segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

PORQUE ALGUMAS PESSOAS FRACASSAM
Régis Varão/¹

As escolas de negócios espalhadas pelo mundo, inclusive as brasileiras, discutem as qualidades e virtudes de líderes empresariais bem sucedidos, mas pouco discutem a respeito do que levam as pessoas ao fracasso, isto é, essas escolas com seus MBA’s não debatem o tema fracasso. Essa disciplina não faz parte do currículo desses cursos.

Algumas escolas focam em estudos de casos (case studies), mas trabalham os pontos negativos de uma corporação como defasagem tecnológica, inadequação de produtos, aumento de custos, queda nas vendas, redução do lucro líquido, folha de pagamento crescente, hierarquia excessiva, problemas de concorrência, regulação inadequada, controles internos, falta de governança e outros fatores, mas na realidade a pergunta a ser feita é: Por que as pessoas fracassam? porque as corporações fracassam, todos já sabemos.

Pensando sob essa ótica resolvi apresentar uma descrição das principais causas que levam as pessoas ao fracasso e que estão listadas no livro de maior sucesso no mundo dos negócios corporativos “Quem pensa enriquece,” de Napoleon Hill que passou vinte e cinco anos para escrevê-lo por encomenda do milionário norte-americano Andrew Carnegie no início do século passado.

A pesquisa que deu origem ao livro apresentou 31 razões principais para o fracasso e treze princípios por meio dos quais pessoas acumulam fortunas. Considerando o objetivo da análise, apresento esse texto com algumas adaptações e observações pessoais, selecionando apenas 12 entre as 31 listadas nesse clássico de Hill:

01. Ausência de objetivo: não há esperança de sucesso para a pessoa que não tem um propósito, um objetivo definitivo no qual mirar. O artigo saúde financeira afirma: defina com clareza o que deseja fazer, pois, ter objetivo e foco são atitudes importantes na tomada de decisão. Assim, é em nossa vida, nossa família, nosso trabalho, nossa vida financeira, o lazer, a vizinhança, a escola etc. Na maioria das vezes o sucesso considera apenas objetivos comuns. É muito importante decidir o que deseja. Aponte sempre para o futuro, mas decida aonde quer chegar;

02. Falta de ambição: a ambição está diretamente vinculada a aspectos que envolvem superação e a busca por excelência. Não se vê nenhuma esperança para pessoas que são tão indiferentes que não queiram evoluir na vida e que não estejam dispostas a pagar o preço do sucesso. Pessoas com esse perfil normalmente são acomodadas, pouco criativas e têm baixo rendimento, logo, não são escolhas adequadas para corporações modernas;

03. Educação insuficiente: curso superior é apenas uma das diversas maneiras de adquirir conhecimento. Educação consiste não apenas de conhecimentos adquiridos em uma universidade ou fora dela, mas da aplicação desse conhecimento, pois os homens são pagos não meramente pelo que sabem, mas pelo que eles fazem com aquilo que sabem;

04. Falta de autodisciplina: a disciplina está associada ao autocontrole, assim, é necessário controlar todas as qualidades negativas, pois antes que você possa controlar situações, você precisa controlar a si mesmo. Robert Wise falando a respeito de uma declaração de Michael Jordan, “não há atalhos”, afirma que todo o sucesso de Jordan foi conquistado sendo o primeiro a chegar ao treino e o último a sair. Foi treinando muito, repetindo exaustivamente cada fundamento e cuidando da saúde para obter o máximo de desempenho físico em quadra que ele obteve sucesso;

05. Procrastinação: uma das causas frequentes do fracasso e acompanha o homem como uma sombra, aguardando a oportunidade de estragar as chances de sucesso. Procrastinadores normalmente se apoiam numa variedade enorme de desculpas. A maioria segue pela vida como fracassado, porque fica esperando o tempo certo de começar a fazer algo. Não espere, siga em frente. Comece de onde estiver. Trabalhe com quaisquer ferramentas que estiver ao seu alcance, pois as melhores e mais adequadas ferramentas serão encontradas quando você avançar.

