sábado, 31 de março de 2018

O PODER DOS PEQUENOS NÚMEROS
Régis Varão/¹

No final dos anos noventa, o consultor norte-americano especialista em finanças pessoais David Bach desenvolveu a teoria denominada Fator Café, publicada no livro O Milionário Automático, um best seller internacional. A teoria mostra basicamente que a chave para o progresso financeiro pessoal é ficar atento aos pequenos valores gastos no dia a dia.

A maioria das pessoas acredita que o segredo da prosperidade consiste unicamente em buscar novas fontes de receita, procurar alternativas de emprego com salários mais elevados, mudar de empresa, aumentar a renda, trocar de cidade, mudar de país e até mesmo de profissão, como se essas alternativas resolvessem os problemas da gestão financeira individual. Aproveito para registrar a citação atribuída ao físico Albert Einstein a respeito de hábitos: “A definição de insanidade é fazer a mesma coisa repetidas vezes e esperar resultados diferentes.” Einstein estava correto, se não houver alteração nos hábitos de consumo e na postura do indivíduo frente ao dinheiro, com certeza os problemas financeiros continuarão e poderão ser agravados.

Estamos em um país que pratica os juros bancários mais elevados do mundo. Algumas linhas de crédito ultrapassam 330% a.a., enquanto a taxa Selic, juros básicos da economia, está em 6,5% a.a., podendo chegar em maio deste ano a 6% a.a. Segundo O Estado de SP, de 26.3.18, o juro médio total cobrado no rotativo de cartão de crédito subiu 5,9 p.p. de 328% a.a. em jan/18 para 333,9% a.a. no mês seguinte. Este incremento na taxa do rotativo foi observado sob as novas regras de migração da modalidade, que começaram em abr/17. Enquanto a taxa básica de juros vem caindo ao longo dos últimos meses, os bancos continuam a elevá-los. Assim, muita atenção ao utilizar o crédito ofertado pelo sistema bancário nacional.

As pessoas que mudam de trabalho, de cidade e até de país, continuam praticando os mesmos erros, pois não entendem o significado das palavras de Einstein. Grande parte dos brasileiros não tem educação financeira, desconhece os rudimentos de finanças pessoais, matemática financeira, planejamento financeiro e o impacto multiplicador dos juros compostos nas dívidas.

Existem comportamentos que marcam o modo de agir das pessoas que não fazem planejamento financeiro, basta perguntarmos a uma pessoa que teve aumento de receita em 2017, uma promoção, se houve elevação da reserva financeira após o aumento de receita. Com certeza a resposta é não para os que não praticam educação financeira.

Na maioria das vezes quanto mais ganhamos mais gastamos, e o aumento de despesas costuma ser proporcionalmente superior ao aumento da receita. Por outro lado, quando perdemos ou temos redução de nossa receita não reduzimos as despesas com tanta agilidade. A grande maioria das pessoas que perdem receita continuam gastando como se mantivesse o mesmo padrão de renda.

Muitas vezes as pessoas têm aumento de receita e a gastam antes de recebê-la (antecipam consumo), e para piorar existem profissionais bem pagos criando campanhas publicitárias de estímulo ao consumo. Nos feriados, dia das crianças, das mães, dos namorados, semana santa, natal e outros, a publicidade trabalha para induzir o cidadão a consumir cada vez mais, pois são desenvolvidas campanhas sofisticadas que contribuem para tirar ou reduzir os recursos de pessoas que deveriam quitar dívidas ou formar reserva financeira. Muita gente cai nas armadilhas da publicidade em geral, no estímulo visual das decorações das lojas de departamento e dos shoppings. Por falta de planejamento financeiro, o endividamento familiar tem aumentado nos últimos anos.

Retornando ao Fator Café, Bach afirma que “As chamadas ninharias em que desperdiçamos dinheiro diariamente podem com rapidez atingir um volume capaz de modificar a nossa vida e custar-nos a liberdade”. Há um pouco de exagero na afirmação, mas não devemos desconsiderá-la, pois muitos consumidores não pensam nos gastos do dia a dia, e se preocupam apenas com valores mais elevados, prestação da casa própria, financiamento do carro, aluguel, condomínio, salário da empregada doméstica, previdência privada, colégio das crianças entre outros, sem considerar que as pequenas despesas também impactam negativamente o orçamento doméstico. Muitos esquecem o poder dos pequenos números, e não param para pensar que poderiam acumular reserva financeira se controlassem melhor essas despesas.

Todos têm despesas aparentemente insignificantes, seja por hábito ou vício. A seguir mostramos algumas estimativas cujos valores são corrigidos pela taxa de juros de 0,57% a.m., apenas como forma de exemplificar:

1. Um café expresso tomado após o almoço custa em média R$6,00: (a) ao final do mês totaliza R$180,00; (b) em 12 meses corrigido soma R$2.241,72; (c) em 10 anos sobe para R$31.058,48; e (d) em 20 anos chega a R$92.490,40;

2. Ida à manicure custa entre R$ 20,00 e R$40,00 por semana, sem considerar o deslocamento e em alguns casos o valor do estacionamento: (a) vamos trabalhar com o gasto de R$30,00 por semana, no final do mês soma R$ 120,00; (b) em um ano corrigido pela variação estimada da poupança fica em  R$1.494,48; (c) em 10 anos sobe para R$20.705,65; e (d) em 20 anos R$61.660,27;

