quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CARTÃO DE CRÉDITO X CONSUMIDOR BRASILEIRO
Régis Varão/¹

Muito se tem falado a respeito das desvantagens do cartão de crédito, e muito pouco das vantagens, pois é prático, moderno, fácil de usar e de muita utilidade prática. Ele oferece diversos benefícios como a possibilidade de pagar compras à vista em até 40 dias, parcelar as compras sem o pagamento de juros, acumular milhas para viagens entre outros benefícios.

Embora prático, pode causar surpresas desagradáveis naquele que o usa de maneira inadequada, impensada, podendo chegar ao descontrole financeiro, e ao endividamento. A taxa de juros do crédito rotativo, que incide quando não se paga a fatura integral no vencimento, é a mais elevada do mercado, chegando a 395,3% a.a. em julho de 2015, segundo dados do Banco Central do Brasil (BCB). O rotativo do cartão de crédito é a operação em que o cliente financia o saldo devedor remanescente após pagar somente parte da fatura ou o valor mínimo. Para muitas pessoas ter vários cartões é sinal de status, mas esquecem das várias anuidades a serem pagas.

Para facilitar a vida financeira da maioria da população, protegendo-os de desagradáveis notícias e noites mal dormidas, listamos algumas dicas para a melhor utilização desse dinheiro de plástico tão comum hoje em dia:

01. Programe-se financeiramente antes de realizar qualquer compra, e nunca esqueça que os gastos realizados precisam estar de acordo com o seu orçamento doméstico;

02. Pague mensalmente o saldo total da fatura, de preferência coloque no débito em conta, nunca pague o valor mínimo, pois a incidência de juros no saldo devedor não pago será sempre a mais elevada do mercado, chegando a 14,26% a.m., em julho/15, segundo dados do BCB;

03. Evite colecionar cartões, pois todos cobram anuidades, e cancele os que não são utilizados;

04. Se a pessoa é disciplinada financeiramente, pode ter até dois cartões com vencimentos e bandeiras diferentes (Visa e Mastercard), o que permite trabalhar melhor com os prazos e o orçamento pessoal;

05. Muitas operadoras de cartão dispensam a anuidade quando solicitadas, portanto, solicite isenção das anuidades;

06. Prefira cartões sem anuidades, que dispõem de vantagens como boa aceitação no mercado interno e externo, bom limite de crédito, programas de seguros de viagens, programas de milhagem, bom atendimento etc;

07. Concentre-se mais nos benefícios que o cartão oferece que em suas variadas cores (black, infinite, diamante entre outros), muitas vezes vistas como sinal de status;

08. Coloque o vencimento da fatura do cartão para pelo menos três ou quatro dias após o recebimento de seus vencimentos (salário, pró-labore etc);

09. Informe-se qual a melhor data da compra, tendo em vista que compras próximas ao vencimento do cartão (2.8.15) vão para o próximo vencimento (2.9.15), o que pode chegar até 40 dias;

10. Em caso da fatura mensal vir uma despesa de compra desconhecida, reclame imediatamente junto à administradora antes de quitar a fatura;

11. Se o cartão estiver em débito automático, verifique cuidadosamente a fatura antes do débito;

12. Ao sair de casa com o cartão de crédito não leve junto o talão de cheques, os dois nunca devem dividir o mesmo espaço, leve um ou outro, nunca os dois;

13. Negocie o limite de crédito com a administradora, pois elas tendem a serem generosas na concessão de limites;

14. Se você está com problemas financeiros é recomendável um limite de crédito de no máximo 25% dos rendimentos líquidos mensais. Se você não está com problemas financeiros, por precaução, não permita que seus gastos ultrapassem 45% de sua renda líquida mensal;

15. Tenha sempre em mente que o valor disponível do cartão de crédito não é seu, tenha sempre o montante de dinheiro necessário para quitá-lo, e nunca saque dinheiro pelo cartão de crédito, existe um custo muito elevado nesse tipo de transação;

16. Se você é descontrolado, cuidado com compras parceladas, pois muitas vezes a pessoa não tem a exata noção de quanto as parcelas representam no limite do cartão, e quando percebe já está endividado;

17. Nunca empreste seu cartão de crédito, senha, e não faça compras para terceiros, pois poderá ter grandes aborrecimentos no vencimento do cartão;

18. Nunca gaste mais do que poderia apenas para agradar um filho, um amigo ou parente, ou até mesmo simplesmente se agradar (veja o item 01);

19. Se você está com dívida elevada no cartão, evite usá-lo e tente imediatamente renegociar a dívida.

Como podemos observar, o cartão de crédito é um instrumento muito prático e útil para os que sabem usá-lo com parcimônia, pois facilita a vida do consumidor livrando-o de carregar dinheiro em espécie em compras, em viagens, em restaurantes, além de possibilitar o adiamento do pagamento da fatura. Por outro lado, quando mal utilizado, ele pode endividá-lo, constrangê-lo e até mesmo se transformar em uma grande dor de cabeça.