06. Falta de persistência: a maioria das pessoas são boas iniciadoras, mas não finalizam o que começam, e o que é pior, tendem a desistir nos primeiros sinais de dificuldade. “Não há substituto para a persistência.” A pessoa que faz da persistência o seu lema descobre que o velho amigo fracasso fica cansado e dá seu adeus, pois ele não consegue conter e nunca vence a persistência;

07. Personalidade negativa: a personalidade negativa é prejudicial sob quaisquer aspectos e ambientes desde o familiar até o profissional. No mundo corporativo alguns profissionais mesmo tendo boa formação acadêmica e experiência profissional têm carreiras que não avançam, e são esses profissionais que mais reclamam de seu insucesso. A pessoa negativa sempre afirma: não sou escolhido na hora das promoções, isso não vai dar certo, não recebo propostas melhores de emprego, meu negócio não decola e finalmente o que as outras pessoas têm que eu não tenho? Segundo Hill, o sucesso vem com a aplicação de poder, que é adquirido por meio da cooperação de outras pessoas, e uma personalidade negativa não vai levar à cooperação. A pessoa que tem essa característica já acorda de mau humor, reclama de tudo e de todos, e coloca dificuldade em tudo antes de avaliar as possibilidades. Assim, terminam sempre atraindo acontecimentos negativos. O fracasso acompanha como uma sombra as pessoas de personalidade negativa que raramente sobem ao pódio;

08. Cuidado em excesso: segundo Robert K. Wise “Muitos aceitam uma condição para a qual conferem a qualidade de temporária sem perceber a passagem dos anos e o cerco da armadilha que se fecha.” As pessoas se recusam a aceitar novos desafios. Entretanto, é importante para romper com o marasmo e ajudar a nos levar para frente. Arriscar não é agir com irresponsabilidade. A pessoa que não assume riscos geralmente tem que se contentar com o que resta após os outros terminarem suas escolhas. O risco faz parte do nosso dia a dia, temos que aceitá-lo e utilizá-lo a nosso favor. No entanto, quem os assume deve conhecê-los, estudá-los, deve saber exatamente quais os benefícios, bem como as consequências pelo insucesso. “Excesso de cuidado é tão prejudicial quanto falta de cuidado. Ambos são extremos dos quais devemos nos proteger, pois a vida por si só já está cheia de fatalidades”;

09. Preconceito e intolerância: pessoas com essas características param de adquirir conhecimento, pois têm a mente fechada para novos assuntos e opiniões, assim, raramente avançam. Pessoas bem sucedidas mantém a mente aberta a novos desafios. O intolerante não consegue compreender o outro em suas intenções ou observações e interpreta tudo segundo seu código particular de conduta, pois não admite que a outra pessoa - subordinada ou não - possa ter um ponto de vista ou modo de vida diferente do seu parâmetro, e reage a isso de modo agressivo. As mais danosas formas de preconceito e intolerância são aquelas ligadas à religião, política, étnica, problemas raciais e sexo;

10. Hábito de gastar muito: uma pessoa financeiramente descontrolada não pode ser bem sucedida porque ela permanece eternamente com medo da pobreza. Adquira o hábito de economizar sistematicamente um percentual de sua renda. Segundo Hill “Dinheiro no banco proporciona uma base encorajadora para barganhar na venda de seus serviços pessoais. Sem dinheiro, você deve aceitar o que for oferecido, e ser grato por isso;”

11. Egoísmo e vaidade: são qualidades que servem como luzes vermelhas de alerta, que advertem os outros a manter distância. O egoísta acredita ser mais importante que os demais mortais e coloca seus interesses, opiniões e necessidades em primeiro lugar, em detrimento das demais pessoas com que se relaciona. O vaidoso tem cuidado exagerado com aparência, pelo prazer ou com o objetivo de atrair a admiração de terceiros e sente a necessidade de se exibir, de ostentar. Egoístas e vaidosos vêm e escutam o que lhes interessa e na maioria das vezes cometem erros graves que poderiam ser evitados. Podem ter sucesso, mas raramente o mantém por muito tempo;

12.  Falta de entusiasmo: segundo Hill sem entusiasmo não se pode ser convincente. Além disso, o entusiasmo pode ser contagioso e aqueles que o possuem são geralmente aceitos em qualquer grupo de pessoas. O homem de negócios bem sucedido é motivado, trabalha com entusiasmo, gosta de desafios, na maioria das vezes gosta do que faz e desempenha suas atividades da melhor maneira possível, assim, atingem o sucesso e o mantém.

