015 (20.803 ocorrências), um percentual elevado e com impactos negativos na produtividade da economia e do segmento serviços em geral. Por outro lado, observa-se elevação da demanda por serviços de segurança, o que é constatado no crescimento do emprego no setor, que subiu, em média, 7,2% ao ano nessa atividade, o que é superior aos 4,9% de elevação do setor serviços no período.

Portanto, no final todos perdem, consumidores, empresas e o próprio Estado ao ter agregado ao preço dos produtos os custos com a contratação de serviços de segurança, que indiretamente impactam negativamente na competitividade das empresas e no bolso dos consumidores.

¹/ Coach Financeiro, Business & Executive Coach, Personal Coach, Educador Financeiro e palestrante nas áreas de educação financeira, finanças pessoais, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com pós-graduação stricto sensu em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Mais informações visite o site www.ravecofinancas.com.

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