ATITUDES FINANCEIRAS SAUDÁVEIS PARA 2019
Régis Varão/¹
As crises por que tem passado o País nos últimos
anos, a inexistência de educação financeira, os maus hábitos financeiros e o
elevado desemprego colaboram para o aumento da inadimplência e do
endividamento. A falta de compreensão de conceitos financeiros induzem as
pessoas a tomarem decisões equivocadas contribuindo para o endividamento, o que
pode ser observado na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor-PEIC,
de nov/18.
As pessoas sem conhecimento de finanças pessoais
tendem a fazer más escolhas na gestão de seu dinheiro. Isso pode ser verificado
no alto percentual de famílias endividadas (60,3%) e naquelas com dívidas em
atraso que chega a 22,9% em nov/18. De acordo com a PEIC,
o cartão de crédito lidera a preferência das famílias como forma de
endividamento e atinge 77,4%, seguido por carnês de loja (14,8%), financiamento
de carro (10,2%), financiamento de casa (8,7%), crédito pessoal (8,7%), crédito
consignado (5,7%), cheque especial (5,7%) e cheque pré-datado (1,3%). Essa distribuição
é preocupante tendo em vista que no rotativo do cartão de crédito incide as
maiores taxas de juros cobrada pelo setor bancário.
“A inadimplência sempre cresce com o desemprego.
Quando o país entrou em crise, a partir de 2014, nós tínhamos 51,8 milhões de
CPF negativados. A crise, de 2014 pra cá, colocou mais 10 milhões na
inadimplência,” afirma Luiz Rabi, economista da Serasa
Experian. Grande parte dos brasileiros não faz
planejamento financeiro e cultivam hábitos financeiros inadequados (gestão e consumo). O desemprego elevado (>12
milhões) contribui para a aumento da inadimplência, tendo em
vista a falta de planejamento financeiro para atender
imprevistos e até mesmo para a aposentadoria.
Segundo Thiago Nigro, a população brasileira maior de 15 anos que realiza
poupança para a velhice chega a 3,6% no Brasil, sobe para 13% na Colômbia, vai
a 20,9% no México, 27,7% em Portugal e atinge 55,1% na Alemanha. O Brasil tem
muito que aprender nessa área.
Pessoas com problemas financeiros recorrem com mais
frequência a médicos e hospitais, faltam mais ao trabalho, se desentendem facilmente
com colegas de trabalho, discutem mais com familiares, se separam ou divorciam
mais que os financeiramente equilibrados, têm baixa concentração, sofrem e causam
mais acidentes de trabalho, o que interfere na produtividade pessoal e indiretamente
no resultado da empresa.
Atitudes para uma boa saúde financeira:
1. FAÇA PLANEJAMENTO FINANCEIRO:
Antes de abrir a carteira, avalie a necessidade da
compra. Se o produto está listado no orçamento, é necessário, tem dinheiro
suficiente no banco ou pode liquidar a fatura integral do cartão de crédito sem
problema, compre. É importante fazer orçamento pessoal/familiar, mas não
descuide do acompanhamento periódico. Relacione receitas e despesas, não
descuide dos pequenos valores, como lanche, cerveja com os amigos etc, e liste
as despesas por grupo: moradia, educação, saúde, transporte, lazer e pessoais. O
orçamento ajuda a conhecer a real situação das despesas, para onde está indo o
dinheiro;
2. ECONOMIZE NO DIA A DIA:
Prospera quem economiza no dia a dia. Feito o
orçamento, pense em uma reserva financeira. A receita (R) e a despesa (D) devem
observar a relação R>D (superávit). A reserva financeira é importante para atender
imprevistos, ajuda na educação dos filhos, na boa qualidade de vida presente e na
aposentadoria.
O planejamento financeiro é um compromisso a ser
levado a sério e envolve toda a família. Estabeleça objetivos possíveis e faça tudo
para atingi-los. Se a família faz planejamento financeiro, os filhos saberão que
a liberdade financeira depende de planejamento, disciplina e trabalho. Famílias
que ensinam educação financeira para suas crianças, ajudam a formar adultos financeiramente
responsáveis. Hábitos financeiros saudáveis começam na infância.
3. PLANEJE SUA APOSENTADORIA:
Para muita gente o benefício pago pelo Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS), não será suficiente para
manter uma boa qualidade de vida na aposentadoria, período em que se gasta mais
com planos de saúde, médicos, remédios etc. Se não fizer planejamento financeiro
com foco na aposentadoria, o valor recebido mensalmente será insuficiente para
pagar as despesas quando parar de trabalhar. Reserve um percentual da receita para
depositar mensalmente no banco e preparar sua aposentadoria.
Retire 10% da renda líquida e deposite em um banco.
