O PODER DOS PEQUENOS
NÚMEROS
Régis
Varão/¹
No
final dos anos noventa, o consultor norte-americano especialista em finanças
pessoais David Bach desenvolveu a teoria denominada Fator Café, publicada
no livro O Milionário Automático, um best seller internacional. A teoria mostra
basicamente que a chave para o progresso financeiro pessoal é ficar atento aos
pequenos valores gastos no dia a dia.
A
maioria das pessoas acredita que o segredo da prosperidade consiste unicamente
em buscar novas fontes de receita, procurar alternativas de emprego com salários
mais elevados, mudar de empresa, aumentar a renda, trocar de cidade, mudar de
país e até mesmo de profissão, como se essas alternativas resolvessem os problemas
da gestão financeira individual. Aproveito para registrar a citação atribuída ao
físico Albert Einstein a respeito de hábitos: “A definição
de insanidade é fazer a mesma coisa repetidas vezes e esperar resultados
diferentes.” Einstein estava
correto, se não houver alteração nos hábitos de consumo e na postura do
indivíduo frente ao dinheiro, com certeza os problemas financeiros continuarão
e poderão ser agravados.
Estamos
em um país que pratica os juros bancários mais elevados do mundo. Algumas
linhas de crédito ultrapassam 330% a.a., enquanto a taxa Selic, juros básicos
da economia, está em 6,5% a.a., podendo chegar em maio deste ano a 6% a.a. Segundo
O
Estado de SP, de 26.3.18, o juro médio total cobrado no rotativo de
cartão de crédito subiu 5,9 p.p. de 328% a.a. em jan/18 para 333,9% a.a. no mês
seguinte. Este incremento na taxa do rotativo foi observado sob as novas regras
de migração da modalidade, que começaram em abr/17. Enquanto a taxa básica de
juros vem caindo ao longo dos últimos meses, os bancos continuam a elevá-los. Assim,
muita atenção ao utilizar o crédito ofertado pelo sistema bancário nacional.
As
pessoas que mudam de trabalho, de cidade e até de país, continuam praticando os
mesmos erros, pois não entendem o significado das palavras de Einstein. Grande
parte dos brasileiros não tem educação financeira, desconhece os rudimentos de
finanças pessoais, matemática financeira, planejamento financeiro e o impacto multiplicador
dos juros compostos nas dívidas.
Existem
comportamentos que marcam o modo de agir das pessoas que não fazem planejamento
financeiro, basta perguntarmos a uma pessoa que teve aumento de receita em 2017,
uma promoção, se houve elevação da reserva financeira após o aumento de receita.
Com certeza a resposta é não para os que não praticam educação financeira.
Na
maioria das vezes quanto mais ganhamos mais gastamos, e o aumento de despesas costuma
ser proporcionalmente superior ao aumento da receita. Por outro lado, quando
perdemos ou temos redução de nossa receita não reduzimos as despesas com tanta
agilidade. A grande maioria das pessoas que perdem receita continuam gastando
como se mantivesse o mesmo padrão de renda.
Muitas
vezes as pessoas têm aumento de receita e a gastam antes de recebê-la
(antecipam consumo), e para piorar existem profissionais bem pagos criando
campanhas publicitárias de estímulo ao consumo. Nos feriados, dia das crianças,
das mães, dos namorados, semana santa, natal e outros, a publicidade trabalha
para induzir o cidadão a consumir cada vez mais, pois são desenvolvidas
campanhas sofisticadas que contribuem para tirar ou reduzir os recursos de
pessoas que deveriam quitar dívidas ou formar reserva financeira. Muita gente
cai nas armadilhas da publicidade em geral, no estímulo visual das decorações
das lojas de departamento e dos shoppings. Por falta de planejamento financeiro,
o endividamento familiar tem aumentado nos últimos anos.
Retornando
ao Fator Café, Bach afirma que “As chamadas ninharias em que desperdiçamos
dinheiro diariamente podem com rapidez atingir um volume capaz de modificar a
nossa vida e custar-nos a liberdade”. Há um pouco de exagero na afirmação, mas
não devemos desconsiderá-la, pois muitos consumidores não pensam nos gastos do
dia a dia, e se preocupam apenas com valores mais elevados, prestação da casa
própria, financiamento do carro, aluguel, condomínio, salário da empregada
doméstica, previdência privada, colégio das crianças entre outros, sem
considerar que as pequenas despesas também impactam negativamente o orçamento
doméstico. Muitos esquecem o poder dos pequenos números, e não param para
pensar que poderiam acumular reserva financeira se controlassem melhor essas
despesas.
Todos
têm despesas aparentemente insignificantes, seja por hábito ou vício. A seguir mostramos
algumas estimativas cujos valores são corrigidos pela taxa de juros de 0,57%
a.m., apenas como forma de exemplificar:
1.
Um café expresso tomado após o almoço custa em média R$6,00:
(a) ao final do mês totaliza R$180,00; (b) em 12 meses corrigido soma R$2.241,72;
(c) em 10 anos sobe para R$31.058,48; e (d) em 20 anos chega a R$92.490,40;
2.
Ida à manicure custa entre R$ 20,00 e R$40,00 por semana, sem
considerar o deslocamento e em alguns casos o valor do estacionamento: (a) vamos
trabalhar com o gasto de R$30,00 por semana, no final do mês soma R$ 120,00;
(b) em um ano corrigido pela variação estimada da poupança fica em R$1.494,48; (c) em 10 anos sobe para R$20.705,65;
e (d) em 20 anos R$61.660,27;
3.
