quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

ATITUDES FINANCEIRAS SAUDÁVEIS PARA 2019
Régis Varão/¹

As crises por que tem passado o País nos últimos anos, a inexistência de educação financeira, os maus hábitos financeiros e o elevado desemprego colaboram para o aumento da inadimplência e do endividamento. A falta de compreensão de conceitos financeiros induzem as pessoas a tomarem decisões equivocadas contribuindo para o endividamento, o que pode ser observado na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor-PEIC, de nov/18.

As pessoas sem conhecimento de finanças pessoais tendem a fazer más escolhas na gestão de seu dinheiro. Isso pode ser verificado no alto percentual de famílias endividadas (60,3%) e naquelas com dívidas em atraso que chega a 22,9% em nov/18. De acordo com a PEIC, o cartão de crédito lidera a preferência das famílias como forma de endividamento e atinge 77,4%, seguido por carnês de loja (14,8%), financiamento de carro (10,2%), financiamento de casa (8,7%), crédito pessoal (8,7%), crédito consignado (5,7%), cheque especial (5,7%) e cheque pré-datado (1,3%). Essa distribuição é preocupante tendo em vista que no rotativo do cartão de crédito incide as maiores taxas de juros cobrada pelo setor bancário.

“A inadimplência sempre cresce com o desemprego. Quando o país entrou em crise, a partir de 2014, nós tínhamos 51,8 milhões de CPF negativados. A crise, de 2014 pra cá, colocou mais 10 milhões na inadimplência,” afirma Luiz Rabi, economista da Serasa Experian. Grande parte dos brasileiros não faz planejamento financeiro e cultivam hábitos financeiros inadequados (gestão e consumo). O desemprego elevado (>12 milhões) contribui para a aumento da inadimplência, tendo em vista a falta de planejamento financeiro para atender imprevistos e até mesmo para a aposentadoria. Segundo Thiago Nigro, a população brasileira maior de 15 anos que realiza poupança para a velhice chega a 3,6% no Brasil, sobe para 13% na Colômbia, vai a 20,9% no México, 27,7% em Portugal e atinge 55,1% na Alemanha. O Brasil tem muito que aprender nessa área.

Pessoas com problemas financeiros recorrem com mais frequência a médicos e hospitais, faltam mais ao trabalho, se desentendem facilmente com colegas de trabalho, discutem mais com familiares, se separam ou divorciam mais que os financeiramente equilibrados, têm baixa concentração, sofrem e causam mais acidentes de trabalho, o que interfere na produtividade pessoal e indiretamente no resultado da empresa.

Atitudes para uma boa saúde financeira:

1. FAÇA PLANEJAMENTO FINANCEIRO:

Antes de abrir a carteira, avalie a necessidade da compra. Se o produto está listado no orçamento, é necessário, tem dinheiro suficiente no banco ou pode liquidar a fatura integral do cartão de crédito sem problema, compre. É importante fazer orçamento pessoal/familiar, mas não descuide do acompanhamento periódico. Relacione receitas e despesas, não descuide dos pequenos valores, como lanche, cerveja com os amigos etc, e liste as despesas por grupo: moradia, educação, saúde, transporte, lazer e pessoais. O orçamento ajuda a conhecer a real situação das despesas, para onde está indo o dinheiro;

2. ECONOMIZE NO DIA A DIA:

Prospera quem economiza no dia a dia. Feito o orçamento, pense em uma reserva financeira. A receita (R) e a despesa (D) devem observar a relação R>D (superávit). A reserva financeira é importante para atender imprevistos, ajuda na educação dos filhos, na boa qualidade de vida presente e na aposentadoria.

O planejamento financeiro é um compromisso a ser levado a sério e envolve toda a família. Estabeleça objetivos possíveis e faça tudo para atingi-los. Se a família faz planejamento financeiro, os filhos saberão que a liberdade financeira depende de planejamento, disciplina e trabalho. Famílias que ensinam educação financeira para suas crianças, ajudam a formar adultos financeiramente responsáveis. Hábitos financeiros saudáveis começam na infância.

3. PLANEJE SUA APOSENTADORIA:

Para muita gente o benefício pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), não será suficiente para manter uma boa qualidade de vida na aposentadoria, período em que se gasta mais com planos de saúde, médicos, remédios etc. Se não fizer planejamento financeiro com foco na aposentadoria, o valor recebido mensalmente será insuficiente para pagar as despesas quando parar de trabalhar. Reserve um percentual da receita para depositar mensalmente no banco e preparar sua aposentadoria.