Portanto, mantenha as despesas do cartão de crédito dentro de controles rígidos, com o pagamento integral da fatura no vencimento, com compras planejadas e dentro do seu orçamento financeiro pessoal. Ele pode ser um importante e útil instrumento de consumo, um facilitador na vida do consumidor, podendo ser considerado um aliado, que atende e ajuda a resolver imprevistos e a suprir as necessidades momentâneas de crédito.


¹/ Consultor de Finanças Pessoais, educador financeiro e palestrante nas áreas de educação financeira e corporativa, finanças pessoais e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.
DIVERSAS FASES DA VIDA FINANCEIRA
Régis Varão/¹

Em cada fase da vida financeira, nossas necessidades mudam, podendo ficar mais dispendiosas e até mais sofisticadas com o passar dos anos. Quando se é jovem tempo não é problema, não falta energia e disposição para erros e acertos, mas com o passar dos anos o tempo vira produto escasso e caro, e as decisões sabiamente tomadas há vinte, trinta, quarenta anos poderão render bons frutos na maturidade.

O tempo passa e as necessidades de cada fase da vida começam a pressionar, mas normalmente é a partir da adolescência que deveríamos começar a nos preocupar com os projetos que envolvem atitudes financeiras e que ajudam a transformar sonhos em projetos reais, levando as pessoas, por suas escolhas e atitudes a um futuro com prosperidade ou não.

Segundo Pedro Carrilho (2013), a maioria das pessoas mede sua situação financeira em função de fatores externos, como o imóvel em que vive, o carro ou o emprego que tem, e se esquece que deveria medir sua situação financeira em função da fase financeira em que se encontra e de seus objetivos pessoais.

Tendo em vista que muitas pessoas me perguntam a respeito de fases para iniciar projetos que poderão ser realizados ao longo de vinte, trinta, quarenta anos, resolvi escrever a respeito desse assunto. Alguns podem não se enquadrar nessas fases financeiras aqui descritas, entretanto, tomando atitudes adequadas, na época oportuna, com certeza aproveitarão os benefícios da decisão.

Um percentual elevado de pessoas inicia sua vida financeira próxima aos dezenove, vinte anos, alguns mais cedo, mas a maioria ainda não terminou o ensino médio ou está iniciando o curso superior. Vamos trabalhar com a seguinte faixa etária, para facilitar a discussão:

(a) Até os 20 anos: algumas poucas crianças entre os 7 e 8 anos já demonstram interesse pelo dinheiro,  buscam informações a respeito de preços e até guardam dinheiro para comprar objetos. A infância é a fase propícia para que pais e responsáveis trabalhem conceitos de orçamento e poupança, que serão úteis na vida adulta. A importância que os pais atribuem ao dinheiro provavelmente levarão seus filhos a terem as mesmas atitudes no futuro. Tenham atitudes cuidadosas no trato com o dinheiro, pois os pais podem ser bons ou maus exemplos para seus filhos. Algumas recomendações: jamais ceder às chantagens, comuns nessa fase da vida, somente dar brinquedos em datas importantes, não comprar itens de vestuário pequeno e em grande quantidade, eles crescem rápido, não dar celular nessa fase da infância, incentivar a criança a participar das discussões do orçamento familiar, estimular a praticar de atividade física e alimentação saudável etc. Na adolescência os gastos tendem a aumentar, são mais suscetíveis aos fatores externos (propaganda, amigos de escola etc), principalmente os ligados à moda e aos do grupo em que participam. Nessa fase, devido a pouca idade, é comum os pais bancarem despesas com educação, alimentação, vestuário e lazer. Segundo Cherobim e Espejo (2010), o que não é natural e, infelizmente, acontece muito é um jovem de 14 anos trabalhar para auxiliar a família. A adolescência é uma fase de muita despesa para os pais, pois o jovem precisa alimentar-se bem, são elevados os gastos com educação, com a prática de esportes, diversão etc. Santos (2013) apresenta as seguintes recomendações aos pais: incentivar o adolescente a participar das discussões mensais do resultado do orçamento familiar, incentivá-lo a fazer cursos de aprimoramento profissional (informática, língua estrangeira etc), convencê-lo a fazer cursos de finanças pessoais, ajudá-lo na definição e escolha do curso superior etc. De acordo com Murilo Carneiro (2014), ”isso vai permitir a formação de uma pessoa equilibrada, que conhece a vida e vai ter a opção de escolher o caminho a seguir.” Um curso técnico ou superior que leve a oportunidades de crescimento, com rendimentos dignos é fruto do investimento realizado na vida pessoal, logo, um desses cursos é o mínimo do ponto de vista de investimento pessoal;