Verifique após três meses como está sua qualidade de vida, se não foi alterada recolha
por mais três meses. A partir do sétimo mês de recolhimento entra no
automático. O valor depositado não pode ser mexido em hipótese alguma, ele
trará uma renda passiva (juros etc) no futuro, garantindo melhor qualidade de
vida. Chame essa conta de Liberdade Financeira. Após doze meses descontando
10%, inicie outra retirando 5% da renda líquida, obedecendo o mesmo raciocínio,
três meses e depois mais três e assim sucessivamente. A conta dos 5% é para
atender necessidades urgentes ou imprevistos. Comece o quanto antes.
4. NÃO PARCELE COMPRAS:
É elevado o percentual de famílias endividadas com
carnês de lojas (14,8%) e financiamento de carro (10,2%). As famílias com renda
até 10 salários mínimos (SM), o percentual de dívida com carnê de loja atinge
16%, enquanto as com renda >10 SM o percentual de dívida com financiamento
de carro chega a 19,5%, segundo a PEIC.
Antes de comprar pergunte-se: Eu
preciso? Tenho dinheiro? Tem que ser agora? Uma negativa não compre,
se ocorrerem três positivas, compre, mas negocie desconto. Pequenos valores
quando somados se transformam em grandes valores. Tenha sempre o orçamento como
referência e seja um consumidor consciente. Se não está no orçamento não compre.
5. FUJA DAS ARMADILHAS DO COMÉRCIO:
As promoções e a publicidade constante são
tentadoras durante o ano. É a páscoa em abril, dia das mães em maio, das
crianças em outubro, Black Friday em
novembro, Natal e réveillon em dezembro
e muitos outros feriados em que a publicidade pega muita gente desprevenida. Vender
é o foco principal do comércio.
Em todos esses períodos o comércio se prepara, e as
promoções, na maioria das vezes, escondem maquiagens de preços e outras
artimanhas que levam os incautos ao endividamento. Siga o planejado e fuja das armadilhas.
6. UTILIZE O CARTÃO DE CRÉDITO COM PARCIMÔNIA:
Um dos fatores do endividamento decorre da má
utilização do cartão de crédito (CC) e do não pagamento da fatura integral. O BCB
divulgou em jan/17 novas regras para o pagamento do rotativo
que vigoram a partir de abr/17, limitando o parcelamento do débito e obrigando
as instituições a renegociarem as dívidas. Recentemente alterou o pagamento da
fatura de compras realizadas com moeda estrangeira com vigência a partir de
mar/20.
Segundo a PEIC,
cerca de 77,4% das famílias se endividam com cartão de
crédito. Famílias com renda <10 SM o percentual está em 78,4% e as com renda
>10 SM cai para 73,7%. Um completo absurdo sob a ótica financeira, pois são os
juros mais caros do mercado, próximo de 300% a.a. praticados no crédito
rotativo. O CC pode ser um aliado se utilizado com disciplina, exemplo dos
programas de milhagens e outros benefícios. Nunca compre supérfluo com cartão
de crédito.
7. RENEGOCIE AS DÍVIDAS:
Troque as dívidas do rotativo
do cartão de crédito e cheque especial por dívidas mais baratas, caso do
consignado, e faça corte ou ajuste de despesas. Financiamento imobiliário ou de
automóvel pode ser negociado quanto a valores e prazos. A portabilidade
é um mecanismo com bons resultados na redução do endividamento. Troque o agente
financeiro, muitas vezes barateia o valor das prestações. Fique atento ao Feirão Limpa Nome (anual), patrocinado pelo SPC-SERASA, que
pode ajudar a sair do endividamento.
Pessoas que desenvolvem bons
hábitos financeiros sofrem menos estresse, têm elevada produtividade, não
descuidam da saúde física e mental e buscam relacionamentos pessoais e
profissionais saudáveis. Não compre por impulso, economize todos os dias, faça
reserva financeira, evite pagar juros, não parcele compras e nunca despreze os
pequenos valores.
Portanto, as pessoas que alcançam
a prosperidade financeira são disciplinadas, têm objetivos claros e definidos,
trabalham com metas possíveis, poupam no dia a dia, controlam despesas, evitam compras
por impulso, têm atitudes responsáveis na utilização do dinheiro, usam o
crédito com parcimônia e estão atentas às mudanças no mercado financeiro.
¹/ Mentor e Coach Financeiro,
especializado em educação financeira, finanças pessoais e desenvolvimento de
pessoas. Educador e planejador financeiro há mais de 25 anos. É palestrante de
temas ligados à educação financeira, finanças pessoais, inteligência financeira,
educação corporativa e liderança, além de ministrar treinamentos e workshops nessas áreas. É Master Practitioner em PNL. Economista
com mestrado e doutorado em economia, é também bacharel em direito. Tem se
dedicado ao estudo do dinheiro nas últimas três décadas. Foi professor
universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36
anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.
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