Retire 10% da renda líquida e deposite em um banco. Verifique após três meses como está sua qualidade de vida, se não foi alterada recolha por mais três meses. A partir do sétimo mês de recolhimento entra no automático. O valor depositado não pode ser mexido em hipótese alguma, ele trará uma renda passiva (juros etc) no futuro, garantindo melhor qualidade de vida. Chame essa conta de Liberdade Financeira. Após doze meses descontando 10%, inicie outra retirando 5% da renda líquida, obedecendo o mesmo raciocínio, três meses e depois mais três e assim sucessivamente. A conta dos 5% é para atender necessidades urgentes ou imprevistos. Comece o quanto antes.

4. NÃO PARCELE COMPRAS:

É elevado o percentual de famílias endividadas com carnês de lojas (14,8%) e financiamento de carro (10,2%). As famílias com renda até 10 salários mínimos (SM), o percentual de dívida com carnê de loja atinge 16%, enquanto as com renda >10 SM o percentual de dívida com financiamento de carro chega a 19,5%, segundo a PEIC.

Antes de comprar pergunte-se: Eu preciso? Tenho dinheiro? Tem que ser agora? Uma negativa não compre, se ocorrerem três positivas, compre, mas negocie desconto. Pequenos valores quando somados se transformam em grandes valores. Tenha sempre o orçamento como referência e seja um consumidor consciente. Se não está no orçamento não compre.

5. FUJA DAS ARMADILHAS DO COMÉRCIO:

As promoções e a publicidade constante são tentadoras durante o ano. É a páscoa em abril, dia das mães em maio, das crianças em outubro, Black Friday em novembro, Natal e réveillon em dezembro e muitos outros feriados em que a publicidade pega muita gente desprevenida. Vender é o foco principal do comércio.

Em todos esses períodos o comércio se prepara, e as promoções, na maioria das vezes, escondem maquiagens de preços e outras artimanhas que levam os incautos ao endividamento. Siga o planejado e fuja das armadilhas.

6. UTILIZE O CARTÃO DE CRÉDITO COM PARCIMÔNIA:

Um dos fatores do endividamento decorre da má utilização do cartão de crédito (CC) e do não pagamento da fatura integral. O BCB divulgou em jan/17 novas regras para o pagamento do rotativo que vigoram a partir de abr/17, limitando o parcelamento do débito e obrigando as instituições a renegociarem as dívidas. Recentemente alterou o pagamento da fatura de compras realizadas com moeda estrangeira com vigência a partir de mar/20.

Segundo a PEIC, cerca de 77,4% das famílias se endividam com cartão de crédito. Famílias com renda <10 SM o percentual está em 78,4% e as com renda >10 SM cai para 73,7%. Um completo absurdo sob a ótica financeira, pois são os juros mais caros do mercado, próximo de 300% a.a. praticados no crédito rotativo. O CC pode ser um aliado se utilizado com disciplina, exemplo dos programas de milhagens e outros benefícios. Nunca compre supérfluo com cartão de crédito.

7. RENEGOCIE AS DÍVIDAS:

Troque as dívidas do rotativo do cartão de crédito e cheque especial por dívidas mais baratas, caso do consignado, e faça corte ou ajuste de despesas. Financiamento imobiliário ou de automóvel pode ser negociado quanto a valores e prazos. A portabilidade é um mecanismo com bons resultados na redução do endividamento. Troque o agente financeiro, muitas vezes barateia o valor das prestações. Fique atento ao Feirão Limpa Nome (anual), patrocinado pelo SPC-SERASA, que pode ajudar a sair do endividamento.

Pessoas que desenvolvem bons hábitos financeiros sofrem menos estresse, têm elevada produtividade, não descuidam da saúde física e mental e buscam relacionamentos pessoais e profissionais saudáveis. Não compre por impulso, economize todos os dias, faça reserva financeira, evite pagar juros, não parcele compras e nunca despreze os pequenos valores.

Portanto, as pessoas que alcançam a prosperidade financeira são disciplinadas, têm objetivos claros e definidos, trabalham com metas possíveis, poupam no dia a dia, controlam despesas, evitam compras por impulso, têm atitudes responsáveis na utilização do dinheiro, usam o crédito com parcimônia e estão atentas às mudanças no mercado financeiro.


¹/ Mentor e Coach Financeiro, especializado em educação financeira, finanças pessoais e desenvolvimento de pessoas. Educador e planejador financeiro há mais de 25 anos. É palestrante de temas ligados à educação financeira, finanças pessoais, inteligência financeira, educação corporativa e liderança, além de ministrar treinamentos e workshops nessas áreas. É Master Practitioner em PNL. Economista com mestrado e doutorado em economia, é também bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nas últimas três décadas. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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