(b) Dos 21 aos 30 anos: para muitas pessoas, a vida adulta se inicia com ingresso na universidade ou casamento, mas não vamos discutir essas opções, até porque há grande controvérsia. De acordo com Santos (2013), ”Nessa fase, mais precisamente a partir dos vinte anos, espera-se que o jovem orientado na adolescência já esteja estudando em uma faculdade, trabalhando e, no mínimo, conseguindo arcar com suas despesas pessoais.” É a fase em que a pessoa tem rendimentos próprios e é autossustentável. Pedro Carrilho (2013) afirma que essa etapa inicial da vida financeira é uma das mais importantes, pois são cometidos os maiores erros financeiros, e muitas vezes acabam por tirar alguns anos para consertá-los. Nessa fase os ganhos são menores, e aqueles que ainda moram com os pais aumentam a capacidade de poupar. Também pode pensar no próprio negócio, nesse caso, deve consultar o Sebrae. Assim, o foco das finanças deve ser investimento em educação, cursos de idiomas, pós-graduação e outros, é a hora da capacitação. Caso a pessoa não tenha filhos pode correr riscos financeiros, como apostar em aplicações de renda variável e até outras alternativas mais arriscadas, embora o momento seja de cautela. No entanto, o ideal é iniciar o processo de acumulação, guardando parte do que ganha, de preferência o equivalente a um salário bruto mensal por ano;

(c) Dos 31 aos 40 anos: essa é a fase em que começa a construção do patrimônio propriamente dito. É a fase dos grandes projetos financeiros, como a casa própria, o caro importado, o casamento e filhos. Faça reserva financeira de um percentual do salário mensal para essa finalidade. Ao comprar a casa própria é importante ter uma reserva financeira para a entrada do imóvel, o que reduz substancialmente o valor do financiamento. Comprometa no máximo até 25% do orçamento familiar com a prestação da casa própria, e em nenhuma hipótese ultrapasse 30%. Crie o hábito de poupar bônus, prêmios e 13º salário, mantendo uma reserva financeira para emergências. Não exceda a soma de 36 salários mensais brutos da família, reduzindo o esforço na hora de pagar a prestação. A edição nº 189, da revista Você S/A lembra que nessa fase em que os ciclos de carreira estão mais curtos, a pessoa deve investir em cursos de atualização, e que as reservas financeiras ajudarão nesse aspecto. Os projetos de curto prazo ou de menor custo demandam aplicações de baixo risco e menor rendimento como caderneta de poupança ou alguns fundos de renda fixa, estes superiores à poupança. No atual momento por que passa a economia nacional, a caderneta de poupança é considerada um péssimo ativo, sua rentabilidade não cobre a inflação do período. No entanto, para projetos de 5 anos ou mais, as opções mudam, e o mercado de capitais (no momento em péssima fase), poderia ser uma opção, e após exaustiva pesquisa, fundos multimercados. As Letras de Crédito Agrícolas (LCA), Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e os títulos do tesouro (Tesouro Direto-STN) vêm apresentando boa rentabilidade, além da liquidez e grande segurança. É interessante um Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL), uma modalidade de plano de previdência privada, que possibilita a dedução das contribuições no cálculo do imposto de renda, até um limite de 12% da renda total tributável;

(d) Dos 41 aos 50 anos: você já deve ter fontes de rendimento estáveis e provenientes de investimentos realizados anteriormente em imóveis, fundos de investimentos etc etc. O alicerce financeiro está mais forte e seguro, ainda deve manter um percentual dos ganhos mensais para uma reserva financeira, nesse caso, de três a cinco salários brutos mensais por ano, um valor confortável e que permite alavancar as fontes de rendimentos e continuar a investir. O percentual entre 20 e 25% retirado mensalmente da renda bruta para formar reserva financeira dá tranquilidade e eleva a segurança com o passar dos anos. Como provavelmente você está ganhando mais, caso disponha de imóvel financiado, procure antecipar prestações, se os descontos forem satisfatórios. Os gastos com filhos, principalmente com educação, tendem a aumentar, e tendo reserva financeira utilize-a com cautela. No caso de desemprego, você precisa de uma reserva equivalente a pelo menos seis meses de despesas mensais, muitos analistas falam em até dez meses. Caso se depare com essa situação, enxugue ao máximo as despesas para não sacrificar a faculdade dos filhos. Quanto à previdência privada nunca mexa nela, pois poderá comprometer o planejamento da aposentadoria feito ao longo dos anos;

(e) Dos 51 aos 60 anos: tente reduzir os gastos e investir um pouco mais já focado na vida pós-aposentadoria. Reserve de 10 a 30% dos ganhos para a previdência privada e continue buscando investimentos seguros como títulos do tesouro, LCA, LCI e alguns fundos de renda fixa. Compare a rentabilidade de suas aplicações com a rentabilidade oferecida pela concorrência. Não se apegue demais a uma instituição bancária, ela vê você apenas como gerador de lucro. Você está em uma situação em que já deve ter atingido razoável padrão de renda e conforto para ter qualidade de vida. Já deverá ter rendimentos de investimentos que correspondam pelo menos 50% de suas despesas mensais. É importante que nessa fase você faça as coisas que lhe dão prazer, sem buscar ou preocupar-se com remuneração. Você S/A afirma que a expectativa de vida é de mais de 74 anos, mas os consultores sugerem fazer um planejamento como fosse viver 90 anos, e lembre-se que nessa fase as despesas médicas subirão, portanto, invista em um bom plano de saúde;

