quinta-feira, 8 de março de 2018

CARTÃO DE CRÉDITO O GRANDE VILÃO DO ENDIVIDAMENTO
Régis Varão/¹

O total de famílias brasileiras endividadas em fevereiro deste ano apresentou pequena queda quando comparado ao mês anterior, mas subiu na comparação anual. O percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso registrou declínio entre jan/18 e fevereiro, enquanto o percentual de famílias sem condições de pagar suas dívidas subiu no período, segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

O percentual de famílias com dívidas, entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro atingiu 61,2% em fev/18, um decréscimo de 0,10 p.p. em relação ao mês anterior, mas 2,5 p.p. acima do observado em fev/17.

Seguindo o declínio do endividamento das famílias, o percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso caiu em fev/18 na comparação mensal, passando de 25% para 24,9% do total. Por outro lado, houve elevação do nível de inadimplência das famílias em relação a fev/17 (24,1%) do total. O percentual de famílias sem condições de pagar suas dívidas em atraso, e permanecem inadimplentes, subiu de 9,5% em jan/18 para 9,7% no mês seguinte, registrando redução na comparação anual, ao atingir 10,2% em fev/17.

O número de famílias endividadas, na comparação mensal, apresentou decréscimo apenas na faixa de menor renda (<10 salários mínimos-SM). Para as famílias que ganham <10 SM, o percentual de famílias com dívidas chegou a 62,7% em fev/18, abaixo dos 62,9% de jan/18 e acima dos 60,5% observados em fev/17. Com relação às famílias com renda >10 SM, o endividamento subiu de 53,6% em jan/18 para 53,8% no mês seguinte. Já em fev/17, o percentual de famílias endividadas nesse grupo de renda atingia 49,6%.

O percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso registrou tendências diversas entre os dois grupos de renda analisados. Enquanto na comparação mensal, houve declínio do indicador apenas na faixa de renda <10 SM, na comparação anual, houve elevação em ambas as faixas de renda. Na faixa de renda <10 SM, o percentual de famílias com contas em atraso caiu de 28,2% em jan/18 para 27,9% no mês seguinte. No segundo mês deste ano, 27,1% das famílias na faixa de renda <10 SM haviam declarado ter contas em atraso, enquanto as com renda >10 SM, o percentual de inadimplência atingiu 11,9% em fev/18, ante 11% observado em jan/18.

Considerando as duas faixas de renda, o percentual de famílias sem condições de pagar contas em atraso apresentou comportamentos parecidos entre os grupos pesquisados, nas duas bases de comparação. Segundo o relatório da CNC na faixa acima de 10 SM, o indicador alcançou 4% em fev/18, ante 3,5% registrado em jan/18 e 4,3% em fev/17. Para o grupo com renda <10 SM, o percentual de famílias sem condições de quitar seus débitos subiu de 11%, em jan/18, para 11,1% no mês seguinte, e decresceu 0,5 p.p. na comparação com fev/17.

As famílias que se declararam muito endividadas ficou estável no período jan-fev/18 em 13,6%, enquanto registrou 14,4% em fev/17. As que se declararam mais ou menos endividadas também permaneceu estável nos dois meses de 2018, com 23,4% contra 21,2% observado em fev/17. Já o percentual das que se declararam pouco endividadas passou de 23,1% em fev/17 para 23,4% em jan/18 e caindo para 24,2% no mês seguinte.

Entre as famílias com contas em atraso, o tempo médio de atraso chegou a 64,9 dias em fev/18, enquanto em fev/17 atingiu 65,7 dias. O tempo médio de permanência das famílias com dívidas foi de 6,9 meses, com 25,8% comprometidas com dívidas até 90 dias, e 31,1%, por mais de 12 meses. Ainda entre as famílias endividadas, a parcela média da renda comprometida com dívidas decresceu na comparação anual, caindo de 29,9% em fev/17 para 29,4% em fev/18.

O cartão de crédito continua na preferência das famílias endividadas, atingindo em fev/18 a expressiva marca de 77,1%. Segue o carnê de loja com 16,5%, financiamento de carro com 10,7%, crédito pessoal com 9,7%, financiamento de casa com 8,1%, crédito consignado (5,6%), cheque especial com 5% e cheque pré-datado com 1%.

Nas famílias com renda até 10 SM, o cartão de crédito chega a 78% nas preferências das famílias, enquanto as de maior renda cai para 73,3%. O carnê de loja chega a 17,7% no primeiro caso e cai para 10,9% no segundo. Duas disparidades chamam atenção: financiamento de carro chega a 8,6% para famílias de baixa renda e 20,9% para as de maior renda, e financiamento de casa atinge 6,4% para famílias com renda até 10 SM e sobe para 15,9% para as de maior renda.

Portanto, a queda da inflação, a redução dos juros básicos da economia, a redução do desemprego e a melhora das expectativas para o crescimento da atividade econômica em 2018, tem contribuído para melhorar as expectativas dos agentes econômicos, embora o endividamento e a inadimplência das famílias continuem elevados. Por outro lado, a preferência das famílias brasileiras pelo cartão de crédito, como forma de endividamento, demonstra ausência de educação financeira. Políticas governamentais voltadas a educação financeira das famílias brasileiras poderiam contribuir para reduzir fortemente o endividamento, com ganhos para toda a sociedade.

¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoas. Educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, vida financeira saudável, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, e bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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