FASES DA VIDA FINANCEIRA
Régis Varão/¹
Em cada fase da vida financeira, nossas
necessidades mudam, podendo ficar mais dispendiosas e até mais sofisticadas com
o passar dos anos. Quando se é jovem tempo não é problema, não falta energia e
disposição para erros e acertos, mas com o passar dos anos o tempo vira produto
escasso e caro, e as decisões sabiamente tomadas há vinte, trinta, quarenta
anos renderão bons frutos na maturidade.
O tempo passa e as necessidades de cada fase da
vida começam a pressionar, mas normalmente
é a partir da adolescência que começamos a nos preocupar com os projetos que
envolvem atitudes financeiras e que ajudam a transformar sonhos em projetos
reais, levando as pessoas, por suas escolhas e atitudes a um futuro com prosperidade
ou não.
Segundo Pedro Carrilho (2013), a maioria das
pessoas mede sua situação financeira em função de fatores externos, como o imóvel
em que vive, o carro ou o emprego que tem, e se esquece que deveria medir sua
situação financeira em função da fase financeira em que se encontra e de seus
objetivos pessoais.
Tendo em vista que muitas pessoas têm me perguntado
a respeito de fases para iniciar projetos que poderão ser realizados em vinte, trinta,
quarenta anos depois, resolvi escrever a respeito desse assunto. Alguns podem
não se enquadrar nessas fases financeiras aqui descritas, entretanto, podem tomar
atitudes adequadas, na época oportuna, e com certeza aproveitarão os benefícios
da decisão.
Um percentual elevado de pessoas inicia sua vida
financeira próxima aos vinte anos, alguns mais cedo, mas a maioria ainda não
terminou o ensino médio ou está iniciando o curso superior. Vamos trabalhar com
a seguinte faixa etária:
(a) Até os 20 anos: algumas crianças entre os 7 e 8
anos já demonstram interesse pelo dinheiro,
buscam informações a respeito de preços e até guardam dinheiro para
comprar objetos. A infância é a fase propícia para que pais e responsáveis
trabalhem conceitos de orçamento e poupança, que serão úteis na vida adulta. A importância que os pais atribuem ao
dinheiro provavelmente levarão seus filhos a terem as mesmas atitudes no
futuro. Algumas recomendações aos pais: jamais ceder às chantagens, comuns
nessa fase da vida, somente dar brinquedos em datas importantes, não comprar
itens de vestuário pequeno e em grande quantidade, crescem rápido, não dar
celular nessa fase da infância, incentivar a criança a participar das discussões
do orçamento familiar, estimular a criança a praticar atividade física e
alimentação saudável etc. Na adolescência os gastos tendem a aumentar, são mais
suscetíveis aos fatores externos (propaganda etc), principalmente os ligados à
moda e aos do grupo em que participam. Nessa fase, devido a pouca idade, é
comum os pais bancarem despesas com educação, alimentação, vestuário e lazer.
Segundo Cherobim e Espejo (2010), o que não é natural e, infelizmente, acontece
muito é um jovem de 14 anos trabalhar para auxiliar a família. A adolescência é
uma fase de muita despesa na família, pois o jovem precisa alimentar-se bem, são
elevados os gastos com educação, com a prática de esportes, diversão etc. Santos
(2013) apresenta as seguintes recomendações aos pais: incentivar o adolescente a
participar das discussões mensais do resultado do orçamento familiar, incentivá-lo
a fazer cursos de aprimoramento profissional (informática, língua estrangeira
etc), convencê-lo a fazer cursos de finanças pessoais, ajudá-lo na definição e
escolha do curso superior etc. De acordo com Murilo Carneiro (2014), ”isso vai
permitir a formação de uma pessoa equilibrada, que conhece a vida e vai ter a
opção de escolher o caminho a seguir.” Um curso técnico ou superior que leve a
oportunidades de crescimento, com rendimentos dignos é fruto do investimento
realizado na vida pessoal, logo, um desses cursos é o mínimo do ponto de vista
de investimento pessoal;
(b) Dos 20 aos 30 anos: para muitas
pessoas, a vida adulta se inicia com ingresso na universidade ou casamento, mas
não vamos discutir essas opções, até porque há controvérsia. De acordo com
Santos (2013), ”Nessa fase, mais precisamente a partir dos vinte anos,
espera-se que o jovem orientado na adolescência já esteja estudando em uma
faculdade, trabalhando e, no mínimo, conseguindo arcar com suas despesas
pessoais.” É a fase em que a pessoa tem rendimentos próprios e é
autossustentável. Pedro Carrilho (2013) afirma que essa etapa inicial da vida
financeira é uma das mais importantes, pois são cometidos os maiores erros
financeiros, e muitas vezes acabam por tirar alguns anos para consertá-los. Nessa
fase os ganhos são menores, e aqueles que ainda moram com os pais aumentam a
capacidade de poupar. Também pode pensar no próprio negócio, nesse caso, deve consultar
o Sebrae. Assim, o foco das finanças deve ser investimento em educação, cursos
de idiomas, pós-graduação e outros, é a hora da capacitação. Caso a pessoa não
tenha filhos pode correr riscos financeiros, como apostar em aplicações de
renda variável e até outras alternativas mais arriscadas. No entanto, o ideal é
iniciar o processo de acumulação, guardando parte do que ganha, de preferência o
equivalente a um salário bruto mensal por ano;
(c) Dos 30 aos 40 anos: essa é a
fase em que começa a construção do patrimônio propriamente dito. É a fase dos
grandes projetos financeiros, como a casa própria, o caro importado, o casamento
e filhos. Faça reserva financeira de um percentual do salário mensal para essa
finalidade. Ao comprar a casa própria é importante ter uma reserva financeira
para a entrada do imóvel, o que reduz substancialmente o valor do financiamento.