(f) Acima dos 60 anos: segundo José dos Santos (2013), “espera-se que o individuo bem orientado em todas as etapas anteriores da vida tenha construído um patrimônio financeiro que financie, no mínimo, suas necessidades básicas para desfrutar de uma aposentadoria saudável.” Nessa fase, o esforço na formação do patrimônio feito ao longo dos últimos quarenta anos deve ser recompensado com uma aposentadoria tranquila, com viagens e mais qualidade de vida. É quando você pode realizar alguns sonhos, conhecer novos lugares, estudar um novo idioma, aprender a tocar um instrumento musical etc. Mesmo aposentado é importante continuar aplicando as regras de poupança e investimento, buscando aplicações com baixo risco. Continue atento à rentabilidade de suas aplicações financeiras, e não delegue para terceiros (filhos, amigos etc) essa responsabilidade, a não ser por motivos de saúde. Adote uma segunda carreira numa área que lhe dê prazer, pois além de espantar o tédio ajuda a preservar a poupança. Segundo Gustavo Cerbasi, “Que tal sair do padrão? Em vez de se preparar para parar de trabalhar, prepare-se para continuar trabalhando ou para assumir um trabalho mais gratificante na terceira idade. Quem não vê a hora de parar é porque tem um estilo de vida pouco estimulante”. Por outro lado, um novo negócio nessa fase é arriscado, pois são reduzidas as chances de recuperação.

Portanto, infelizmente para muitas pessoas, quando a aposentadoria chega não estão preparadas emocional e financeiramente para esse dia, pois ao longo de suas vidas não pensaram em fazer planejamento financeiro. Pesquisas indicam que 64% dos brasileiros entrevistados nunca pouparam para a aposentadoria, e um terço não tem a intenção de fazê-lo, o que explica a quantidade de pessoas acima de 60 anos ainda na ativa, que não se aposentam por não estarem financeiramente preparadas para essa nova fase. O futuro depende de atitudes corretas que você adota ao longo de sua vida.


¹/ Consultor de Finanças Pessoais, educador financeiro e palestrante nas áreas de educação financeira e corporativa, finanças pessoais e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.
CUIDADO COM AS ARMADILHAS FINANCEIRAS
Régis Varão/¹

O setor bancário está repleto de pegadinhas financeiras, a começar pelas contas correntes que incluem inúmeras e caras tarifas, muitas vezes impossíveis de serem entendidas pelo cidadão que não dispõe de conhecimentos básicos em finanças pessoais, matemática financeira, contabilidade e economia. Os juros praticados internamente pelo setor bancário no Brasil e pelo governo federal, a Taxa Selic divulgada pelo Banco Central, estão entre os mais elevados do mundo.

Por outro lado, além das conhecidas armadilhas do setor bancário, as lojas trabalham com o tradicional carnê, este, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC) é a segunda linha de crédito mais utilizada pelas famílias brasileiras, perde apenas para o cartão de crédito, o preferido dos endividados, e que pratica os juros mais elevados do País, na modalidade crédito rotativo.

Os juros praticados no Brasil são elevadíssimos e torna o crédito concedido internamente o mais caro do mundo, o que já é suficiente para que o brasileiro evite as modalidades cartão de crédito, cheque especial, crédito direto ao consumidor (CDC), carnês de lojas, compras parcelas e outras formas de empréstimos bancários. Entre as inúmeras artimanhas do setor bancário brasileiro temos a generosa oferta de títulos de capitalização, que praticamente só são vendidos no Brasil e são considerados excelentes negócios para os bancos.

Pensando no bolso dos consumidores, independente do nível de endividamento, resolvi alertá-los a respeito das mais frequentes armadilhas, embora esse artigo não esgote o assunto. Do dicionário Michaelis utilizamos duas definições de armadilha, que ilustra minha preocupação: “qualquer artifício com que se apanha a caça” e “meio ardiloso de enganar alguém.” Simples de verificar a relação, a caça nesse caso é o cliente, o consumidor de produtos bancários e de carnês de lojas ou melhor o tomador de crédito.

As linhas de crédito mais procuradas e utilizadas pelos consumidores, segundo a CNC são: cartão de crédito (1º opção), cheque especial, cartões de lojas (2ª opção) e compras a prazo. Existem inúmeras maneiras do cidadão se endividar (não discutirei consórcios), mas vamos mostrar o que causa mais problemas nos orçamentos das famílias e são motivos frequentes de descontroles financeiros e endividamento:

