quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

EDUCAÇÃO FINANCEIRA, UM PROBLEMA MUNDIAL
Régis Varão/¹

No atual momento brasileiro, as pessoas que têm boa educação financeira não só possuem vantagem competitiva sobre os que não a possuem como sofrem menos os efeitos das adversidades financeiras, e em especial das situações decorrentes da crise. O indivíduo que dispõe de boa educação financeira, sabe utilizar de maneira adequada o dinheiro e o crédito. Esse conhecimento ajuda ter um ótimo plano de saúde, dar boa educação aos filhos, morar em imóvel confortável, a fazer uma reserva financeira, e a se preparar para uma aposentadoria com qualidade de vida. Enfim, pessoas com bons conhecimentos de finanças pessoais colocam o dinheiro para trabalhar para elas (isto é, recebem juros, dividendos, aluguéis etc), adquirem liberdade financeira e trilham o caminho da prosperidade.

Com conhecimentos de finanças pessoais, economia, contabilidade e matemática financeira é mais fácil ganhar dinheiro e mantê-lo. É muito importante para uma vida financeira saudável, adquirir conhecimentos naquelas áreas afins. No entanto, não é necessário para ser bem sucedido financeiramente ser um expert em economia ou finanças, mas o conhecimento, mesmo que o básico, daquelas ferramentas permitem identificar oportunidades de bons negócios e ajudam a atingir a liberdade financeira. Assim, patrimônio e renda passiva é uma boa combinação para formação e manutenção de riqueza.

Muita gente toma decisões financeiras inadequadas o tempo todo, que causam grandes prejuízos e elevado nível de estresse. Poucos aprendem com os erros, no entanto, a maioria não reflete o suficiente para não repeti-los, o que seria uma atitude adequada e de grande aprendizado. No entanto, muitos cometem erros financeiros e vivem eternamente uma vida de escassez, sempre no vermelho, sempre com contas atrasadas, muitos boletos bancários sob a mesa, e o pior continuam trabalhando pelo dinheiro, afinal têm de pagar o aluguel, o financiamento do carro, o colégio dos filhos etc. O pior dos maus hábitos financeiros é a repetição desses comportamentos pelos filhos ao se tornarem adultos, sendo assim, mais gerações de adultos financeiramente imprudentes.

É importante ressaltar que as pessoas tendem a superestimar seu conhecimento a respeito de finanças, o que aumenta muito a probabilidade de tomarem decisões equivocadas. O artigo The Economic Importance of Financial Literacy: Theory and Evidence, dos professores Annamaria Lusardi, da Universidade George Washington, e Olivia Mitchell, da Universidade da Pensilvânia, trata da importância da educação financeira e trabalha com dados de 12 países, no período 2011-13. A pesquisa está baseada em três perguntas simples envolvendo juros, inflação e mercado de ações. Os resultados são preocupantes quanto ao grau de conhecimento de educação financeira. Os alemães obtiveram as melhores pontuações com 53% de acerto, o que é um resultado medíocre. Depois vem os suíços (50%), os franceses (31%), os norte-americanos (30%), os italianos (25%) e no final temos russos e romenos com 4%. O brasileiros não participaram da pesquisa mas provavelmente não teriam bom desempenho.

Considerando o pouco conhecimento de educação financeira do brasileiro, também um problema mundial, vamos citar dados da Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), de jan/18, publicada pela CNC. Segundo a pesquisa, o nível de endividamento das famílias brasileiras passou de 58,7% em jan/17 para 61,3% em jan/18, embora tenha declinado com relação a dez/17 quando atingiu 62,2%. Com relação ao total de famílias com dívidas ou contas em atraso subiu de 23,9% em jan/17 para 25% um ano depois.

