terça-feira, 23 de janeiro de 2018

SUBIU O PERCENTUAL MÉDIO DO ENDIVIDAMENTO EM 2017
Régis Varão/¹

O estudo “O perfil do endividamento das famílias brasileiras em 2017” apresenta o perfil do endividamento no período 2010-17. Foi elaborado com base na Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor-PEIC, publicada pela Confederação Nacional do Comércio-CNC. Os dados são coletados mensalmente desde jan/10 em todas as capitais brasileiras mais o Distrito Federal.

A pesquisa mostra que, após o declínio no percentual médio de famílias endividadas observado no período 2014-16, em 2017 foi observado alta de 0,6 p.p. ante o ano anterior. Assim, o percentual médio de famílias endividadas com cartão de crédito, cheque especial, cheque pré-datado, crédito consignado, crédito pessoal, carnês, financiamento de carro e financiamento de casa, entre outras, em relação ao total, apresentou o seguinte comportamento: 2010 (59,1%), 2011 (62,2%), 2012 (58,3%), 2013 (62,5%), 2014 (61,9%), 2015 (61,1%), 2016 (60,2%) e 2017 (60,8%).

Em 2017, segundo o relatório da CNC, “Foi a primeira alta do indicador em três anos, considerando as médias anuais. Após uma queda no segundo trimestre do ano, o percentual de famílias com dívidas permaneceu acima do patamar observado em 2016 e ao longo de todo o segundo semestre de 2017, terminando o ano em 62,2%”. Os meses de novembro e dez/17 permaneceram estáveis em 62,2%, o patamar mais elevado observado no ano. Já o percentual médio de famílias endividadas aumentou 1,7 p.p. entre 2010 e 2017.

Os indicadores de inadimplência da pesquisa também apresentaram elevação no período 2010-17. O percentual médio de famílias com contas ou dívidas em atraso chegou a 24,9% em 2010 na média anual, atingindo 25,4% em 2017, este, o maior percentual observado na série histórica, enquanto a menor parcela foi verificada em 2014 (19,4%). Em dez/17, o percentual de famílias com dívidas em atraso atingiu 25,7%, apresentando elevação de 1,7 p.p. ante dez/16, mas registrando declínio de 0,1 p.p. ante nov/17. Após alcançar o maior patamar do ano em set/17 com 26,5%, a parcela de famílias com dívidas em atraso apresentou tendência de queda no último trimestre, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor-PEIC de dez/17.

Ainda com relação à inadimplência, a parcela de famílias sem condições de pagar suas contas em atraso, logo, continuam inadimplentes, cresceu 1,3 p.p. entre 2010 (8,9%) e 2017 (10,2%). O menor percentual médio anual foi registrado em 2014 (6,3%), enquanto 2017 ficou com a maior parcela média anual do período em análise. Em dez/17, o percentual de famílias sem condições de pagar as dívidas em atraso atingiu 9,7%, +0,6 p.p. ante dez/16 e -0,4 p.p. ante nov/17.

Segundo Marianne Hanson, da CNC, “Apesar da melhora recente, os indicadores de inadimplência permanecem em níveis superiores aos do ano passado. A taxa de desemprego ainda bastante alta ajuda a explicar a dificuldade das famílias em pagar suas contas em dia e o pessimismo em relação à capacidade de pagamento”.

Ao longo da série histórica, o cartão de crédito foi o tipo de dívida preferido das famílias brasileiras, saindo de 70,9% em 2010, na média anual, e chegando a 76,7% em 2017. O maior percentual médio anual foi observado em 2016 quando atingiu 77,1% (valor recorde da série histórica), caindo 0,4 p.p. no ano seguinte. Já o menor percentual médio foi observado em 2010 com 70,9% na preferências das famílias endividadas.

O relatório da CNC afirma “Contudo, pela primeira vez desde o início da pesquisa, houve redução do percentual de famílias que aponta essa modalidade como o principal tipo de dívida. Em segundo lugar, ficou o carnê, por 15,7% das famílias, e, em terceiro, o crédito pessoal, por 10,3%. Além do cartão de crédito, também foram menos citadas em 2017 as modalidades: cheque especial, cheque pré-datado e financiamento de carro. Destaca-se a maior importância do crédito habitacional e do crédito consignado, em comparação com o ano anterior”.