1. CARTÃO DE CRÉDITO: esse prático e moderno meio de pagamento de plástico - para cada 10 brasileiros existem 8 cartões de crédito, pode deixar muita gente em dificuldade financeira ao facilitar a aquisição rápida de bens e serviços diretamente com o vendedor/fornecedor, nas lojas, ou em compras via internet. Pague mensalmente a fatura integral, não pague o valor mínimo, pois os juros incidentes sobre o saldo devedor é o mais elevado do mercado, e pode chegar a três dígitos ao ano. O rotativo do cartão de crédito é a operação em que o cliente financia o saldo devedor remanescente após pagar somente parte da fatura ou o valor mínimo. Logo, liquide mensalmente a fatura integral do cartão, evitando esse “assalto legal” ao seu orçamento. De acordo com o Banco Central, a taxa de juros do rotativo do cartão de crédito chegou a 395,3% a.a. em julho de 2015, o que representa elevação de 23,2 p.p. quando comparada à taxa praticada no mês anterior. A taxa mensal do rotativo em jul/15 atingiu o recorde na série histórica iniciada em mar/11. Por outro lado, você pode utilizar o cartão de crédito a seu favor, ao se cadastrar em programas de milhagem/fidelidade (TAM, Gol entre outras) que podem ajudar a adquirir passagens nacionais e internacionais gratuitamente entre outros inúmeros benefícios. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), cerca de 77% dos consumidores brasileiros têm se endividado com cartão de crédito, ao invés de buscarem outras modalidades mais baratas como o crédito consignado. Utilizando a Calculadora do cidadão encontrada no site do Banco Central, vamos fazer algumas simulações do custo de utilização do crédito rotativo do cartão de crédito. Uma dívida no cartão de crédito de R$1.000,00 e juros de 14,26% a.m., o valor corrigido totaliza R$4.951,43 no final de 12 meses, com juros que atingem 395,3% a.a. O que pagamos mensalmente de juros por não quitarmos a fatura integral do cartão de crédito é muito superior à rentabilidade anual da grande maioria das aplicações financeiras, e é possível que chegue ao dobro da rentabilidade da caderneta de poupança. Muita atenção se as compras forem realizadas fora do País, em outra moeda estrangeira, pois existe a incidência, fora a conversão cambial, de uma alíquota de 6,38% de IOF incidente em compras realizadas fora do País, um presente dado no final de dez/13 aos que viajam para fora do Brasil. Assim, liquide a fatura integralmente todo mês para não ficar endividado e evite quando fora do Brasil compras com cartão de crédito. No exterior compre com moeda estrangeira evitando o IOF de 6,38%. Não contribua para aumentar os lucros do setor bancário;

2. CHEQUE ESPECIAL: outra modalidade dispendiosa, os juros são calculados diariamente com base em uma taxa prefixada e definida mensalmente por cada instituição financeira, variando de acordo com o risco de cada cliente. A cobrança dos juros pela utilização do cheque especial é feita normalmente no primeiro dia útil do mês, sendo debitada diretamente na conta corrente. Assim, cada cliente pagará uma taxa de juros específica. Os juros do cheque especial atingiram, em set/14, o maior nível em 15 anos, movimentando nos nove primeiros meses de 2014 o montante de R$ 23 bilhões. Juntamente com o cartão de crédito é uma das modalidades mais caras de linhas de crédito. Segundo estatísticas divulgadas no site do Banco Central, entre 20 instituições pesquisadas, os juros no período 12.8 a 18.8.15 variaram de 44,50% a.a. no Banco do Nordeste do Brasil (menor taxa), a 335,03% a.a. no Banco Santander Brasil S.A, a maior. Os dois maiores bancos públicos brasileiros, o Banco do Brasil S.A (com 206,65% a.a.) e a Caixa Econômica Federal (com 207,02% a.a.) ficaram em 12ª e 13ª posição, respectivamente, enquanto o Banco de Brasília S.A (107,25% a.a.) ficou em 8º lugar. Fique atento ao utilizar o cheque especial e caso aconteça procure liquidar o mais rápido possível para evitar a incidência dessa elevada taxa de juros;

3. COMPRAS PARCELADAS: a compra a prazo é aquela em que se divide o valor do bem ou serviço adquirido em parcelas ou prestações. Antes de decidir pelo parcelamento pense em suas contas mensais, em prestações já existentes, em seu orçamento, em sua reserva financeira e na necessidade de fazer aquela compra, pois durante meses haverá o compromisso de pagar as novas prestações, muitas vezes desnecessárias, e quando somadas a outras parcelas já existentes se transformam em grandes valores, podendo prejudicar compromissos importantes e levar a dificuldades financeiras e até mesmo ao endividamento. Parte das compras realizadas vem associada ao fator impulso que termina levando o consumidor ao endividamento. Se não tiver dinheiro para comprar a vista não compre, deixe para o próximo mês, próximo semestre e até mesmo para o próximo ano ou simplesmente não compre. Muitas vezes a compra parcelada ou a prazo é uma opção razoável e até boa quando o consumidor não dispõe de reserva suficiente para pagar o produto à vista, desde que não afete o orçamento mensal do consumidor e atenda aos princípios da necessidade e urgência. Muitos são tentados pelos parcelamentos em cartão de crédito, o que tem elevado fortemente o nível de endividamento das pessoas. Anote cada nova prestação em uma planilha ou caderno e some com as já existentes, para verificar como ficará o pagamento dessa nova dívida e se haverá risco de endividamento. Antes de abrir a carteira faça três perguntas: Eu preciso ? Tenho dinheiro ? Tem que ser agora ? Com uma resposta negativa a qualquer uma das perguntas, não compre. Se as respostas forem positivas, assim mesmo antes de pagar peça desconto. Pedir descontos e negociar as condições oferecidas pelo vendedor ajudam a reduzir o endividamento, pois sempre existe margem para descontos, afinal de contas o empresário brasileiro pratica a maior taxa de lucro do mundo;