Portanto, não é tão fácil evitar os princípios descritos acima para obter e se manter uma pessoa de sucesso seja no mundo empresarial, familiar ou em qualquer outro ramo da atividade humana. Muitos desses princípios já viraram crenças, logo, depende de grande esforço e persistência para alterá-los, mas com tempo e paciência tudo é possível. Se você deseja ser um bom pai de família, um profissional bem sucedido e um membro respeitável da comunidade, dependerá exclusivamente de você. Nunca desista, fique atento as suas atitudes, elas fazem a diferença entre o sucesso e o fracasso.


¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais, gestão e desenvolvimento de pessoas. Educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, vida financeira saudável, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, e bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

INTENÇÃO DE CONSUMO DAS FAMILÍAS SOBE EM FEV/18
Régis Varão/¹

A pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias-ICF divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens-CNC, apresentou crescimento de 4,2% em fev/18, na comparação com o mês anterior, e subiu 13% na comparação anual, atingindo 87,1 pontos, o maior valor mensal desde jun/15  quando chegou a 91,7 pontos. Apesar do resultado, o índice se mantém abaixo da zona de indiferença (100 pontos), o que reflete uma percepção de insatisfação das famílias com a situação atual. Segundo o relatório da CNC, “o resultado abaixo dos 100 pontos ainda indica uma recuperação lenta do otimismo das famílias”.

O nível de confiança das famílias com renda inferior a dez salários mínimos (<10 SM) apresentou melhora de 4,2% na comparação mensal, enquanto famílias com renda superior a dez salários mínimos (>10 SM) registraram elevação de 4%. Em fev/18, o índice das famílias de maior renda se situa em 100,7 pontos e o das demais, em 84,4 pontos.

Cabe observar que o índice desagregado por faixa de renda das famílias mais pobres continua abaixo da zona de indiferença, enquanto o índice das famílias com maior renda ficou acima dos 100 pontos, fato que não acontecia desde abr/15 quando atingiu 100,6 pontos. Na comparação regional, todas apresentaram crescimento mensal, tendo o Sudeste registrado o maior incremento no índice geral com +5,7%.

De acordo com Bruno Fernandes, da CNC, “A desaceleração do número de demissões, aliada à trajetória favorável da inflação e queda, ainda que suave, das taxas de juros, impactou positivamente a confiança das famílias no início de 2018”.

A seguir, uma análise dos componentes do ICF:

1. Emprego Atual:

Com relação ao mercado de trabalho, esse componente apresentou elevação de 2,3% em fev/18 (112,3 pontos) ante o mês anterior, e subiu 5,6% na comparação anual. Por outro lado, o percentual de famílias que se sentem mais seguras em relação ao Emprego Atual em fev/18 está em 33,8%, ante 33,4% observado em janeiro deste ano.

As regiões Centro-Oeste (140 pontos), Norte (131,7 pontos) e Sul (107,9 pontos) são as mais confiantes em relação ao Emprego Atual, com variações mensais de respectivamente -0,1%, +1% e +5,8%. Já as regiões Nordeste (104,8 pontos) e Sudeste (106,9 pontos) registraram os menores níveis de confiança. O indicador Emprego Atual é o maior observado entre os componentes do ICF.

2. Nível de Consumo Atual:

Esse componente registrou crescimento de 4,8% em fev/18 (62,7 pontos) frente ao mês anterior, e apresentou crescimento de 19,9% na comparação anual. De acordo com o relatório do ICF, “A maior parte das famílias, 54,1%, declarou estar com o nível de consumo menor que o do ano passado. O índice se situa em 62,7 pontos”. O índice registra o menor nível entre os componentes do ICF em fev/18, embora tenha registrado o maior valor desde jul/15 quando chegou a 67,2 pontos.