Outro dado preocupante trata da preferência das famílias por determinado tipo de endividamento. Ainda segundo a PEIC, o cartão de crédito lidera a preferência das famílias com 77,4%; seguido de carnês de lojas com 16,9%; financiamento de carro (11%); crédito pessoal com 9,9%; financiamento de casa (8,4%); crédito consignado com 5,4%; cheque especial (5%) e cheque pré-datado com 1%. A pesquisa analisa duas faixas de renda, uma com renda até 10 salários mínimos e a outra com renda acima de 10 salários mínimos. O endividamento com cartão de crédito lidera nas duas faixas de renda, o que demonstra ausência de educação financeira.

Outro dado negativo, o Brasil terminou 2017 com 60,4 milhões de inadimplentes, representando redução de 1,2% em relação ao dado observado em nov/17 quando chegou a 61,1 milhões. De acordo com relatório da Serasa Experian, “O indicador não registrava queda desde julho do ano passado, quando também alcançou o patamar de 60,4 milhões. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, quando o número era de 59,6 milhões, houve alta de 1,34%”.

Ao longo de 2017, vários bilhões de reais foram injetados na economia, seja através da liberação dos saques das contas inativas do FGTS (cerca de R$44 bilhões), seja os recursos do PIS Pasep, 13º salário etc. Os recursos, pelo que indica as estatísticas de endividamento, não foram utilizados no pagamento de dívidas, embora parte significativa possivelmente tenha sido utilizada na aquisição de bens e serviços. Por outro lado, a caderneta de poupança pode ter se beneficiado de parte desses recursos, tendo em vista a elevação dos depósitos em 2017, após dois anos - 2015 e 2016 - de saques superiores aos depósitos. Em jun/17 o endividamento das famílias estava em 59,4%, em set/17 subiu para 61,7%, três meses depois em dez/17 atingiu 62,2% e em jan/18 caiu para 61,3%. Com todo aquele volume de dinheiro injetado na economia o endividamento continuou elevado em 2017. Cabe registrar que a inadimplência permaneceu praticamente estável durante o segundo semestre de 2017.

A seguir, algumas informações a respeito do comportamento do brasileiro no quesito educação financeira:

(1) De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais-ANBIMA, de 9.11.17, em todo o País,  apenas 23,8% da população economicamente ativa afirma fazer algum tipo de investimento, e entre o público que se declara investidor, a maioria está na classe A com 42%, a classe C com 18%. Segundo a pesquisa, 13,84% conhece mas não faz nenhum tipo de investimento, enquanto 62,34% nem sequer conhece algum tipo de investimento.

Segundo a ANBIMA, “Os brasileiros ainda têm pouca consciência de seu protagonismo em relação às próprias finanças. O hábito de priorizar o consumo, ao invés de poupar, é uma questão cultural por aqui”. “Na América Latina, somos o país com a menor taxa de poupança, atrás até de nações cuja renda per capta é menor". O percentual da população que já começou a investir, a caderneta de poupança lidera com 16,41%, os fundos de investimentos (renda fixa) vêm em segundo lugar com 2%, seguido da previdência privada (1,85%), compra e venda de imóveis (1,45%), títulos públicos (tesouro direto) com 1,39% e os fundos como ativos de renda variável (ações e multimercados) com 1,24%.

(2) A pesquisa Brasil Econômico, de 30.1.17, “mostra  que 58% dos poupadores não sabem quais os investimentos com as melhores taxas de retorno - percentual que aumenta para 66% entre as mulheres e 63% entre os pertencentes às classes C, D e E. Em contrapartida, 42% garantem saber os rendimentos de suas aplicações”. A caderneta de poupança, “mesmo sendo a aplicação menos indicada e rentável, é a com maior procura entre os brasileiros tendo sido citada na pesquisa por 61% dos respondentes. O tempo médio que o brasileiro deixa o dinheiro na poupança é de três anos tendo como valor médio acumulado no período de R$ 2.152. Para 38% dos que investem na poupança, a escolha desse investimento deve-se ao fato da flexibilidade para o uso do dinheiro guardado quando necessário”.