4. CARNÊS DE LOJAS: esse é outro tipo de endividamento que tem aumentado nos últimos anos, tendo em vista o aumento da oferta: Lojas Americanas, Lojas Renner, C&A, Lojas Riachuelo, Lojas Pernambucanas, Magazine Luiza, Ricardo Eletro, Fast Shop, Lojas Cem, Lojas Colombo, Casas Bahia e inúmeras outras espalhadas pelo País. De acordo com a CNC, ao longo dos últimos meses o cartão de crédito tem sido apontado como a principal fonte de endividamento do brasileiro, atingindo 77,4% em julho deste ano. No entanto, o segundo colocado na preferência do consumidor brasileiro é o carnê de loja com 16,3% naquele mês. Observo que nos últimos meses essa ordem de classificação manteve-se praticamente estável. Os juros cobrados nessa modalidade - carnês de lojas - são elevados e chegam a ultrapassar 5% a.m., o que sobe para cerca de 80% a.a., uma opção pouco aconselhável. O pior é que existe consumidor que tem mais de cinco desses carnês, o que compromete fortemente a saúde financeira das pessoas. Lojas de mesma característica como Renner, C&A, Riachuelo e Magazine Luiza praticamente oferecem o mesmo produto - vestuário, cama, mesa e banho. Nesse caso o consumidor pode escolher suas compras em apenas uma loja e não em quatro. Escolha a que oferece produtos de melhor qualidade e variedade e opte apenas por uma dessas lojas. Não há necessidade de comprar parcelado e pagar juros elevados nas quatro lojas. O mesmo pode ser observado em outros segmentos do varejo.

5. EMPRÉSTIMO BANCÁRIO: os empréstimos bancários para pessoas físicas são ofertadas por todo o setor bancário, e variam de banco para banco. A praga do consignado também se inclui nessa modalidade de crédito, verifique com cautela se compensa fazê-lo. Cada cliente tem uma taxa de juros associada à sua renda, patrimônio e capacidade de endividamento e risco. O cliente deve considerar algumas atitudes para tentar escapar das armadilhas existentes: (a) Pergunte quanto vai pagar pelo empréstimo: informe-se sobre o montante de juros cobrados, prazos, o valor das parcelas e compare-os com outras instituições; (b) Negocie a taxa de juros: faça contraproposta, sempre é possível haver uma redução dos juros e até mesmo das diversas taxas cobradas pelos bancos/financeiras; (c) Tome emprestado apenas o necessário: quanto maior é o valor do empréstimo e o prazo mais juros você pagará; (d) Não caia na conversa dos gerentes: muitas vezes eles avisam que aquela condição é válida para aquele dia, que é importante fechar logo o negócio. Só aceite as condições ofertadas pelo banco quando não tiver mais dúvidas; e (e) Não assine o contrato sem ler: leia com calma e sem pressa, assim, não corre o risco de ser surpreendido depois.

Estamos iniciando o último quadrimestre do ano e não está fácil para quem tem problemas de endividamento ou deseja adquirir bens ou serviços, devido entre outros fatores ao elevado custo do dinheiro e à redução do crédito. É um ano de grandes dificuldades tanto para os governos, federal, estadual e municipal, quanto para a população. Alguns estados da federação já estão atrasando salários de servidores e pensionistas, a área federal postergou o pagamento de parcela do 13º dos aposentados do INSS (1ª vez desde 2006), aumento de impostos e tarifas públicas já estão sendo praticadas, além de outros aumentos que devem chegar em breve. Um ano para não ser esquecido.

O governo fará qualquer coisa, até a CPMF com outro nome já foi pensada, para elevar a arrecadação tributária. Os juros continuarão elevados neste segundo semestre e no próximo ano, encarecendo o custo do dinheiro, o crédito continuará restrito para as pessoas físicas e jurídicas, a inflação reduzirá mais ainda o poder aquisitivo do consumidor e o desemprego continuará a subir. A população brasileira deverá pagar caro pelas mazelas do atual governo.

Portanto, não espere, procure fazer uma reserva financeira, poupe o máximo que puder todos os meses do ano, postergue compras não necessárias, evite supérfluos, nada de comprar carro novo, deixe a sonhada reforma na cozinha, na sala ou churrasqueira para o próximo ano, pense antes de abrir a carteira e conte até 10 para adquirir bens ou serviços. Se precisar comprar, compre a vista, mas se for por urgência ou necessidade não parcele as compras, a não ser que seja sem juros. Evite usar o cartão de crédito, empréstimos bancários, cheque especial e carnês de lojas, pois essas são as armadilhas mais frequentes que encontramos no dia-a-dia dos endividados. Seja um consumidor consciente, faça planejamento financeiro e valorize os pequenos números.


