CONJUNTURA
ECONÔMICA & FINANÇAS PESSOAIS
Régis
Varão/¹
Diariamente
o noticiário tem mostrado as fragilidades da economia brasileira e seus
reflexos na atividade econômica e no nível de emprego, ambos caindo fortemente
nos últimos meses, e nos preços e taxas de juros, ambos subindo também nos
últimos meses. A decisão tomada pelo Banco Central (BCB)
na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom),
em elevar mais uma vez a Taxa Selic para 13,75% a.a., dificulta mais ainda a
vida dos devedores. Este novo patamar de juros coloca o Brasil com a mais
elevada taxa de juros reais do mundo, segundo a MoneYou/Up Trends Consultoria.
O
País está à beira de uma recessão e o brasileiro continua pagando juros
elevadíssimos, como exemplo, o crédito rotativo do cartão de crédito atingiu,
segundo informações do BCB, a taxa média de 347,5% a.a. em abril deste ano. A
expectativa atual do mercado é mais aumento da taxa de juros na próxima reunião
do Copom, dificultando e encarecendo mais ainda para o crédito.
A
crise econômica está batendo forte na casa dos brasileiros, tendo o nível de
desemprego passado de 7,1% no acumulado de fev-abr/14, para 8% no trimestre
fev-abr/15 (alta de 0,9 p.p.), registrando o mais elevado patamar para o
período desde o início da série histórica em 2012, o que representa cerca de 8
milhões de brasileiros a procura de colocação e não encontram vagas, segundo o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O
governo demorou a tomar medidas para tentar resolver o desempenho negativo das
principais variáveis macroeconômicas e em especial das contas públicas,
enquanto o brasileiro nos últimos anos vem tentando fazer ajustes em seus
orçamentos pessoais e familiares. Algumas famílias já incorporaram em suas rotinas
os ajustes orçamentários, com maior controle de despesas, tendo em vista que a
inflação crescente tem reduzindo o poder aquisitivo da população, que agora se
depara com mais problemas, juros mais elevados, que encarece o crédito, e desemprego
crescente.
A
situação não é confortável, por outro lado, algumas estatísticas preocupam, pois
8 brasileiros em cada 10 não têm controle total de suas despesas pessoais, 57% não
sabem informar com precisão quanto e quais são os gastos extras semanais e 56%
chegam ao último dia do mês sem ter poupado um único centavo, segundo pesquisa
do SPC-CNDL.
Ainda
nesse quadro desanimador, o Indicador Serasa Experian de Inadimplência do
Consumidor (http://www.serasaexperian.com.br/),
apresentou em mai/15, o maior incremento mensal do ano, com alta de 4,8% ante
abr/15. Comparando mai/15 com igual período do ano anterior, o crescimento do
indicador atingiu 14,9%, e repetiu a mesma variação +14,9% no período
jan-mai/15 frente a jan-mai/14. De acordo com os economistas da Serasa
Experian, a elevação das taxas de desemprego, o peso da inflação mais
alta no bolso do consumidor e os juros cada vez maiores incidentes sobre as
dívidas estão dificultando a situação financeira do consumidor, puxando para
cima os níveis de inadimplência.
Por
outro lado, ainda com relação ao relatório da Serasa Experian, as dívidas com
os bancos foram as principais responsáveis pela elevação do indicador em mai/15,
com aumento de 5,5% e contribuição de 2,6 p.p. Quanto à inadimplência não
bancária (cartões
de crédito, financeiras, lojas em geral e prestadoras de serviços como
telefonia e fornecimento de energia elétrica, água etc.) apresentou aumento de
4,9% e contribuição de 2,3 p. p. em maio/15. Por fim, os protestos e os cheques
sem fundos registraram alta de 6,9% e queda de 2,1%, respectivamente.
Todavia,
cabe registrar, ainda segundo o documento da Serasa Experian, que o valor médio
das dívidas não bancárias subiu 32,6% no período jan-mai/15, na comparação com
jan-mai/14, enquanto o valor médio dos cheques sem fundos e da inadimplência
com o setor bancário cresceu 10% e 0,1%, respectivamente.
A Pesquisa Nacional de Endividamento e
Inadimplência do Consumidor (PEIC),
realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), afirma que o percentual
de famílias brasileiras endividadas entre cheque pré-datado, cartão de crédito,
cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguros
atingiu 62,4% em maio deste ano, ante elevação de 61,6% observada no mês
anterior, mas inferior aos 62,7% registrados em mai/14. O total de famílias
endividadas em mai/15, frente ao mês anterior, registrou elevação em ambas as
faixas de renda (abaixo e acima de 10 SM-Salários Mínimos), enquanto na
comparação anual, a queda foi observada apenas na faixa de renda inferior a 10
SM.
