quarta-feira, 2 de setembro de 2015

DIVERSAS FASES DA VIDA FINANCEIRA
Régis Varão/¹

Em cada fase da vida financeira, nossas necessidades mudam, podendo ficar mais dispendiosas e até mais sofisticadas com o passar dos anos. Quando se é jovem tempo não é problema, não falta energia e disposição para erros e acertos, mas com o passar dos anos o tempo vira produto escasso e caro, e as decisões sabiamente tomadas há vinte, trinta, quarenta anos poderão render bons frutos na maturidade.

O tempo passa e as necessidades de cada fase da vida começam a pressionar, mas normalmente é a partir da adolescência que deveríamos começar a nos preocupar com os projetos que envolvem atitudes financeiras e que ajudam a transformar sonhos em projetos reais, levando as pessoas, por suas escolhas e atitudes a um futuro com prosperidade ou não.

Segundo Pedro Carrilho (2013), a maioria das pessoas mede sua situação financeira em função de fatores externos, como o imóvel em que vive, o carro ou o emprego que tem, e se esquece que deveria medir sua situação financeira em função da fase financeira em que se encontra e de seus objetivos pessoais.

Tendo em vista que muitas pessoas me perguntam a respeito de fases para iniciar projetos que poderão ser realizados ao longo de vinte, trinta, quarenta anos, resolvi escrever a respeito desse assunto. Alguns podem não se enquadrar nessas fases financeiras aqui descritas, entretanto, tomando atitudes adequadas, na época oportuna, com certeza aproveitarão os benefícios da decisão.

Um percentual elevado de pessoas inicia sua vida financeira próxima aos dezenove, vinte anos, alguns mais cedo, mas a maioria ainda não terminou o ensino médio ou está iniciando o curso superior. Vamos trabalhar com a seguinte faixa etária, para facilitar a discussão:

(a) Até os 20 anos: algumas poucas crianças entre os 7 e 8 anos já demonstram interesse pelo dinheiro,  buscam informações a respeito de preços e até guardam dinheiro para comprar objetos. A infância é a fase propícia para que pais e responsáveis trabalhem conceitos de orçamento e poupança, que serão úteis na vida adulta. A importância que os pais atribuem ao dinheiro provavelmente levarão seus filhos a terem as mesmas atitudes no futuro. Tenham atitudes cuidadosas no trato com o dinheiro, pois os pais podem ser bons ou maus exemplos para seus filhos. Algumas recomendações: jamais ceder às chantagens, comuns nessa fase da vida, somente dar brinquedos em datas importantes, não comprar itens de vestuário pequeno e em grande quantidade, eles crescem rápido, não dar celular nessa fase da infância, incentivar a criança a participar das discussões do orçamento familiar, estimular a praticar de atividade física e alimentação saudável etc. Na adolescência os gastos tendem a aumentar, são mais suscetíveis aos fatores externos (propaganda, amigos de escola etc), principalmente os ligados à moda e aos do grupo em que participam. Nessa fase, devido a pouca idade, é comum os pais bancarem despesas com educação, alimentação, vestuário e lazer. Segundo Cherobim e Espejo (2010), o que não é natural e, infelizmente, acontece muito é um jovem de 14 anos trabalhar para auxiliar a família. A adolescência é uma fase de muita despesa para os pais, pois o jovem precisa alimentar-se bem, são elevados os gastos com educação, com a prática de esportes, diversão etc. Santos (2013) apresenta as seguintes recomendações aos pais: incentivar o adolescente a participar das discussões mensais do resultado do orçamento familiar, incentivá-lo a fazer cursos de aprimoramento profissional (informática, língua estrangeira etc), convencê-lo a fazer cursos de finanças pessoais, ajudá-lo na definição e escolha do curso superior etc. De acordo com Murilo Carneiro (2014), ”isso vai permitir a formação de uma pessoa equilibrada, que conhece a vida e vai ter a opção de escolher o caminho a seguir.” Um curso técnico ou superior que leve a oportunidades de crescimento, com rendimentos dignos é fruto do investimento realizado na vida pessoal, logo, um desses cursos é o mínimo do ponto de vista de investimento pessoal;