3. Acesso ao Crédito (Compra a Prazo):

O componente Acesso ao Crédito apresentou variação positiva de 3,6% em fev/18 (79 pontos) ante o mês anterior, e subiu 16,8% em relação ao mesmo período de 2017. Entre os componentes do ICF, essa modalidade registrou a quarta maior variação positiva na variação anual. O valor registrado em fev/18 foi o maior desde ago/15 quando atingiu 80,9 pontos.

4. Momento para Duráveis:

O indicador apresentou elevação de 5,8% em fev/18 ao chegar a 65,8 pontos, ante o mês anterior, e registrou alta de 23,5% na comparação anual. O indicador apresentou a maior variação mensal positiva e o segundo maior crescimento na comparação anual. O valor observado no segundo mês deste ano foi o maior verificado desde mai/15 quando chegou em 70,4 pontos. O indicador continua abaixo da zona de indiferença.

Considerando por faixa de renda, as famílias com renda <10 SM registraram aumento de 5,1% em fev/18, na comparação mensal, no componente Momento para Duráveis, e as com renda acima de 10 SM apresentaram crescimento de 7,3%. Segundo o relatório do ICF, “Regionalmente, esse indicador variou de 84,8 pontos (Sul) a 51,2 pontos (Norte)”.

Ainda de acordo com o relatório do ICF, “A menor volatilidade da taxa de câmbio e as melhores condições de crédito, com o leve recuo no custo de aquisição de empréstimos, influenciaram na maior disposição ao consumo, em especial na compra de bens duráveis”.

5. Renda Atual:

Com relação a esse componente houve variação positiva de 4,8% em fev/18 (99,8 pontos) ante o mês anterior, e subiu 10,3% na comparação anual. O indicador ficou próximo da zona de indiferença (100 pontos), e o valor observado em fev/18 foi o mais elevado desde ago/15 quando chegou a 100,2 pontos.

6. Perspectiva de Consumo:

O componente apresentou elevação de 3,6% em fev/18 (84,9 pontos) frente ao mês anterior e registrou incremento de 25,7% na comparação anual, tendo registrado a maior variação positiva na comparação anual entre os componentes do ICF. As famílias com renda <10 SM registraram crescimento de 3,4% em fev/18, na comparação mensal, enquanto as famílias com renda >10 SM subiram 4,6%.

7. Perspectiva Profissional:

O indicador registrou incremento de 5,3% em fev/18 (105,1 pontos), na comparação mensal, e alta de 3,3% ante igual período de 2017. O valor do componente em fevereiro, foi o segundo maior entre os componentes do ICF em fev/18, e o maior desde jun/15 quando atingiu 107,6 pontos. A última vez que o indicador ficou acima da zona de indiferença foi em abr/17 ao chegar a 100,4 pontos. A melhora do cenário macroeconômico nos últimos meses tem contribuído para melhorar o desempenho do indicador.

Portanto, o desempenho positivo do índice em ambas as bases de comparação, deve-se em grande parte às expectativas de crescimento da renda e do comércio varejista nos próximos meses, ajudadas por menor pressão dos preços, recuperação do emprego e redução dos juros básicos da economia.


¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoas, educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, é também bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

EDUCAÇÃO FINANCEIRA, UM PROBLEMA MUNDIAL
Régis Varão/¹

No atual momento brasileiro, as pessoas que têm boa educação financeira não só possuem vantagem competitiva sobre os que não a possuem como sofrem menos os efeitos das adversidades financeiras, e em especial das situações decorrentes da crise. O indivíduo que dispõe de boa educação financeira, sabe utilizar de maneira adequada o dinheiro e o crédito. Esse conhecimento ajuda ter um ótimo plano de saúde, dar boa educação aos filhos, morar em imóvel confortável, a fazer uma reserva financeira, e a se preparar para uma aposentadoria com qualidade de vida. Enfim, pessoas com bons conhecimentos de finanças pessoais colocam o dinheiro para trabalhar para elas (isto é, recebem juros, dividendos, aluguéis etc), adquirem liberdade financeira e trilham o caminho da prosperidade.