Segundo a CNC, “Houve redução do comprometimento de renda como pagamento mensal das dívidas, o que evidencia a diminuição do custo do crédito em relação à renda familiar”. Ainda segundo a CNC, a mudança na composição das dívidas ajuda a explicar esse comportamento em 2017, tendo em vista que a participação dos tipos de dívidas mais caras (cartão de crédito e cheque especial) apresentaram declínio, enquanto as modalidades de custo mais baixo (crédito consignado e financiamento de casa) registraram elevação. A parcela média da renda comprometida com o pagamento de dívidas passou de 29,9% em 2010 para 30,6% em 2016, chegando em 2017 com 30,1%. O menor percentual médio observado foi em 2013 (29,4%) e o maior foi verificado em 2015 e 2016, com 30,6%, respectivamente.

Embora o comprometimento de renda entre as famílias endividadas tenha declinado, houve piora na percepção de uma parcela delas em relação ao seu nível de endividamento, tendo em vista que um número maior de famílias relatou estar muito e mais ou menos endividado. A média anual do percentual das famílias que afirmaram estar muito endividadas aumentou de 14% em 2010 para 14,6% em 2017, e permaneceu praticamente estável ante 2016 (14,5%). O menor percentual foi observado em 2014 (11,6%), enquanto o maior foi em 2011 (15,9%).

Já o percentual das famílias que se declararam mais ou menos endividadas saiu de 21,1% em 2010, média anual, para 22,5% em 2017. O menor valor médio anual foi registrado em 2012 (20,8%) , enquanto o maior atingiu 23,8% em 2014.

O percentual médio anual de famílias pouco endividadas decresceu de 24% em 2010 para 23,8% em 2017, quando registrou o menor valor da série, enquanto o maior  foi 27,2% verificado em 2013.

Nas duas faixas de renda pesquisadas - até dez salários mínimos <10 SM e acima de dez salários mínimos >10 SM -, houve desacordo no comportamento do endividamento familiar. Enquanto na faixa de renda <10 SM houve elevação do percentual médio de famílias endividadas, saindo de 60,9% em 2010 para 62,6% em 2017. O menor percentual foi registrado em 2012 (59,5%), enquanto o maior foi 64% em 2013. Já na faixa de renda >10 SM, saiu de 47,9% em 2010 para 51,7% em 2017. No período 2013-14 foi observado incremento do percentual médio nessa faixa de renda mais elevada, tendo apresentado declínio a partir de 2016 (52,3%).

Na faixa de renda <10 SM, houve aumento de 1,9 p.p. de famílias com dívidas ou contas em atraso entre 2010 (26,8%) e 2017 (28,7%). Em 2017 foi verificado o maior percentual, enquanto o menor foi em 2014 (21,7%).  Na faixa de renda mais elevada, o percentual médio caiu de 13,2% (maior valor da série) em 2010 para 11,4% em 2017. O menor percentual foi 9,8% em 2014. O percentual de famílias que afirmaram sem condições de pagar suas contas em atraso e continuariam inadimplentes passou de 9,8% em 2010 para 11,8% em 2017, na faixa de renda <10 SM, enquanto as famílias na faixa de renda >10 SM saiu de 3,2% em 2010 para 3,9% em 2017.

Portanto, a lenta recuperação da atividade econômica, a queda da inflação, a redução dos juros e o pequeno declínio do desemprego não foram suficientes para impactar positivamente o nível de endividamento das famílias que registrou alta em 2017, após três anos de declínio, e a inadimplência que mantém-se em patamar muito elevado. Cabe registrar a preferência das famílias pelo cartão de crédito, como forma de endividamento, o que demonstra falta de educação financeira da população. As famílias brasileiras deveriam adotar hábitos financeiros saudáveis que poderiam conduzi-las a uma vida de prosperidade.

¹/ Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoas, educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, é também bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.

Nenhum comentário:

Postar um comentário