O FATOR CAFÉ
Régis
Varão/¹
No
final dos anos noventa, o especialista norte-americano em finanças pessoais David Bach
desenvolveu a teoria denominada Fator Café, publicada no livro O Milionário Automático, um best seller internacional. A teoria mostra
basicamente que a chave para o progresso financeiro pessoal é ficar atento aos
pequenos valores gastos no dia a dia.
A
maioria das pessoas acredita que o segredo da prosperidade consiste unicamente
em buscar novas fontes de receita, procurar alternativas de emprego com salários
mais elevados, mudar de empresa, aumentar a renda, trocar de cidade, mudar de país
e até mesmo de profissão, como se essas alternativas resolvessem os problemas da
gestão financeira individual.
Considerando
essas crenças, aproveito para registrar a citação atribuída ao físico Albert Einstein
a respeito de hábitos: “A definição de insanidade é fazer a mesma coisa
repetidas vezes e esperar resultados diferentes.” Einstein estava corretíssimo, se não houver alteração nos hábitos
de consumo e na postura do indivíduo frente ao dinheiro, com certeza os
problemas financeiros continuarão e poderão levar a pessoa/família ao
endividamento.
O
Brasil pratica os juros bancários mais elevados do mundo, duas modalidades são
bons exemplos. Os juros do rotativo do cartão de crédito estão próximos de 280%
a.a. e os cobrados pela utilização do cheque especial se aproximam de 300%
a.a., enquanto a taxa Selic, juros básicos da economia, está em 6,5% a.a.
As
pessoas que mudam de trabalho, de cidade e até de país, continuam praticando os
mesmos erros, pois não entendem o significado das palavras de Einstein. Grande
parte dos brasileiros não tem educação financeira, desconhece os rudimentos de
finanças pessoais, matemática financeira, planejamento financeiro e o impacto multiplicador
dos juros compostos nas dívidas, logo, mudar de profissão, empresa ou país não
vai resolver a situação financeira.
Existem
comportamentos que marcam o modo de agir daqueles que não têm educação
financeira, basta perguntarmos a uma pessoa que teve aumento de receita (vários
motivos) em 2018, se ela se preocupou em fazer uma reserva financeira. Com
certeza a resposta é não.
Na
maioria das vezes quanto mais dinheiro ganhamos mais gastamos, e o aumento de
despesas costuma ser proporcionalmente maior que o aumento da receita. Por
outro lado, quando perdemos ou temos redução de nossa receita não reduzimos as despesas
com tanta agilidade. A grande maioria das pessoas que perdem receita (desemprego
etc) continuam gastando como se mantivesse o mesmo padrão de renda.
Muitas
vezes as pessoas têm aumento de receita e a gastam antes de recebê-la
(antecipam consumo), e para agravar a situação existem profissionais bem pagos criando
campanhas publicitárias de estímulo ao consumo. Pouco tempo após a entrega da
declaração de imposto de renda a rede bancária oferta crédito para antecipar a
restituição do imposto, o mesmo ocorrendo com o 13º salário. Os juros cobrados
nos dois casos são elevadíssimos e muitas vezes por falta de orientação a
pessoa se endivida.
Com
relação aos inúmeros feriados, a publicidade trabalha para induzir o cidadão a consumir
cada vez mais, pois são desenvolvidas campanhas sofisticadas que contribuem
para tirar ou reduzir os recursos de pessoas que deveriam quitar dívidas ou formar
reserva financeira. Muita gente cai nas armadilhas do comércio, no estímulo
visual das decorações dos shoppings, e por falta de planejamento financeiro, continuam
se endividando.
Segundo
o Fator Café “As chamadas ninharias em que desperdiçamos dinheiro diariamente
podem com rapidez atingir um volume capaz de modificar a nossa vida e
custar-nos a liberdade”. Há um pouco de exagero na afirmação, mas não devemos desconsiderá-la,
pois muitos consumidores não pensam nos gastos do dia a dia, e se preocupam apenas
com valores elevados, prestação da casa própria, financiamento do carro,
aluguel, condomínio, salário da empregada doméstica, previdência privada, colégio
das crianças entre outros, sem considerar que as pequenas despesas também impactam
negativamente o orçamento doméstico.
Todos
têm despesas aparentemente insignificantes, seja por hábito ou vício. Se
juntarmos os pequenos valores gastos no dia a dia com o café expresso, a
sobremesa após o almoço, o lanche no final da tarde, a cerveja com os amigos, o
cigarro etc, teremos uma quantia considerável. Cortando apenas uma parte dessas
despesas - 25% a 50% - daria para formar uma reserva financeira que poderia
gerar uma renda passiva para complementar a aposentadoria, sem reduzir a
qualidade de vida.
É
o poder dos pequenos números ou valores se manifestando. Por esse motivo os
pequenos valores são irrisórios quando isolados, mas somados a outros pequenos
valores se transformam em grandes valores, é o efeito dos juros compostos
fazendo a diferença e podendo elevar o endividamento.
Cada
indivíduo desenvolve o seu Fator Café, que pode ser barato ou caro. Estabeleça
metas de gastos no dia a dia para evitar surpresas desagradáveis no fim do mês.
Se a pessoa gosta de um expresso após o almoço, tudo bem, mas evite um segundo
à tarde ou após o jantar. O fumante ao reduzir o consumo de cigarros melhora a
saúde e o bolso. O lanche próximo ao trabalho deve ser feito em casa. Alugar
filmes custa menos que ir ao cinema, pois tem o combustível, a pipoca, o sorvete
e até um jantar. As mulheres podem economizar indo uma vez por mês ao salão ou resolver
fazer como uma grande amiga que faz as unhas em casa, e está feliz.
Embora
controles pareçam chatos, tomar cuidado com os pequenos valores podem fazer
grande diferença ao longo dos anos. Não vamos perder qualidade de vida ou
deixar de fazer o que gostamos, apenas devemos prestar atenção às pequenas despesas
que parecem inofensivas quando isoladas, mas perigosas ao longo dos anos.
Portanto,
a ideia não é deixar de fazer o que gosta, mas apenas reduzir os excessos. Ao
escovar os dentes feche a torneira, ao ensaboar-se ou usar shampoo feche o
chuveiro, verifique periodicamente se existem vazamentos em sua residência, evite
interurbano com celular, estabeleça dia específico para lavar e passar roupa,
não abra a geladeira muitas vezes, e tudo isso ajuda a economizar dinheiro. Hábitos
saudáveis refletem positivamente no meio ambiente e no bolso. Economizar no dia
a dia é importante para atingir a prosperidade financeira e ter boa saúde física
e mental.
¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em
educação financeira, finanças pessoais e planejamento financeiro pessoal.
Educador e planejador financeiro há mais de 25 anos. É palestrante de temas
ligados à educação financeira, finanças pessoais e inteligência financeira,
além de ministrar treinamentos e workshops
nessas áreas. Economista com mestrado e doutorado em economia, é também
bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nas últimas três
décadas. É Master Practitioner em
PNL. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco
Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.
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