Com conhecimentos de finanças pessoais, economia, contabilidade e matemática financeira é mais fácil ganhar dinheiro e mantê-lo. É muito importante para uma vida financeira saudável, adquirir conhecimentos naquelas áreas afins. No entanto, não é necessário para ser bem sucedido financeiramente ser um expert em economia ou finanças, mas o conhecimento, mesmo que o básico, daquelas ferramentas permitem identificar oportunidades de bons negócios e ajudam a atingir a liberdade financeira. Assim, patrimônio e renda passiva é uma boa combinação para formação e manutenção de riqueza.

Muita gente toma decisões financeiras inadequadas o tempo todo, que causam grandes prejuízos e elevado nível de estresse. Poucos aprendem com os erros, no entanto, a maioria não reflete o suficiente para não repeti-los, o que seria uma atitude adequada e de grande aprendizado. No entanto, muitos cometem erros financeiros e vivem eternamente uma vida de escassez, sempre no vermelho, sempre com contas atrasadas, muitos boletos bancários sob a mesa, e o pior continuam trabalhando pelo dinheiro, afinal têm de pagar o aluguel, o financiamento do carro, o colégio dos filhos etc. O pior dos maus hábitos financeiros é a repetição desses comportamentos pelos filhos ao se tornarem adultos, sendo assim, mais gerações de adultos financeiramente imprudentes.

É importante ressaltar que as pessoas tendem a superestimar seu conhecimento a respeito de finanças, o que aumenta muito a probabilidade de tomarem decisões equivocadas. O artigo The Economic Importance of Financial Literacy: Theory and Evidence, dos professores Annamaria Lusardi, da Universidade George Washington, e Olivia Mitchell, da Universidade da Pensilvânia, trata da importância da educação financeira e trabalha com dados de 12 países, no período 2011-13. A pesquisa está baseada em três perguntas simples envolvendo juros, inflação e mercado de ações. Os resultados são preocupantes quanto ao grau de conhecimento de educação financeira. Os alemães obtiveram as melhores pontuações com 53% de acerto, o que é um resultado medíocre. Depois vem os suíços (50%), os franceses (31%), os norte-americanos (30%), os italianos (25%) e no final temos russos e romenos com 4%. O brasileiros não participaram da pesquisa mas provavelmente não teriam bom desempenho.

Considerando o pouco conhecimento de educação financeira do brasileiro, também um problema mundial, vamos citar dados da Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), de jan/18, publicada pela CNC. Segundo a pesquisa, o nível de endividamento das famílias brasileiras passou de 58,7% em jan/17 para 61,3% em jan/18, embora tenha declinado com relação a dez/17 quando atingiu 62,2%. Com relação ao total de famílias com dívidas ou contas em atraso subiu de 23,9% em jan/17 para 25% um ano depois.

Outro dado preocupante trata da preferência das famílias por determinado tipo de endividamento. Ainda segundo a PEIC, o cartão de crédito lidera a preferência das famílias com 77,4%; seguido de carnês de lojas com 16,9%; financiamento de carro (11%); crédito pessoal com 9,9%; financiamento de casa (8,4%); crédito consignado com 5,4%; cheque especial (5%) e cheque pré-datado com 1%. A pesquisa analisa duas faixas de renda, uma com renda até 10 salários mínimos e a outra com renda acima de 10 salários mínimos. O endividamento com cartão de crédito lidera nas duas faixas de renda, o que demonstra ausência de educação financeira.

Outro dado negativo, o Brasil terminou 2017 com 60,4 milhões de inadimplentes, representando redução de 1,2% em relação ao dado observado em nov/17 quando chegou a 61,1 milhões. De acordo com relatório da Serasa Experian, “O indicador não registrava queda desde julho do ano passado, quando também alcançou o patamar de 60,4 milhões. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, quando o número era de 59,6 milhões, houve alta de 1,34%”.