(b) Dos 21 aos 30 anos: para muitas pessoas, a vida adulta se inicia com ingresso na universidade ou casamento, mas não vamos discutir essas opções, até porque há grande controvérsia. De acordo com Santos (2013), ”Nessa fase, mais precisamente a partir dos vinte anos, espera-se que o jovem orientado na adolescência já esteja estudando em uma faculdade, trabalhando e, no mínimo, conseguindo arcar com suas despesas pessoais.” É a fase em que a pessoa tem rendimentos próprios e é autossustentável. Pedro Carrilho (2013) afirma que essa etapa inicial da vida financeira é uma das mais importantes, pois são cometidos os maiores erros financeiros, e muitas vezes acabam por tirar alguns anos para consertá-los. Nessa fase os ganhos são menores, e aqueles que ainda moram com os pais aumentam a capacidade de poupar. Também pode pensar no próprio negócio, nesse caso, deve consultar o Sebrae. Assim, o foco das finanças deve ser investimento em educação, cursos de idiomas, pós-graduação e outros, é a hora da capacitação. Caso a pessoa não tenha filhos pode correr riscos financeiros, como apostar em aplicações de renda variável e até outras alternativas mais arriscadas, embora o momento seja de cautela. No entanto, o ideal é iniciar o processo de acumulação, guardando parte do que ganha, de preferência o equivalente a um salário bruto mensal por ano;

(c) Dos 31 aos 40 anos: essa é a fase em que começa a construção do patrimônio propriamente dito. É a fase dos grandes projetos financeiros, como a casa própria, o caro importado, o casamento e filhos. Faça reserva financeira de um percentual do salário mensal para essa finalidade. Ao comprar a casa própria é importante ter uma reserva financeira para a entrada do imóvel, o que reduz substancialmente o valor do financiamento. Comprometa no máximo até 25% do orçamento familiar com a prestação da casa própria, e em nenhuma hipótese ultrapasse 30%. Crie o hábito de poupar bônus, prêmios e 13º salário, mantendo uma reserva financeira para emergências. Não exceda a soma de 36 salários mensais brutos da família, reduzindo o esforço na hora de pagar a prestação. A edição nº 189, da revista Você S/A lembra que nessa fase em que os ciclos de carreira estão mais curtos, a pessoa deve investir em cursos de atualização, e que as reservas financeiras ajudarão nesse aspecto. Os projetos de curto prazo ou de menor custo demandam aplicações de baixo risco e menor rendimento como caderneta de poupança ou alguns fundos de renda fixa, estes superiores à poupança. No atual momento por que passa a economia nacional, a caderneta de poupança é considerada um péssimo ativo, sua rentabilidade não cobre a inflação do período. No entanto, para projetos de 5 anos ou mais, as opções mudam, e o mercado de capitais (no momento em péssima fase), poderia ser uma opção, e após exaustiva pesquisa, fundos multimercados. As Letras de Crédito Agrícolas (LCA), Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e os títulos do tesouro (Tesouro Direto-STN) vêm apresentando boa rentabilidade, além da liquidez e grande segurança. É interessante um Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL), uma modalidade de plano de previdência privada, que possibilita a dedução das contribuições no cálculo do imposto de renda, até um limite de 12% da renda total tributável;