3. Um simples pingado mais um pão na chapa custa em média R$7,31, segundo pesquisa realizada em 15 padarias da cidade de SP: (a) em trinta dias temos R$219,30; (b) no ano corrigido atinge R$2.731,17; (c) em 10 anos fica em R$37.839,58; e (d) em 20 anos alcança R$112.684,14;

4. Um filme entre 5ª e domingo fica entre R$27,00 a matinê e R$30,00 à noite, em cidades como Brasília, São Paulo etc. Vamos trabalhar com um ingresso de R$27,00, sem desconto: (a) uma vez por semana fica R$ 108,00 no mês; (b) no ano corrigido totaliza R$1.345,03; (c) em 10 anos soma R$18.635,09; e (d) em 20 anos alcança R$55.494,24;

O café expresso, a manicure, o lanche e o cinema, quando somados atingem R$627,30 em um mês, sobe para R$7.812.41 em doze meses. Em 10 anos chega a R$108.238,79 e finalmente em 20 anos alcança R$322.329,06. Se dividir o valor por 2, simples assim, a qualidade de vida ficaria basicamente inalterada, ganharia mais saúde e ainda teria uma significativa reserva financeira de R$161.164,53 para a aposentadoria. Esse valor poderia gerar uma renda passiva com rendimentos acima da caderneta de poupança. Até mesmo uma aplicação medíocre como a poupança renderia uma quantia satisfatória, aliás, qualquer quantia é melhor que nenhuma.

É o poder dos pequenos números se manifestando. Por esse motivo os pequenos números/valores são irrisórios quando isolados, mas somados a outros pequenos valores se transformam em grandes números, é o efeito dos juros compostos fazendo a diferença e podendo levar ao endividamento.

Cada indivíduo desenvolve o seu Fator Café, que pode ser barato ou caro. O hábito de tomar um ou mais expressos por dia, o jantar após o cinema, a manicure aos sábados, o café da manhã fora de casa, o lanche da tarde, as saídas com os amigos, os presentes dados sem motivo aparente, as assinaturas de revistas/jornais, dois ou mais pontos de TV a cabo, as gorjetas, o estacionamento, as refeições fora de casa são hábitos que ao longo dos anos se transformam em números elevados podem endividar as pessoas ou dificultam a formação de patrimônio (ativos).

Segundo Mauro Calil, “A partir do momento em que compromete a renda ao ponto de precisar cancelar um pacote de TV por assinatura, ou fazer empréstimo para quitar dívidas, o cidadão deve se reeducar”. Logo, reduzir gastos sem alterar a qualidade de vida é a maneira adequada para se atingir a prosperidade e se preparar para uma aposentadoria tranquila.

Para evitar problemas financeiros, estabeleça metas de gastos no dia a dia para evitar surpresas desagradáveis no fim do mês. Se a pessoa gosta de um expresso após o almoço, tudo bem, mas evite um segundo à tarde ou após o jantar. O fumante ao reduzir o consumo de cigarros melhora a saúde e o bolso. O lanche próximo ao trabalho deve ser feito em casa. Alugar filmes custa menos que ir ao cinema, pois tem o combustível, a pipoca, o sorvete e até um jantar. As mulheres podem economizar indo uma vez por mês ao salão ou resolver fazer como uma grande amiga que faz as unhas em casa, e está feliz. Ao reduzir as noitadas com os amigos, além de economizar evita problemas com os órgãos do sistema nacional de trânsito.

Assim, existem pequenos gastos diários que não damos importância, mas no final do mês se transformam em grandes valores. Muitas vezes o desperdício pode estar nos detalhes, é o banho demorado, a torneira aberta ao escovar os dentes, luzes acesas em ambientes vazios, sobras do almoço que não são aproveitadas no dia seguinte, isso tudo leva a grandes desperdícios financeiros. Um chuveiro aberto durante 5 minutos consome entre 40 e 50 litros de água, enquanto uma torneira em igual período gasta entre 15 e 20 litros, sem contar a despesa de energia elétrica no primeiro caso.

Embora controles pareçam chatos, tomar cuidado com os pequenos valores podem fazer grande diferença ao longo dos anos. Não vamos perder qualidade de vida ou deixar de fazer o que gostamos, nem virar Tio Patinhas, apenas devemos prestar atenção às pequenas despesas que parecem inofensivas quando vistas isoladamente, mas se tornam perigosas ao longo dos anos.

Portanto, além de tentar reduzir os gastos com o café expresso, o cigarro, o lanche e outros, preste atenção às dicas: ao escovar os dentes feche a torneira, ao ensaboar-se ou usar shampoo feche o chuveiro, verifique periodicamente se existem vazamentos em sua residência, evite interurbano com celular, estabeleça dia específico para lavar e passar roupa, não abra a geladeira muitas vezes, e tudo isso contribui para economizar dinheiro. Bons hábitos refletem positivamente no meio ambiente e no bolso. Economizar no dia a dia é importante para atingir a prosperidade e ter boa saúde financeira.

¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoas. Educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, vida financeira saudável, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, e bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.

Nenhum comentário:

Postar um comentário