Ao longo de 2017, vários bilhões de reais foram injetados na economia, seja através da liberação dos saques das contas inativas do FGTS (cerca de R$44 bilhões), seja os recursos do PIS Pasep, 13º salário etc. Os recursos, pelo que indica as estatísticas de endividamento, não foram utilizados no pagamento de dívidas, embora parte significativa possivelmente tenha sido utilizada na aquisição de bens e serviços. Por outro lado, a caderneta de poupança pode ter se beneficiado de parte desses recursos, tendo em vista a elevação dos depósitos em 2017, após dois anos - 2015 e 2016 - de saques superiores aos depósitos. Em jun/17 o endividamento das famílias estava em 59,4%, em set/17 subiu para 61,7%, três meses depois em dez/17 atingiu 62,2% e em jan/18 caiu para 61,3%. Com todo aquele volume de dinheiro injetado na economia o endividamento continuou elevado em 2017. Cabe registrar que a inadimplência permaneceu praticamente estável durante o segundo semestre de 2017.

A seguir, algumas informações a respeito do comportamento do brasileiro no quesito educação financeira:

(1) De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais-ANBIMA, de 9.11.17, em todo o País,  apenas 23,8% da população economicamente ativa afirma fazer algum tipo de investimento, e entre o público que se declara investidor, a maioria está na classe A com 42%, a classe C com 18%. Segundo a pesquisa, 13,84% conhece mas não faz nenhum tipo de investimento, enquanto 62,34% nem sequer conhece algum tipo de investimento.

Segundo a ANBIMA, “Os brasileiros ainda têm pouca consciência de seu protagonismo em relação às próprias finanças. O hábito de priorizar o consumo, ao invés de poupar, é uma questão cultural por aqui”. “Na América Latina, somos o país com a menor taxa de poupança, atrás até de nações cuja renda per capta é menor". O percentual da população que já começou a investir, a caderneta de poupança lidera com 16,41%, os fundos de investimentos (renda fixa) vêm em segundo lugar com 2%, seguido da previdência privada (1,85%), compra e venda de imóveis (1,45%), títulos públicos (tesouro direto) com 1,39% e os fundos como ativos de renda variável (ações e multimercados) com 1,24%.

(2) A pesquisa Brasil Econômico, de 30.1.17, “mostra  que 58% dos poupadores não sabem quais os investimentos com as melhores taxas de retorno - percentual que aumenta para 66% entre as mulheres e 63% entre os pertencentes às classes C, D e E. Em contrapartida, 42% garantem saber os rendimentos de suas aplicações”. A caderneta de poupança, “mesmo sendo a aplicação menos indicada e rentável, é a com maior procura entre os brasileiros tendo sido citada na pesquisa por 61% dos respondentes. O tempo médio que o brasileiro deixa o dinheiro na poupança é de três anos tendo como valor médio acumulado no período de R$ 2.152. Para 38% dos que investem na poupança, a escolha desse investimento deve-se ao fato da flexibilidade para o uso do dinheiro guardado quando necessário”.

(3) Segundo a publicação Você S/A, Especial Previdência, de ago/14, 54% dos pesquisados não pouparam nenhum centavo no mês anterior; 51% dos que têm conta em banco estão com o saldo zero ou no vermelho; 82% não sabem ao certo quanto ganham ou gastam; 36% não sabem o valor exato das contas mensais; 28% atrasam as contas de água, luz e telefone; 63% tem algum tipo de dívida no momento; 52% não sabem calcular juros; 69% financiam compras pensando no valor da parcela, e não nos juros; 40% admitem que fazem gastos que poderiam ser cortados e 30% das pessoas pesquisadas admitem comprar por impulso.

As informações acima são motivos de preocupação tendo em vista o desconhecimento das famílias a respeito de educação financeira, o que mostra os dados da PEIC de endividamento, mais o elevado percentual de pessoas que não faz poupança, não sabem calcular juros, miram no valor da parcela e não se preocupam com quanto estão pagando de juros, logo, não praticam consumo consciente. Essa desinformação tem resultado na alta do endividamento do brasileiro, tem contribuído para reduzir a produtividade da economia como um todo e aumentar os custos da saúde pública para atender os problemas decorrentes dos descontroles financeiros.

