terça-feira, 23 de junho de 2015

CONJUNTURA ECONÔMICA & FINANÇAS PESSOAIS
Régis Varão/¹

Diariamente o noticiário tem mostrado as fragilidades da economia brasileira e seus reflexos na atividade econômica e no nível de emprego, ambos caindo fortemente nos últimos meses, e nos preços e taxas de juros, ambos subindo também nos últimos meses. A decisão tomada pelo Banco Central (BCB) na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em elevar mais uma vez a Taxa Selic para 13,75% a.a., dificulta mais ainda a vida dos devedores. Este novo patamar de juros coloca o Brasil com a mais elevada taxa de juros reais do mundo, segundo a MoneYou/Up Trends Consultoria.

O País está à beira de uma recessão e o brasileiro continua pagando juros elevadíssimos, como exemplo, o crédito rotativo do cartão de crédito atingiu, segundo informações do BCB, a taxa média de 347,5% a.a. em abril deste ano. A expectativa atual do mercado é mais aumento da taxa de juros na próxima reunião do Copom, dificultando e encarecendo mais ainda para o crédito.

A crise econômica está batendo forte na casa dos brasileiros, tendo o nível de desemprego passado de 7,1% no acumulado de fev-abr/14, para 8% no trimestre fev-abr/15 (alta de 0,9 p.p.), registrando o mais elevado patamar para o período desde o início da série histórica em 2012, o que representa cerca de 8 milhões de brasileiros a procura de colocação e não encontram vagas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O governo demorou a tomar medidas para tentar resolver o desempenho negativo das principais variáveis macroeconômicas e em especial das contas públicas, enquanto o brasileiro nos últimos anos vem tentando fazer ajustes em seus orçamentos pessoais e familiares. Algumas famílias já incorporaram em suas rotinas os ajustes orçamentários, com maior controle de despesas, tendo em vista que a inflação crescente tem reduzindo o poder aquisitivo da população, que agora se depara com mais problemas, juros mais elevados, que encarece o crédito, e desemprego crescente.

A situação não é confortável, por outro lado, algumas estatísticas preocupam, pois 8 brasileiros em cada 10 não têm controle total de suas despesas pessoais, 57% não sabem informar com precisão quanto e quais são os gastos extras semanais e 56% chegam ao último dia do mês sem ter poupado um único centavo, segundo pesquisa do SPC-CNDL.

Ainda nesse quadro desanimador, o Indicador Serasa Experian de Inadimplência do Consumidor (http://www.serasaexperian.com.br/), apresentou em mai/15, o maior incremento mensal do ano, com alta de 4,8% ante abr/15. Comparando mai/15 com igual período do ano anterior, o crescimento do indicador atingiu 14,9%, e repetiu a mesma variação +14,9% no período jan-mai/15 frente a jan-mai/14. De acordo com os economistas da Serasa Experian, a elevação das taxas de desemprego, o peso da inflação mais alta no bolso do consumidor e os juros cada vez maiores incidentes sobre as dívidas estão dificultando a situação financeira do consumidor, puxando para cima os níveis de inadimplência.

Por outro lado, ainda com relação ao relatório da Serasa Experian, as dívidas com os bancos foram as principais responsáveis pela elevação do indicador em mai/15, com aumento de 5,5% e contribuição de 2,6 p.p. Quanto à inadimplência não bancária (cartões de crédito, financeiras, lojas em geral e prestadoras de serviços como telefonia e fornecimento de energia elétrica, água etc.) apresentou aumento de 4,9% e contribuição de 2,3 p. p. em maio/15. Por fim, os protestos e os cheques sem fundos registraram alta de 6,9% e queda de 2,1%, respectivamente.

Todavia, cabe registrar, ainda segundo o documento da Serasa Experian, que o valor médio das dívidas não bancárias subiu 32,6% no período jan-mai/15, na comparação com jan-mai/14, enquanto o valor médio dos cheques sem fundos e da inadimplência com o setor bancário cresceu 10% e 0,1%, respectivamente.

A Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), afirma que o percentual de famílias brasileiras endividadas entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguros atingiu 62,4% em maio deste ano, ante elevação de 61,6% observada no mês anterior, mas inferior aos 62,7% registrados em mai/14. O total de famílias endividadas em mai/15, frente ao mês anterior, registrou elevação em ambas as faixas de renda (abaixo e acima de 10 SM-Salários Mínimos), enquanto na comparação anual, a queda foi observada apenas na faixa de renda inferior a 10 SM.