Um simples pingado
mais um pão na chapa custa em média R$7,31, segundo pesquisa realizada em 15
padarias da cidade de SP: (a) em trinta dias temos R$219,30; (b) no ano corrigido
atinge R$2.731,17; (c) em 10 anos fica em R$37.839,58; e (d) em 20 anos alcança
R$112.684,14;
4.
Um filme entre 5ª e domingo fica entre R$27,00 a matinê e R$30,00 à noite, em
cidades como Brasília, São Paulo etc. Vamos trabalhar com um ingresso de
R$27,00, sem desconto: (a) uma vez por semana fica R$ 108,00 no mês; (b) no ano
corrigido totaliza R$1.345,03; (c) em 10 anos soma R$18.635,09; e (d) em 20
anos alcança R$55.494,24;
O
café expresso, a manicure, o lanche e o cinema, quando somados
atingem R$627,30 em um mês, sobe para R$7.812.41 em doze meses. Em 10 anos chega
a R$108.238,79 e finalmente em 20 anos alcança R$322.329,06. Se dividir o valor
por 2, simples assim, a qualidade de vida ficaria basicamente inalterada,
ganharia mais saúde e ainda teria uma significativa reserva financeira de R$161.164,53
para a aposentadoria. Esse valor poderia gerar uma renda passiva com rendimentos
acima da caderneta de poupança. Até mesmo uma aplicação medíocre como a
poupança renderia uma quantia satisfatória, aliás, qualquer quantia é melhor
que nenhuma.
É
o poder dos pequenos números se manifestando. Por esse motivo os pequenos números/valores
são irrisórios quando isolados, mas somados a outros pequenos valores se
transformam em grandes números, é o efeito dos juros compostos fazendo a
diferença e podendo levar ao endividamento.
Cada
indivíduo desenvolve o seu Fator Café, que pode ser barato ou caro. O hábito de
tomar um ou mais expressos por dia, o jantar após o cinema, a manicure aos
sábados, o café da manhã fora de casa, o lanche da tarde, as saídas com os
amigos, os presentes dados sem motivo aparente, as assinaturas de revistas/jornais,
dois ou mais pontos de TV a cabo, as gorjetas, o estacionamento, as refeições fora
de casa são hábitos que ao longo dos anos se transformam em números elevados podem
endividar as pessoas ou dificultam a formação de patrimônio (ativos).
Segundo
Mauro Calil, “A partir do momento em que compromete a renda ao ponto de
precisar cancelar um pacote de TV por assinatura, ou fazer empréstimo para
quitar dívidas, o cidadão deve se reeducar”. Logo, reduzir gastos sem alterar a
qualidade de vida é a maneira adequada para se atingir a prosperidade e se
preparar para uma aposentadoria tranquila.
Para
evitar problemas financeiros, estabeleça metas de gastos no dia a dia para evitar
surpresas desagradáveis no fim do mês. Se a pessoa gosta de um expresso após o
almoço, tudo bem, mas evite um segundo à tarde ou após o jantar. O fumante ao
reduzir o consumo de cigarros melhora a saúde e o bolso. O lanche próximo ao
trabalho deve ser feito em casa. Alugar filmes custa menos que ir ao cinema,
pois tem o combustível, a pipoca, o sorvete e até um jantar. As mulheres podem economizar
indo uma vez por mês ao salão ou resolver fazer como uma grande amiga que faz
as unhas em casa, e está feliz. Ao reduzir as noitadas com os amigos, além de
economizar evita problemas com os órgãos do sistema nacional de trânsito.
Assim,
existem pequenos gastos diários que não damos importância, mas no final do mês
se transformam em grandes valores. Muitas vezes o desperdício pode estar nos
detalhes, é o banho demorado, a torneira aberta ao escovar os dentes, luzes acesas
em ambientes vazios, sobras do almoço que não são aproveitadas no dia seguinte,
isso tudo leva a grandes desperdícios financeiros. Um chuveiro aberto durante 5
minutos consome entre 40 e 50 litros de água, enquanto uma torneira em igual
período gasta entre 15 e 20 litros, sem contar a despesa de energia elétrica no
primeiro caso.
Embora
controles pareçam chatos, tomar cuidado com os pequenos valores podem fazer
grande diferença ao longo dos anos. Não vamos perder qualidade de vida ou
deixar de fazer o que gostamos, nem virar Tio Patinhas, apenas devemos prestar
atenção às pequenas despesas que parecem inofensivas quando vistas
isoladamente, mas se tornam perigosas ao longo dos anos.
Portanto,
além de tentar reduzir os gastos com o café expresso, o cigarro, o lanche e
outros, preste atenção às dicas: ao escovar os dentes feche a torneira, ao
ensaboar-se ou usar shampoo feche o chuveiro, verifique periodicamente se existem
vazamentos em sua residência, evite interurbano com celular, estabeleça dia
específico para lavar e passar roupa, não abra a geladeira muitas vezes, e tudo
isso contribui para economizar dinheiro. Bons hábitos refletem positivamente no
meio ambiente e no bolso. Economizar no dia a dia é importante para atingir a prosperidade
e ter boa saúde financeira.
¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoas. Educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, vida financeira saudável, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, e bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.
¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoas. Educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, vida financeira saudável, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, e bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.