(3) Segundo a publicação Você S/A, Especial Previdência, de ago/14, 54% dos pesquisados não pouparam nenhum centavo no mês anterior; 51% dos que têm conta em banco estão com o saldo zero ou no vermelho; 82% não sabem ao certo quanto ganham ou gastam; 36% não sabem o valor exato das contas mensais; 28% atrasam as contas de água, luz e telefone; 63% tem algum tipo de dívida no momento; 52% não sabem calcular juros; 69% financiam compras pensando no valor da parcela, e não nos juros; 40% admitem que fazem gastos que poderiam ser cortados e 30% das pessoas pesquisadas admitem comprar por impulso.

As informações acima são motivos de preocupação tendo em vista o desconhecimento das famílias a respeito de educação financeira, o que mostra os dados da PEIC de endividamento, mais o elevado percentual de pessoas que não faz poupança, não sabem calcular juros, miram no valor da parcela e não se preocupam com quanto estão pagando de juros, logo, não praticam consumo consciente. Essa desinformação tem resultado na alta do endividamento do brasileiro, tem contribuído para reduzir a produtividade da economia como um todo e aumentar os custos da saúde pública para atender os problemas decorrentes dos descontroles financeiros.

Considerando o elevado nível de inadimplência, o crescente endividamento das famílias e a opção por dívidas mais caras (cartão de crédito), listamos sete dicas que podem contribuir para que os consumidores adotem atitudes financeiramente saudáveis:

1. O inadimplente não deve adquirir mais bens ou serviços, evite fazer novas dívidas. Liquide dívidas que cobram taxas de juros elevadas (cartão de crédito e cheque especial) ou com vencimento mais próximo;

2. Liquide a fatura do cartão de crédito mensalmente, use o débito automático. Mesmo com as mudanças feitas pelo Banco Central a partir de abr/17, quanto ao pagamento do rotativo do cartão de crédito, os juros cobrados continuam elevados. Faça planejamento financeiro, tenha uma lista de prioridades, compre apenas o necessário e não esqueça que as despesas precisam estar de acordo com o orçamento. Fuja de   parcelamentos;

3. Pense nas despesas de início de ano, como matrícula de colégios, faculdades, material escolar dos filhos, IPTU, IPVA, seguros e outros. Se a família está endividada, transfira os filhos das escolas particulares para as públicas. No entanto, se puder mantê-los em colégios privados está na hora de negociar descontos, algumas escolas aceitam negociar as mensalidades;

4. Não antecipe a parcela do 13º junto a bancos, os juros cobrados são elevados. Caso precise de empréstimo, compare o custo de antecipar o 13º com o de outras linhas de crédito como o consignado;

5. Se o dinheiro não está sendo suficiente para quitar as dívidas, negocie com a empresa uma antecipação de férias ou a venda de alguns dias de trabalho;

6. As compras natalinas ou em períodos festivos (dia da criança, das mães, dos pais etc) devem ser observadas pelo ângulo da necessidade e não do desejo. Pergunte-se qual a necessidade de cada presente, pesquise, compre com antecedência os presentes, busque alternativas mais baratas, seja criativo, no Natal faça amigo oculto, nas outras datas comemorativas compre sem pressa e barganhe sempre. Aproveite os descontos do Black Friday, o maior evento de e-commerce brasileiro e os descontos de mudança de estação para os presentes femininos. Nas compra pela internet, fique atento para a maquiagem de preços, e cuidado com o valor do frete, um grande vilão;

7. Por último, guarde uma parcela da gratificação de Natal e das bonificações extras para reforçar a reserva financeira. No entanto, se estiver endividado priorize a quitação de dívidas.

Portanto, quanto mais cedo começar a economizar e formar reserva financeira mais garantia de uma aposentadoria com qualidade de vida. Não espere chegar à véspera da aposentadoria para pensar nela, o esforço será muito grande. Lembre-se, as regras da aposentadoria estão mudando e nem sempre nos satisfazem. Quanto mais cedo pensar em uma reserva financeira para a aposentadoria, maior será a renda passiva gerada por esses recursos. Após décadas de trabalho, você merece ter liberdade financeira, mas ela depende de atitudes financeiramente saudáveis que você adota ao longo de sua vida.


¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoa. Educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, vida financeira saudável, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, e bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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