¹/ Consultor de Finanças Pessoais, educador financeiro e palestrante nas áreas de educação financeira e corporativa, finanças pessoais e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

AS PROJEÇÕES DO MERCADO PIORAM A CADA DIA
Régis Varão/¹

As estimativas do Boletim Focus de 21.8.15, do Banco Central (BCB), para as principais variáveis macroeconômicos continuam apresentando alterações para este ano e 2016 na maioria das variáveis pesquisadas, exceto juros, saldo da balança comercial e IED em 2015, e IGP-DI, taxa de câmbio, produção industrial e IED em 2016. A pesquisa é semanal, contempla cerca de 100 instituições financeiras e consultorias, e não reflete posicionamento da Autoridade Monetária. Este relatório analisa oito entre treze variáveis pesquisadas:

(a) Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA): o Boletim Focus de 21.8.15 corrigiu para baixo, pela primeira vez nos últimos meses, a estimativa do IPCA para 2015, passando de 9,32% na pesquisa anterior para 9,29% no boletim desta semana, e acima dos 9,23% observado há quatro semanas. A pesquisa de 22.8.14 corrigiu a estimativa do índice para 6,28%, ante 6,25% da semana anterior para aquele ano. Para 2016, o Focus divulgado nesta semana elevou a estimativa para 5,50%, de 5,44% do boletim anterior, e de 5,40% há trinta dias;

(b) Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI): a pesquisa de 21.8.15 elevou a estimativa do índice para 7,69%, em 2015, ante 7,67% da semana anterior, e 7,69% há quatro semanas. O Focus de 22.8.14 manteve em 5,50%, valor observado nas últimas semanas. Em doze meses a variação nas projeções do IGP-DI ficou em +2,19 p.p. O boletim de 21.8.15 manteve a estimativa do IGP-DI para 2016 em 5,50%, valor observado nos últimos doze meses;

(c) Taxa de Câmbio (R$/U$): o boletim de 21.8.15 corrige o câmbio para R$/U$3,50, de R$/U$3,48 divulgado na pesquisa anterior, e R$/U$3,25 há trinta dias, para o final de 2015. O boletim de 22.8.14 manteve em R$/U$2,50 a estimativa do câmbio para 2015. Para 2016, a pesquisa Focus desta semana manteve o câmbio em R$/U$3,60, ante R$/U$3,40 há trinta dias. O câmbio vem apresentando grandes correções altistas nos últimos meses, o que tende a impactar fortemente os índices de preços;

(d) Taxa Selic (% a.a.): o Focus de 21.8.15 manteve em 14,25% a.a. a projeção da Taxa Selic para o final deste ano, valor observado nas últimas cinco semanas. O boletim de 22.8.14 eleva para 12% a.a., de 11,75% a.a. divulgado na semana anterior. Para 2016, o Focus desta semana eleva a projeção do mercado para 12% a.a., de 11,88% a.a. observada na pesquisa anterior;

(e) Produto Interno Bruto - PIB (Em %): a pesquisa de 21.8.15 corrige para baixo (-2,06%), o desempenho do PIB para 2015, ante -2,01% do boletim anterior e -1,76% há quatro semanas, enquanto o Focus de 22.8.14 manteve estável a projeção de crescimento do PIB em +1,20% para este ano. Com relação a 2016, pela segunda vez a pesquisa desta semana reduz o desempenho do PIB para valor negativo (-0,24%), ante declínio de 0,15% observado no Focus anterior, e variação positiva de 0,20% divulgada há quatro semanas;

(f) Produção Industrial (Em %): o Focus desta semana estima em -5,20% o declínio da indústria para 2015, ante -5% dos últimos boletins, enquanto a pesquisa de 22.8.14 manteve pela quinta semana consecutiva a estimativa de crescimento da atividade industrial em +1,70% para este ano. Para 2016, a pesquisa de 21.8.15 manteve o crescimento da indústria em +1%, de +1,30% divulgado há trinta dias;

(g) Balança Comercial (U$ Bilhões): o boletim de 21.8.15 manteve inalterado o superávit da balança comercial em U$8 bilhões para 2015, ante U$6,40 bi registrados há trinta dias, enquanto o boletim de 22.8.14 manteve o superávit em U$8 bilhões, de U$9,40 bi há quatro semanas. Para 2016, o Focus desta semana eleva o superávit para U$16,80 bilhões, ante U$ 15,19 bi da semana anterior e U$ 14,89 bi observados há um mês;

(h) Investimento Estrangeiro Direto-IED (U$ Bilhões): a pesquisa de 21.8.15 manteve a estimativa do IED em U$65 bilhões para 2015, de U$65,70 bi há trinta dias, enquanto o Focus de 22.8.14 registrava U$56 bilhões. A pesquisa desta semana mantém a estimativa de IED em U$65 bi para 2016, valor observado nas últimas treze semanas.