Ainda segundo a CNC, seguindo a elevação do nível de endividamento das famílias, a proporção daqueles com dívidas ou contas em atraso também registrou alta na comparação mensal, saindo de 19,7% em abr/15 para 21,1% em mai/15, também acima do observado em maio de 2014 (20,9%). O percentual de famílias que afirmaram sem condições de pagar suas contas ou dívidas continuavam inadimplentes, aumentou nas duas bases de comparação, passou de 6,9% em abr/15 para 7,4% no mês seguinte, enquanto em mai/14 ficou em 6,8%.

Na pesquisa PEIC/CNC, cabe ressaltar algumas informações relevantes quanto ao desconhecimentos das famílias brasileiras com relação aos conhecimentos básicos de economia, matemática financeira e finanças pessoais. De acordo com a pesquisa, o cartão de crédito continua a ser apontado como um dos principais tipos de dívida por 76,9% das famílias endividadas, seguido por carnês de lojas (15,6%), financiamento de carro (13,6%), crédito pessoal (9%), financiamento de casa (8,1%), cheque especial (6,1%), crédito consignado (4,9%) e cheque pré-datado com 1,6%. Nos últimos meses essa ordem de classificação manteve-se inalterada, permanecendo o cartão de crédito na liderança.

A liderança do cartão de crédito como escolha de endividamento das famílias, mostra o total desconhecimento do funcionamento dos juros compostos. Cerca de 77% das famílias pesquisadas utilizam essa cara modalidade de crédito praticada pelo setor bancário, chegando em algumas instituições financeiras a ultrapassar 348% a.a. Por outro lado, o crédito consignado considerado a melhor opção do mercado quanto aos juros cobrados pelos bancos, menos de 5% das famílias pesquisadas optam por essa linha de crédito.

As armadilhas do comércio são conhecidas como: o destaque que o varejista dá ao valor das parcelas no lugar do preço total do produto; restaurantes que excluem os valores do menu para venderem mais; cardápios que usam termos “textura”, “suave” e “delicado” chegam a vender mais de 25% que os menus comuns; a iluminação adequada nos provadores de roupa para influenciar a decisão de compra; o senso de urgência utilizado pelas agências de viagens leva o incauto consumidor a comprar pacotes sem fazer contas; o tamanho dos “carrinhos” de supermercados para que você tenha a impressão que está levando poucos produtos; os produtos ofertados por R$ 139,99, por exemplo, dão a impressão que o preço fica mais perto de R$ 100,00 que de R$ 140,00; e finalmente, lojas que desenvolvem aromas que combinam com suas marcas e permitem que o consumidor se identifique com os produtos pelo olfato, um exemplo entre muitos é a grife Hugo Boss.

O consumidor deve estar atento às inúmeras armadilhas do dia-a-dia elaboradas pelas lojas, supermercados, restaurantes, setor bancário, telefonia etc, cuja preocupação é elevar seus lucros, mesmo que a custa do endividamento das pessoas.

Muito cuidado, a situação econômica atual é desfavorável, são muitas as armadilhas do comércio (descritas acima) e dos bancos/financeiras na oferta de crédito caro e muitas vezes desnecessário. Os endividados devem ficar mais atentos ou os que pretendem utilizar crédito, fica o alerta, não é hora de fazer dívidas, financiamentos etc. Negocie o quanto antes suas dívidas, saia do endividamento o mais rápido possível, antes que seja tarde.

As pesquisas da CNC mostram que nos últimos anos as famílias brasileiras têm optado pela modalidade mais cara de crédito, o cartão de crédito, o que é uma péssima escolha, tendo em vista os elevados encargos pagos por atrasos.

Está comprovado que indivíduos com elevado grau de endividamento são mais descuidados, faltam mais ao trabalho, vão mais a médicos e hospitais, utilizam mais atestados que os demais empregados, se irritam facilmente, se desentendem com frequência com os colegas de trabalho, enfim, o resultado de tudo isso é a redução substancial da produtividade no trabalho.

Portanto, os prejuízos decorrentes de atitudes impensadas se espalham por toda a sociedade. A sugestão que apresento para evitar ou sair do endividamento: faça um orçamento pessoal/familiar, reúna a família e discuta seus hábitos de consumo, estabeleça metas de gastos, reduza suas dívidas ou as negocie urgentemente, corte os supérfluos, fique atento aos pequenos valores e organize sua vida financeira o mais rápido possível.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais e palestrante com experiência em educação financeira, finanças pessoais, educação corporativa e conjuntura econômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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