EDUCAÇÃO
FINANCEIRA, UM PROBLEMA MUNDIAL
Régis
Varão/¹
No
atual momento brasileiro, as pessoas que têm boa educação financeira não só possuem
vantagem competitiva sobre os que não a possuem como sofrem menos os efeitos das
adversidades financeiras, e em especial das situações decorrentes da crise. O
indivíduo que dispõe de boa educação financeira, sabe utilizar de maneira adequada
o dinheiro e o crédito. Esse conhecimento ajuda ter um ótimo plano de saúde,
dar boa educação aos filhos, morar em imóvel confortável, a fazer uma reserva
financeira, e a se preparar para uma aposentadoria com qualidade
de vida. Enfim, pessoas com bons conhecimentos de finanças pessoais
colocam o dinheiro para trabalhar para elas (isto é, recebem juros, dividendos,
aluguéis etc), adquirem liberdade financeira e trilham o caminho da
prosperidade.
Com
conhecimentos de finanças pessoais, economia, contabilidade e matemática
financeira é mais fácil ganhar dinheiro e mantê-lo. É muito importante para uma
vida financeira saudável, adquirir conhecimentos naquelas áreas afins. No
entanto, não é necessário para ser bem sucedido financeiramente ser um expert
em economia ou finanças, mas o conhecimento, mesmo que o básico, daquelas
ferramentas permitem identificar oportunidades de bons negócios e ajudam a atingir
a liberdade financeira. Assim, patrimônio e renda passiva é uma boa combinação
para formação e manutenção de riqueza.
Muita
gente toma decisões financeiras inadequadas o tempo todo, que causam grandes
prejuízos e elevado nível de estresse. Poucos aprendem com os erros, no
entanto, a maioria não reflete o suficiente para não repeti-los, o que seria
uma atitude adequada e de grande aprendizado. No entanto, muitos cometem erros
financeiros e vivem eternamente uma vida de escassez, sempre no vermelho,
sempre com contas atrasadas, muitos boletos bancários sob a mesa, e o pior continuam
trabalhando pelo dinheiro, afinal têm de pagar o aluguel, o financiamento do
carro, o colégio dos filhos etc. O pior dos maus
hábitos financeiros é a repetição desses comportamentos pelos filhos ao
se tornarem adultos, sendo assim, mais gerações de adultos financeiramente imprudentes.
É
importante ressaltar que as pessoas tendem a superestimar seu conhecimento a
respeito de finanças, o que aumenta muito a probabilidade de tomarem decisões
equivocadas. O artigo The Economic Importance of Financial Literacy: Theory and Evidence, dos professores Annamaria Lusardi, da Universidade George Washington, e Olivia Mitchell, da Universidade da Pensilvânia, trata da
importância da educação financeira e trabalha com dados de 12 países, no
período 2011-13. A pesquisa está baseada em três perguntas simples envolvendo
juros, inflação e mercado de ações. Os resultados são preocupantes quanto ao
grau de conhecimento de educação financeira. Os alemães obtiveram as melhores
pontuações com 53% de acerto, o que é um resultado medíocre. Depois vem os
suíços (50%), os franceses (31%), os norte-americanos (30%), os italianos (25%)
e no final temos russos e romenos com 4%. O brasileiros não participaram da
pesquisa mas provavelmente não teriam bom desempenho.
Considerando
o pouco conhecimento de educação financeira do brasileiro, também um problema
mundial, vamos citar dados da Pesquisa Nacional de Endividamento e
Inadimplência do Consumidor (PEIC),
de jan/18, publicada pela CNC.
Segundo a pesquisa, o nível de endividamento das famílias brasileiras passou de
58,7% em jan/17 para 61,3% em jan/18, embora tenha declinado com relação a
dez/17 quando atingiu 62,2%. Com relação ao total de famílias com dívidas ou
contas em atraso subiu de 23,9% em jan/17 para 25% um ano depois.
Outro
dado preocupante trata da preferência das famílias por determinado tipo de endividamento.
Ainda segundo a PEIC,
o cartão de crédito lidera a preferência das famílias com 77,4%; seguido de
carnês de lojas com 16,9%; financiamento de carro (11%); crédito pessoal com 9,9%;
financiamento de casa (8,4%); crédito consignado com 5,4%; cheque especial (5%)
e cheque pré-datado com 1%. A pesquisa analisa duas faixas de renda, uma com
renda até 10 salários mínimos e a outra com renda acima de 10 salários mínimos.