Comprometa no máximo até 25% do orçamento familiar com a prestação da casa
própria, e em nenhuma hipótese ultrapasse 30%. Crie o hábito de poupar bônus,
prêmios e 13º salário, mantendo uma reserva financeira para emergências. Não
exceda a soma de 36 salários mensais brutos da família, reduzindo o esforço na
hora de pagar a prestação. A edição nº 189, da revista Você S/A lembra que nessa
fase em que os ciclos de carreira estão mais curtos, a pessoa deve investir em
cursos de atualização, e que as reservas financeiras ajudarão nesse aspecto. Os
projetos de curto prazo ou de menor custo demandam aplicações de baixo risco e
menor rendimento como caderneta de poupança ou títulos públicos, estes, uma boa
escolha. No entanto, para projetos de 5 anos, as opções mudam, e o mercado de
capitais poderia ser uma opção, e após exaustiva pesquisa, fundos
multimercados. As Letras de Crédito Agrícolas (LCA), Letras de
Crédito Imobiliário (LCI)
e os títulos do tesouro (Tesouro Direto-STN)
vêm apresentando boa rentabilidade, além da liquidez e grande segurança. É
interessante um Plano
Gerador de Benefício Livre (PGBL), uma modalidade de plano de previdência privada, que possibilita a
dedução das contribuições no cálculo do imposto de
renda, até um limite de 12% da renda total tributável;
(d) Dos 40 aos 50 anos: você já
deve ter fontes de rendimento estáveis e provenientes de investimentos
realizados anteriormente em imóveis, fundos de investimentos etc. O alicerce
financeiro está forte e seguro, ainda deve manter um percentual dos ganhos
mensais para uma reserva financeira, nesse caso, de três a cinco salários
brutos mensais por ano, um valor confortável e que permite alavancar as fontes
de rendimentos e continuar a investir. O percentual de 20% retirado mensalmente
da renda bruta para formar reserva financeira dá tranquilidade e eleva a
segurança com o passar dos anos. Como provavelmente você está ganhando mais, caso
disponha de imóvel financiado, procure antecipar prestações. Os gastos com
filhos, principalmente com educação, tendem a aumentar, e tendo reserva
financeira utilize-a com cautela. No caso de desemprego, você precisa de uma
reserva equivalente a pelo menos seis meses de despesas mensais. Caso se depare
com essa situação, enxugue ao máximo as despesas para não sacrificar a
faculdade dos filhos. Quanto à previdência privada nunca mexa nela, pois poderá
comprometer o planejamento da aposentadoria feito ao longo dos anos;
(e) Dos 50 aos 60 anos: tente
reduzir os gastos e investir um pouco mais já focado na vida pós-aposentadoria.
Reserve de 10 a 30% dos ganhos para a previdência privada e continue buscando
investimentos seguros como títulos do tesouro, LCA, LCI e alguns fundos de
renda fixa. Você está em uma situação em que já deve ter atingido razoável
padrão de renda e conforto para ter qualidade de vida. Já deverá ter
rendimentos de investimentos que correspondam pelo menos 50% de suas despesas
mensais. É importante que nessa fase você faça as coisas que lhe dão prazer,
sem buscar ou preocupar-se com remuneração. Você S/A afirma que a expectativa
de vida é de mais de 74 anos, mas os consultores sugerem fazer um planejamento
como fosse viver 90 anos, e lembre-se que nessa fase as despesas médicas
subirão, portanto, invista em um bom plano de saúde;
(f) Acima dos 60 anos: segundo
José dos Santos (2013), “espera-se que o individuo bem orientado em todas as
etapas anteriores da vida tenha construído um patrimônio financeiro que
financie, no mínimo, suas necessidades básicas para desfrutar de uma
aposentadoria saudável.” Nessa fase, o esforço na formação do patrimônio feito
ao longo dos últimos quarenta anos deve ser recompensado com uma aposentadoria
tranquila, com viagens e mais qualidade de vida. É quando você pode realizar
alguns sonhos, conhecer novos lugares, estudar um novo idioma etc. Mesmo
aposentado é importante continuar aplicando as regras de poupança e
investimento, buscando aplicações com baixo risco. Adote uma segunda carreira
numa área que lhe dê prazer, pois além de espantar o tédio ajuda a preservar a
poupança. Segundo Gustavo Cerbasi, “Que tal sair do padrão? Em vez de se
preparar para parar de trabalhar, prepare-se para continuar trabalhando ou para
assumir um trabalho mais gratificante na terceira idade. Quem não vê a hora de
parar é porque tem um estilo de vida pouco estimulante”. Por outro lado, um novo
negócio nessa fase é arriscado, pois são reduzidas as chances de recuperação.
Portanto, infelizmente para muitas pessoas, quando a
aposentadoria chega não estão preparadas emocional e financeiramente para esse
dia, pois ao longo de suas vidas não pensaram em fazer planejamento financeiro.
Pesquisas indicam que 64% dos brasileiros entrevistados nunca pouparam para a
aposentadoria, e um terço não tem a intenção de fazê-lo, o que explica a
quantidade de pessoas acima de 60 anos ainda na ativa, que não se aposentam por
não estarem financeiramente preparadas para essa nova fase. O futuro depende de
atitudes que você adota no presente.
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