Considerando o elevado nível de inadimplência, o crescente endividamento das famílias e a opção por dívidas mais caras (cartão de crédito), listamos sete dicas que podem contribuir para que os consumidores adotem atitudes financeiramente saudáveis:

1. O inadimplente não deve adquirir mais bens ou serviços, evite fazer novas dívidas. Liquide dívidas que cobram taxas de juros elevadas (cartão de crédito e cheque especial) ou com vencimento mais próximo;

2. Liquide a fatura do cartão de crédito mensalmente, use o débito automático. Mesmo com as mudanças feitas pelo Banco Central a partir de abr/17, quanto ao pagamento do rotativo do cartão de crédito, os juros cobrados continuam elevados. Faça planejamento financeiro, tenha uma lista de prioridades, compre apenas o necessário e não esqueça que as despesas precisam estar de acordo com o orçamento. Fuja de   parcelamentos;

3. Pense nas despesas de início de ano, como matrícula de colégios, faculdades, material escolar dos filhos, IPTU, IPVA, seguros e outros. Se a família está endividada, transfira os filhos das escolas particulares para as públicas. No entanto, se puder mantê-los em colégios privados está na hora de negociar descontos, algumas escolas aceitam negociar as mensalidades;

4. Não antecipe a parcela do 13º junto a bancos, os juros cobrados são elevados. Caso precise de empréstimo, compare o custo de antecipar o 13º com o de outras linhas de crédito como o consignado;

5. Se o dinheiro não está sendo suficiente para quitar as dívidas, negocie com a empresa uma antecipação de férias ou a venda de alguns dias de trabalho;

6. As compras natalinas ou em períodos festivos (dia da criança, das mães, dos pais etc) devem ser observadas pelo ângulo da necessidade e não do desejo. Pergunte-se qual a necessidade de cada presente, pesquise, compre com antecedência os presentes, busque alternativas mais baratas, seja criativo, no Natal faça amigo oculto, nas outras datas comemorativas compre sem pressa e barganhe sempre. Aproveite os descontos do Black Friday, o maior evento de e-commerce brasileiro e os descontos de mudança de estação para os presentes femininos. Nas compra pela internet, fique atento para a maquiagem de preços, e cuidado com o valor do frete, um grande vilão;

7. Por último, guarde uma parcela da gratificação de Natal e das bonificações extras para reforçar a reserva financeira. No entanto, se estiver endividado priorize a quitação de dívidas.

Portanto, quanto mais cedo começar a economizar e formar reserva financeira mais garantia de uma aposentadoria com qualidade de vida. Não espere chegar à véspera da aposentadoria para pensar nela, o esforço será muito grande. Lembre-se, as regras da aposentadoria estão mudando e nem sempre nos satisfazem. Quanto mais cedo pensar em uma reserva financeira para a aposentadoria, maior será a renda passiva gerada por esses recursos. Após décadas de trabalho, você merece ter liberdade financeira, mas ela depende de atitudes financeiramente saudáveis que você adota ao longo de sua vida.


¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoa. Educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, vida financeira saudável, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, e bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

CAI O ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS EM JANEIRO
Régis Varão/¹

O total de famílias brasileiras endividadas em janeiro deste ano caiu quando comparado aos meses de novembro e dez/17, mas ficou acima do observado em jan/17. O percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso também declinou entre dez/17 e jan/18, bem como o percentual de famílias sem condições de pagar suas contas. Na comparação anual, o percentual de famílias com dívidas em atraso subiu, enquanto o percentual de famílias sem condições de pagar suas contas caiu, segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

O percentual de famílias com dívidas, entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro atingiu 61,3% em jan/18, um decréscimo em relação ao percentual observado em dez/17 quando chegou a 62,2%.

Seguindo o declínio do endividamento das famílias, o percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso caiu em jan/18 para 25% ante 25,7% registrado em dez/17, e apresenta elevação quando comparado a jan/17 quando chegou a 58,7%. Por outro lado, houve elevação do nível de inadimplência em jan/18 quando atingiu 25%, enquanto em jan/17 registrou 23,9% do total. O percentual de famílias sem condições de pagar suas dívidas em atraso, assim, permanecem inadimplentes, caiu de 9,7% em dez/17 para 9,5% em jan/18, registrando declínio frente aos 10,2% de jan/17.

