CARTÃO DE
CRÉDITO O GRANDE VILÃO DO ENDIVIDAMENTO
Régis
Varão/¹
O total de
famílias brasileiras endividadas em fevereiro deste ano apresentou pequena
queda quando comparado ao mês anterior, mas subiu na comparação anual. O
percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso registrou declínio entre
jan/18 e fevereiro, enquanto o percentual de famílias sem condições de pagar
suas dívidas subiu no período, segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e
Inadimplência do Consumidor (PEIC), da
Confederação Nacional do Comércio (CNC).
O percentual
de famílias com dívidas, entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque
especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro atingiu
61,2% em fev/18, um decréscimo de 0,10 p.p. em relação ao mês anterior, mas 2,5
p.p. acima do observado em fev/17.
Seguindo o
declínio do endividamento das famílias, o percentual de famílias com dívidas ou
contas em atraso caiu em fev/18 na comparação mensal, passando de 25% para
24,9% do total. Por outro lado, houve elevação do nível de inadimplência das
famílias em relação a fev/17 (24,1%) do total. O percentual de famílias sem
condições de pagar suas dívidas em atraso, e permanecem inadimplentes, subiu de
9,5% em jan/18 para 9,7% no mês seguinte, registrando redução na comparação
anual, ao atingir 10,2% em fev/17.
O número de
famílias endividadas, na comparação mensal, apresentou decréscimo apenas na faixa
de menor renda (<10 salários mínimos-SM). Para as famílias que ganham <10 SM, o
percentual de famílias com dívidas chegou a 62,7% em fev/18, abaixo dos 62,9%
de jan/18 e acima dos 60,5% observados em fev/17. Com relação às famílias
com renda >10 SM, o endividamento subiu de 53,6% em jan/18 para 53,8% no mês
seguinte. Já em fev/17, o percentual de famílias endividadas nesse grupo de
renda atingia 49,6%.
O percentual
de famílias com contas ou dívidas em atraso registrou tendências diversas entre
os dois grupos de renda analisados. Enquanto na comparação mensal, houve declínio
do indicador apenas na faixa de renda <10 SM, na comparação anual, houve elevação em ambas
as faixas de renda. Na faixa de renda <10 SM, o percentual de famílias com contas em
atraso caiu de 28,2% em jan/18 para 27,9% no mês seguinte. No segundo mês deste
ano, 27,1% das famílias na faixa de renda <10 SM haviam declarado ter contas em atraso, enquanto
as com renda >10 SM, o percentual de inadimplência atingiu 11,9% em fev/18, ante
11% observado em jan/18.
Considerando
as duas faixas de renda, o percentual de famílias sem condições de pagar contas
em atraso apresentou comportamentos parecidos entre os grupos pesquisados, nas
duas bases de comparação. Segundo o relatório da CNC
na faixa acima de 10 SM, o indicador alcançou 4% em fev/18, ante 3,5% registrado
em jan/18 e 4,3% em fev/17. Para o grupo com renda <10 SM, o
percentual de famílias sem condições de quitar seus débitos subiu de 11%, em
jan/18, para 11,1% no mês seguinte, e decresceu 0,5 p.p. na comparação com fev/17.
As famílias
que se declararam muito endividadas ficou estável no período jan-fev/18 em
13,6%, enquanto registrou 14,4% em fev/17. As que se declararam mais ou menos
endividadas também permaneceu estável nos dois meses de 2018, com 23,4% contra
21,2% observado em fev/17. Já o percentual das que se declararam pouco
endividadas passou de 23,1% em fev/17 para 23,4% em jan/18 e caindo para 24,2%
no mês seguinte.
Entre as
famílias com contas em atraso, o tempo médio de atraso chegou a 64,9 dias em fev/18,
enquanto em fev/17 atingiu 65,7 dias. O tempo médio de permanência das famílias
com dívidas foi de 6,9 meses, com 25,8% comprometidas com dívidas até 90 dias, e
31,1%, por mais de 12 meses. Ainda entre as famílias endividadas, a parcela
média da renda comprometida com dívidas decresceu na comparação anual, caindo
de 29,9% em fev/17 para 29,4% em fev/18.
O cartão de
crédito continua na preferência das famílias endividadas, atingindo em fev/18 a
expressiva marca de 77,1%. Segue o carnê de loja com 16,5%, financiamento de
carro com 10,7%, crédito pessoal com 9,7%, financiamento de casa com 8,1%, crédito
consignado (5,6%), cheque especial com 5% e cheque pré-datado com 1%.
Nas famílias
com renda até 10 SM, o cartão de crédito chega a 78% nas preferências das
famílias, enquanto as de maior renda cai para 73,3%. O carnê de loja chega a 17,7%
no primeiro caso e cai para 10,9% no segundo. Duas disparidades chamam atenção:
financiamento de carro chega a 8,6% para famílias de baixa renda e 20,9% para
as de maior renda, e financiamento de casa atinge 6,4% para famílias com renda até
10 SM e sobe para 15,9% para as de maior renda.
Portanto, a queda
da inflação, a redução dos juros básicos da economia, a redução do desemprego e
a melhora das expectativas para o crescimento da atividade econômica em 2018, tem
contribuído para melhorar as expectativas dos agentes econômicos, embora o
endividamento e a inadimplência das famílias continuem elevados. Por outro
lado, a preferência das famílias brasileiras pelo cartão de crédito, como forma
de endividamento, demonstra ausência de educação financeira. Políticas
governamentais voltadas a educação financeira das famílias brasileiras poderiam
contribuir para reduzir fortemente o endividamento, com ganhos para toda a
sociedade.
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