O endividamento com cartão de crédito lidera nas duas faixas de renda, o que
demonstra ausência de educação financeira.
Outro
dado negativo, o Brasil terminou 2017 com 60,4 milhões de inadimplentes,
representando redução de 1,2% em relação ao dado observado em nov/17 quando
chegou a 61,1 milhões. De acordo com relatório da Serasa Experian, “O indicador não registrava queda desde julho do
ano passado, quando também alcançou o patamar de 60,4 milhões. Na comparação
com o mesmo mês do ano anterior, quando o número era de 59,6 milhões, houve
alta de 1,34%”.
Ao
longo de 2017, vários bilhões de reais foram injetados na economia, seja
através da liberação dos saques das contas inativas do FGTS (cerca de R$44 bilhões), seja os recursos do PIS Pasep, 13º salário etc. Os recursos, pelo que indica as estatísticas
de endividamento, não foram utilizados no pagamento de dívidas, embora parte significativa
possivelmente tenha sido utilizada na aquisição de bens e serviços. Por outro
lado, a caderneta de poupança pode ter se beneficiado de parte desses recursos,
tendo em vista a elevação dos depósitos em 2017, após dois anos - 2015 e 2016 -
de saques superiores aos depósitos. Em jun/17 o endividamento das famílias
estava em 59,4%, em set/17 subiu para 61,7%, três meses depois em dez/17 atingiu
62,2% e em jan/18 caiu para 61,3%. Com todo aquele volume de dinheiro injetado
na economia o endividamento continuou elevado em 2017. Cabe registrar que a
inadimplência permaneceu praticamente estável durante o segundo semestre de
2017.
A
seguir, algumas informações a respeito do comportamento do brasileiro no
quesito educação financeira:
(1) De acordo com a Associação Brasileira das
Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais-ANBIMA, de 9.11.17, em todo o País, apenas 23,8% da população economicamente ativa
afirma fazer algum tipo de investimento, e entre o público que se declara
investidor, a maioria está na classe A com 42%, a classe C com 18%. Segundo a
pesquisa, 13,84% conhece mas não faz nenhum tipo de investimento, enquanto
62,34% nem sequer conhece algum tipo de investimento.
Segundo
a ANBIMA, “Os brasileiros ainda têm pouca consciência de
seu protagonismo em relação às próprias finanças. O hábito de priorizar o
consumo, ao invés de poupar, é uma questão cultural por aqui”. “Na América
Latina, somos o país com a menor taxa de poupança, atrás até de nações cuja
renda per capta é menor". O percentual da população que já começou a
investir, a caderneta de poupança lidera com 16,41%, os fundos de investimentos
(renda fixa) vêm em segundo lugar com 2%, seguido da previdência privada
(1,85%), compra e venda de imóveis (1,45%), títulos públicos (tesouro direto)
com 1,39% e os fundos como ativos de renda variável (ações e multimercados) com
1,24%.
(2)
A pesquisa Brasil Econômico, de 30.1.17, “mostra que 58% dos poupadores não sabem quais os
investimentos com as melhores taxas de retorno - percentual que aumenta para
66% entre as mulheres e 63% entre os pertencentes às classes C, D e E. Em contrapartida,
42% garantem saber os rendimentos de suas aplicações”. A caderneta de poupança,
“mesmo sendo a aplicação
menos indicada e rentável, é a com maior procura entre os brasileiros tendo
sido citada na pesquisa por 61% dos respondentes. O tempo médio que o
brasileiro deixa o dinheiro na poupança é de três anos tendo como valor médio
acumulado no período de R$ 2.152. Para 38% dos que investem na poupança, a
escolha desse investimento deve-se ao fato da flexibilidade para o uso do
dinheiro guardado quando necessário”.
(3)
Segundo a publicação Você S/A, Especial Previdência, de ago/14, 54% dos
pesquisados não pouparam nenhum centavo no mês anterior; 51% dos que têm conta
em banco estão com o saldo zero ou no vermelho; 82% não sabem ao certo quanto
ganham ou gastam; 36% não sabem o valor exato das contas mensais; 28% atrasam
as contas de água, luz e telefone; 63% tem algum tipo de dívida no momento; 52%
não sabem calcular juros; 69% financiam compras pensando no valor da parcela, e
não nos juros; 40% admitem que fazem gastos que poderiam ser cortados e 30% das
pessoas pesquisadas admitem comprar por impulso.