O número de famílias endividadas, na comparação mensal, apresentou decréscimo em ambas as faixas de renda pesquisadas - baixa renda (até 10 salários mínimos-SM) e maior renda (acima de 10 SM). Na comparação anual, ambas as faixas de renda registraram elevação. Para as famílias que ganham até 10 SM, o percentual de famílias com dívidas chegou a 62,9% em jan/18, abaixo dos 63,7% de dez/17. Com relação às famílias com renda acima de 10 SM, o endividamento caiu de 54,6% em dez/17 para 53,6% no mês seguinte.

Com relação ao percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso, houve redução do indicador nas duas faixas de renda, na comparação mensal, enquanto cresceu na comparação anual. Nas famílias com renda até 10 SM, o percentual de famílias com dívidas em atraso decresceu de 29,1% em dez/17 para 28,2% em jan/18. Em jan/17, 27% das famílias nessa faixa de renda estavam com as contas em atraso, enquanto nas faixas acima de 10 SM, o percentual de inadimplentes atingiu 11% em jan/18, ante 11,3% em dez/17 e 10,9% observado em jan/17.

Considerando as faixas de renda pesquisadas, o percentual de famílias sem condições de pagar contas em atraso apresentou comportamento distinto, na comparação mensal, entre os grupos pesquisados. Na faixa de renda até 10 salários mínimos (SM), o indicador alcançou 3,5% em jan/18, ante 3,2% de dez/17. Para o grupo com renda acima de 10 SM, o percentual de famílias sem condições de quitar suas dívidas caiu de 11,6%, em dez/17, para 11% em jan/18.

O percentual de famílias muito endividadas decresceu de 14,1% em dez/17  para 13,6% em jan/18. Entre jan/17 e jan/18, a parcela mais ou menos endividada subiu de 21,2% para 23,4%, e a pouco endividada passou de 23,1% para 24,4% do total de famílias, naquela base de comparação.

Entre as famílias com contas ou dívidas em atraso, o tempo médio de atraso chegou a 65 dias em jan/18, enquanto em jan/17 atingiu 65,6 dias. O tempo médio de permanência das famílias com dívidas foi 7 meses, com 25,2% comprometidas com dívidas até 90 dias, e 32,2%, por mais de 12 meses. Ainda entre as famílias endividadas, a parcela média da renda comprometida com dívidas manteve-se praticamente estável ao passar de 29,8% em jan/17 para 29,9% em jan/18, enquanto 22,2% delas afirmaram ter mais da metade de sua renda mensal comprometida com pagamento de dívidas.

As dívidas com cartão de crédito continuam na preferência das famílias endividadas atingindo 77,4% em jan/18. Segue o carnê de loja com 16,9%, financiamento de carro com 11%, crédito pessoal com 9,9%, financiamento de casa com 8,4%, crédito consignado 5,4%, cheque especial com 5% e cheque pré-datado 1%.

Nas famílias com renda mais baixa (até 10 salários mínimos), o cartão de crédito chega a 78,3% e as famílias de maior renda (acima de 10 salários mínimos) atinge 73,8%. O carnê de loja chega a 18,3% no primeiro caso e cai para 10,1% para as famílias de maior renda. Duas grandes disparidades acontecem: financiamento de carro chega a 8,8% para famílias de baixa renda e sobe para 21,4% para as de maior renda; e financiamento de casa chega a 6,7% para famílias até 10 SM e sobe para 16,3% para as famílias de maior renda.

Portanto, a queda da inflação, a redução dos juros, a elevação do emprego e um consumidor mais confiante em 2018, tem contribuído para melhorar o comportamento dos principais indicadores macroeconômicos, embora o endividamento das famílias brasileiras continue elevado. Por outro lado, a preferência das famílias brasileiras pelo cartão de crédito, como forma de endividamento, demonstra desconhecimento de educação financeira. Políticas governamentais de estímulo a hábitos financeiros saudáveis entre a população, contribuiria fortemente para reduzir o endividamento das famílias.


¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoa. Educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, vida financeira saudável, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, e bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.