Diversos fatores têm contribuído para a elevação do pessimismo do mercado, entre eles: retração da atividade econômica, desemprego e juros em alta, queda nas vendas do comércio, elevação da inadimplência, declínio da atividade industrial, correções no câmbio, redução nos índices de confiança dos empresários e consumidores entre outros.

Portanto, associado aos fatores descritos, podemos considerar os problemas políticos, em especial as CPIs em instalação no Congresso Nacional (BNDES e fundos de pensão) e as dificuldades enfrentadas pelo governo com sua base de sustentação, que indiretamente têm contaminado fortemente a economia como um todo, e afetado as expectativas do mercado.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais, educador financeiro e palestrante nas áreas de educação financeira e corporativa, finanças pessoais e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.

domingo, 23 de agosto de 2015

INTENÇÃO DE CONSUMO ATINGE MÍNIMA HISTÓRICA
Régis Varão/¹

O índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), calculado pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), é um indicador antecedente que objetiva antecipar o potencial de vendas do comércio, e mensura a avaliação que os consumidores fazem da capacidade de consumo atual e de curto prazo, do nível de renda doméstico, das condições de crédito, segurança no emprego e da qualidade de consumo presente e futuro.

Os resultados do ICF podem ser avaliados considerando o grau de satisfação e insatisfação dos consumidores. Uma análise mensal feita com 18 mil questionários mostra os indicadores de compra a prazo, nível de consumo atual, perspectiva de consumo e momento para bens duráveis. Índice inferior a 100 pontos indica insatisfação, enquanto acima (limitado em 200 pontos), indica o grau de satisfação com seu emprego, renda e capacidade de consumo.

O ICF em ago/15 atingiu 81,8 pontos, ante 86,9 observado no mês anterior e 120,8 em agosto de 2014, em uma escala entre 0 e 200. O indicador antecedente ICF registrou queda de 32,3% em relação a ago/14, atingindo, pelo sétimo mês seguido, seu valor mais baixo em toda a série histórica.

A percepção das condições atuais do mercado de trabalho pelas famílias recuou 22,1% em relação ao nível de um ano atrás. Essa queda é proveniente de uma deterioração mais acentuada na avaliação do nível de renda corrente (-26,6%). Para cerca de 32% dos entrevistados o nível de renda atual (100,2 pontos em ago/15) é considerado insatisfatório, nível recorde na série histórica. Em ago/14 (136,5 pontos), 15% registravam insatisfação, segundo esse componente do índice. Entre as regiões, o Sudeste registrou a maior retração (-34,3%), ante ago/14, situando-se, ao contrário dos demais índices, abaixo dos 100 pontos (84,6).

Segundo análise da CNC, “A combinação entre a perda no ritmo de atividade econômica e o atual nível de inflação tem contribuído para reduzir a probabilidade de reversão desse quadro no médio prazo. Segundo o IBC-Br – proxy mensal do Banco Central para o Produto Interno Bruto –, a economia brasileira acumula queda de 1,7% nos doze meses encerrados em maio – maior variação negativa desse Satisfação com a Renda Atual 2 indicador desde o final de 2009. Além disso, o IPCA vem registrando aceleração anual desde fevereiro deste ano, alcançando, no último mês de julho, seu patamar mais elevado (+9,56%) desde novembro de 2003 (+11,0%).”

A despeito da menor inflação nos duráveis (+3,3% nos doze meses finalizados em jul/15, segundo o IPCA), o índice que mede a percepção para o consumo de bens duráveis caiu 49,5% no período. “Sete em cada dez entrevistados (69,2%) provavelmente não percebem o momento atual como favorável ao consumo de bens duráveis. Há um ano essa era a avaliação realizada por cerca de 41% das famílias. As duas regiões com as piores avaliações nesse quesito do ICF são a Norte e a Sudeste, ambas com 44,5 pontos.”

Os dois subíndices referentes às expectativas apresentaram declínio médio de 32,0% em relação ao nível de igual período de 2014. Esse decréscimo foi particularmente influenciado pela deterioração nas perspectivas de consumo no período (-46,7%). Considerando faixas de renda, ante o índice observado em ago/14, a maior queda deu-se entre as famílias com rendimento acima de dez salários mínimos (-12,4%).

Portanto, todos os componentes do ICF apresentaram declínios relação a ago/14, comportamento observado desde dez/14. Os maiores destaque negativos ficaram para a perspectiva de consumo (-46,7%) e para a percepção corrente para consumo de duráveis (-49,5%), enquanto a queda é generalizada regionalmente, uma vez que as cinco regiões registraram retrações interanuais, verificando-se, pela primeira vez na pesquisa, índices abaixo de cem pontos em todos os subíndices. A falta de educação financeira tem contribuído para o brasileiro fazer escolhas inadequadas na hora do endividamento, e caindo sempre em armadilhas financeiras.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais, educador financeiro e palestrante nas áreas de educação financeira e educação corporativa, finanças pessoais e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.