As
informações acima são motivos de preocupação tendo em vista o desconhecimento
das famílias a respeito de educação financeira, o que mostra os dados da PEIC
de endividamento, mais o elevado percentual de pessoas que não faz poupança,
não sabem calcular juros, miram no valor da parcela e não se preocupam com quanto
estão pagando de juros, logo, não praticam consumo consciente. Essa
desinformação tem resultado na alta do endividamento do brasileiro, tem contribuído
para reduzir a produtividade da economia como um todo e aumentar os custos da
saúde pública para atender os problemas decorrentes dos descontroles
financeiros.
Considerando
o elevado nível de inadimplência, o crescente endividamento das famílias e a
opção por dívidas mais caras (cartão de crédito), listamos sete dicas que podem
contribuir para que os consumidores adotem atitudes financeiramente saudáveis:
1. O inadimplente não deve adquirir mais bens ou
serviços, evite fazer novas dívidas. Liquide dívidas que cobram taxas de juros
elevadas (cartão de crédito e cheque especial) ou com vencimento mais próximo;
2. Liquide a fatura do cartão de crédito mensalmente,
use o débito automático. Mesmo com as mudanças feitas pelo Banco Central a
partir de abr/17, quanto ao pagamento do rotativo do cartão de crédito, os
juros cobrados continuam elevados. Faça planejamento financeiro, tenha uma lista
de prioridades, compre apenas o necessário e não esqueça que as despesas
precisam estar de acordo com o orçamento.
Fuja de parcelamentos;
3. Pense nas despesas de início de ano, como
matrícula de colégios, faculdades, material escolar dos filhos, IPTU, IPVA,
seguros e outros. Se a família está endividada, transfira os filhos das escolas
particulares para as públicas. No entanto, se puder mantê-los em colégios privados
está na hora de negociar descontos, algumas escolas aceitam negociar as
mensalidades;
4. Não antecipe a parcela do 13º junto a bancos,
os juros cobrados são elevados. Caso precise de empréstimo, compare o custo de
antecipar o 13º com o de outras linhas de crédito como o consignado;
5. Se o dinheiro não está sendo suficiente para
quitar as dívidas, negocie com a empresa uma antecipação de férias ou a venda
de alguns dias de trabalho;
6. As compras natalinas ou em períodos festivos (dia
da criança, das mães, dos pais etc) devem ser observadas pelo ângulo da
necessidade e não do desejo. Pergunte-se qual a necessidade de cada presente,
pesquise, compre com antecedência os presentes, busque alternativas mais
baratas, seja criativo, no Natal faça amigo oculto, nas outras datas comemorativas
compre sem pressa e barganhe sempre. Aproveite os descontos do Black Friday, o maior evento de
e-commerce brasileiro e os descontos de mudança de estação para os presentes
femininos. Nas compra pela internet, fique atento para a maquiagem de preços, e
cuidado com o valor do frete, um grande vilão;
7. Por último, guarde uma parcela da
gratificação de Natal e das bonificações extras para reforçar a reserva
financeira. No entanto, se estiver endividado priorize a quitação de dívidas.
Portanto,
quanto mais cedo começar a economizar e formar reserva financeira mais garantia
de uma aposentadoria com
qualidade de vida. Não espere chegar à véspera da aposentadoria para pensar
nela, o esforço será muito grande. Lembre-se, as regras da aposentadoria estão mudando
e nem sempre nos satisfazem. Quanto mais cedo pensar em uma reserva financeira
para a aposentadoria, maior será a renda passiva gerada por esses recursos.
Após décadas de trabalho, você merece ter liberdade financeira, mas ela depende
de atitudes financeiramente saudáveis que você adota ao longo de sua vida.
¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em
finanças pessoais e desenvolvimento de pessoa. Educador e planejador financeiro
há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência
financeira, vida financeira saudável, liderança e conjuntura macroeconômica.
Economista com mestrado e doutorado em economia, e bacharel em direito. Tem se
dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário
durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o
site www.ravecofinancas.com.
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