Ainda segundo a CNC, seguindo a elevação do nível
de endividamento das famílias, a proporção daqueles com dívidas ou contas em
atraso também registrou alta na comparação mensal, saindo de 19,7% em abr/15
para 21,1% em mai/15, também acima do observado em maio de 2014 (20,9%). O
percentual de famílias que afirmaram sem condições de pagar suas contas ou
dívidas continuavam inadimplentes, aumentou nas duas bases de comparação,
passou de 6,9% em abr/15 para 7,4% no mês seguinte, enquanto em mai/14 ficou em
6,8%.
Na pesquisa PEIC/CNC, cabe ressaltar algumas
informações relevantes quanto ao desconhecimentos das famílias brasileiras com
relação aos conhecimentos básicos de economia, matemática financeira e finanças
pessoais. De acordo com a pesquisa, o cartão de crédito continua a ser apontado
como um dos principais tipos de dívida por 76,9% das famílias endividadas,
seguido por carnês de lojas (15,6%), financiamento de carro (13,6%), crédito
pessoal (9%), financiamento de casa (8,1%), cheque especial (6,1%), crédito
consignado (4,9%) e cheque pré-datado com 1,6%. Nos últimos meses essa ordem de
classificação manteve-se inalterada, permanecendo o cartão de crédito na
liderança.
A liderança do cartão de crédito como escolha de
endividamento das famílias, mostra o total desconhecimento do funcionamento dos
juros compostos. Cerca de 77% das famílias pesquisadas utilizam essa cara modalidade
de crédito praticada pelo setor bancário, chegando em algumas instituições
financeiras a ultrapassar 348% a.a. Por outro lado, o crédito consignado
considerado a melhor opção do mercado quanto aos juros cobrados pelos bancos,
menos de 5% das famílias pesquisadas optam por essa linha de crédito.
As armadilhas do comércio são conhecidas como: o
destaque que o varejista dá ao valor das parcelas no lugar do preço total do
produto; restaurantes que excluem os valores do menu para venderem mais; cardápios
que usam termos “textura”, “suave” e “delicado” chegam a vender mais de 25% que
os menus comuns; a iluminação adequada nos provadores de roupa para influenciar
a decisão de compra; o senso de urgência utilizado pelas agências de viagens
leva o incauto consumidor a comprar pacotes sem fazer contas; o tamanho dos
“carrinhos” de supermercados para que você tenha a impressão que está levando
poucos produtos; os produtos ofertados por R$ 139,99, por exemplo, dão a
impressão que o preço fica mais perto de R$ 100,00 que de R$ 140,00; e
finalmente, lojas que desenvolvem aromas que combinam com suas marcas e
permitem que o consumidor se identifique com os produtos pelo olfato, um
exemplo entre muitos é a grife Hugo Boss.
O consumidor deve estar atento às inúmeras armadilhas
do dia-a-dia elaboradas pelas lojas, supermercados, restaurantes, setor
bancário, telefonia etc, cuja preocupação é elevar seus lucros, mesmo que a
custa do endividamento das pessoas.
Muito cuidado, a situação econômica atual é desfavorável,
são muitas as armadilhas do comércio (descritas acima) e dos bancos/financeiras
na oferta de crédito caro e muitas vezes desnecessário. Os endividados devem
ficar mais atentos ou os que pretendem utilizar crédito,
fica o alerta, não é hora de fazer dívidas, financiamentos etc. Negocie o
quanto antes suas dívidas, saia do endividamento o mais rápido possível, antes
que seja tarde.
As pesquisas da CNC mostram que nos últimos anos as
famílias brasileiras têm optado pela modalidade mais cara de crédito, o cartão
de crédito, o que é uma péssima escolha, tendo em vista os elevados encargos
pagos por atrasos.
Está comprovado que indivíduos com elevado grau de
endividamento são mais descuidados, faltam mais ao trabalho, vão mais a médicos
e hospitais, utilizam mais atestados que os demais empregados, se irritam
facilmente, se desentendem com frequência com os colegas de trabalho, enfim, o
resultado de tudo isso é a redução substancial da produtividade no trabalho.
Portanto, os prejuízos decorrentes de atitudes
impensadas se espalham por toda a sociedade. A sugestão que apresento para
evitar ou sair do endividamento: faça um orçamento
pessoal/familiar, reúna a família e discuta seus hábitos
de consumo, estabeleça metas de gastos, reduza suas dívidas ou as
negocie urgentemente, corte os supérfluos, fique atento aos pequenos
valores e organize sua vida financeira o mais rápido possível.
Nenhum comentário:
Postar um comentário