(d) Dos 41 aos 50 anos: você já deve ter fontes de rendimento estáveis e provenientes de investimentos realizados anteriormente em imóveis, fundos de investimentos etc etc. O alicerce financeiro está mais forte e seguro, ainda deve manter um percentual dos ganhos mensais para uma reserva financeira, nesse caso, de três a cinco salários brutos mensais por ano, um valor confortável e que permite alavancar as fontes de rendimentos e continuar a investir. O percentual entre 20 e 25% retirado mensalmente da renda bruta para formar reserva financeira dá tranquilidade e eleva a segurança com o passar dos anos. Como provavelmente você está ganhando mais, caso disponha de imóvel financiado, procure antecipar prestações, se os descontos forem satisfatórios. Os gastos com filhos, principalmente com educação, tendem a aumentar, e tendo reserva financeira utilize-a com cautela. No caso de desemprego, você precisa de uma reserva equivalente a pelo menos seis meses de despesas mensais, muitos analistas falam em até dez meses. Caso se depare com essa situação, enxugue ao máximo as despesas para não sacrificar a faculdade dos filhos. Quanto à previdência privada nunca mexa nela, pois poderá comprometer o planejamento da aposentadoria feito ao longo dos anos;

(e) Dos 51 aos 60 anos: tente reduzir os gastos e investir um pouco mais já focado na vida pós-aposentadoria. Reserve de 10 a 30% dos ganhos para a previdência privada e continue buscando investimentos seguros como títulos do tesouro, LCA, LCI e alguns fundos de renda fixa. Compare a rentabilidade de suas aplicações com a rentabilidade oferecida pela concorrência. Não se apegue demais a uma instituição bancária, ela vê você apenas como gerador de lucro. Você está em uma situação em que já deve ter atingido razoável padrão de renda e conforto para ter qualidade de vida. Já deverá ter rendimentos de investimentos que correspondam pelo menos 50% de suas despesas mensais. É importante que nessa fase você faça as coisas que lhe dão prazer, sem buscar ou preocupar-se com remuneração. Você S/A afirma que a expectativa de vida é de mais de 74 anos, mas os consultores sugerem fazer um planejamento como fosse viver 90 anos, e lembre-se que nessa fase as despesas médicas subirão, portanto, invista em um bom plano de saúde;

(f) Acima dos 60 anos: segundo José dos Santos (2013), “espera-se que o individuo bem orientado em todas as etapas anteriores da vida tenha construído um patrimônio financeiro que financie, no mínimo, suas necessidades básicas para desfrutar de uma aposentadoria saudável.” Nessa fase, o esforço na formação do patrimônio feito ao longo dos últimos quarenta anos deve ser recompensado com uma aposentadoria tranquila, com viagens e mais qualidade de vida. É quando você pode realizar alguns sonhos, conhecer novos lugares, estudar um novo idioma, aprender a tocar um instrumento musical etc. Mesmo aposentado é importante continuar aplicando as regras de poupança e investimento, buscando aplicações com baixo risco. Continue atento à rentabilidade de suas aplicações financeiras, e não delegue para terceiros (filhos, amigos etc) essa responsabilidade, a não ser por motivos de saúde. Adote uma segunda carreira numa área que lhe dê prazer, pois além de espantar o tédio ajuda a preservar a poupança. Segundo Gustavo Cerbasi, “Que tal sair do padrão? Em vez de se preparar para parar de trabalhar, prepare-se para continuar trabalhando ou para assumir um trabalho mais gratificante na terceira idade. Quem não vê a hora de parar é porque tem um estilo de vida pouco estimulante”. Por outro lado, um novo negócio nessa fase é arriscado, pois são reduzidas as chances de recuperação.

Portanto, infelizmente para muitas pessoas, quando a aposentadoria chega não estão preparadas emocional e financeiramente para esse dia, pois ao longo de suas vidas não pensaram em fazer planejamento financeiro. Pesquisas indicam que 64% dos brasileiros entrevistados nunca pouparam para a aposentadoria, e um terço não tem a intenção de fazê-lo, o que explica a quantidade de pessoas acima de 60 anos ainda na ativa, que não se aposentam por não estarem financeiramente preparadas para essa nova fase. O futuro depende de atitudes corretas que você adota ao longo de sua vida.


¹/ Consultor de Finanças Pessoais, educador financeiro e palestrante nas áreas de educação financeira e corporativa, finanças pessoais e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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