quarta-feira, 2 de setembro de 2015

CUIDADO COM AS ARMADILHAS FINANCEIRAS
Régis Varão/¹

O setor bancário está repleto de pegadinhas financeiras, a começar pelas contas correntes que incluem inúmeras e caras tarifas, muitas vezes impossíveis de serem entendidas pelo cidadão que não dispõe de conhecimentos básicos em finanças pessoais, matemática financeira, contabilidade e economia. Os juros praticados internamente pelo setor bancário no Brasil e pelo governo federal, a Taxa Selic divulgada pelo Banco Central, estão entre os mais elevados do mundo.

Por outro lado, além das conhecidas armadilhas do setor bancário, as lojas trabalham com o tradicional carnê, este, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC) é a segunda linha de crédito mais utilizada pelas famílias brasileiras, perde apenas para o cartão de crédito, o preferido dos endividados, e que pratica os juros mais elevados do País, na modalidade crédito rotativo.

Os juros praticados no Brasil são elevadíssimos e torna o crédito concedido internamente o mais caro do mundo, o que já é suficiente para que o brasileiro evite as modalidades cartão de crédito, cheque especial, crédito direto ao consumidor (CDC), carnês de lojas, compras parcelas e outras formas de empréstimos bancários. Entre as inúmeras artimanhas do setor bancário brasileiro temos a generosa oferta de títulos de capitalização, que praticamente só são vendidos no Brasil e são considerados excelentes negócios para os bancos.

Pensando no bolso dos consumidores, independente do nível de endividamento, resolvi alertá-los a respeito das mais frequentes armadilhas, embora esse artigo não esgote o assunto. Do dicionário Michaelis utilizamos duas definições de armadilha, que ilustra minha preocupação: “qualquer artifício com que se apanha a caça” e “meio ardiloso de enganar alguém.” Simples de verificar a relação, a caça nesse caso é o cliente, o consumidor de produtos bancários e de carnês de lojas ou melhor o tomador de crédito.

As linhas de crédito mais procuradas e utilizadas pelos consumidores, segundo a CNC são: cartão de crédito (1º opção), cheque especial, cartões de lojas (2ª opção) e compras a prazo. Existem inúmeras maneiras do cidadão se endividar (não discutirei consórcios), mas vamos mostrar o que causa mais problemas nos orçamentos das famílias e são motivos frequentes de descontroles financeiros e endividamento:

1. CARTÃO DE CRÉDITO: esse prático e moderno meio de pagamento de plástico - para cada 10 brasileiros existem 8 cartões de crédito, pode deixar muita gente em dificuldade financeira ao facilitar a aquisição rápida de bens e serviços diretamente com o vendedor/fornecedor, nas lojas, ou em compras via internet. Pague mensalmente a fatura integral, não pague o valor mínimo, pois os juros incidentes sobre o saldo devedor é o mais elevado do mercado, e pode chegar a três dígitos ao ano. O rotativo do cartão de crédito é a operação em que o cliente financia o saldo devedor remanescente após pagar somente parte da fatura ou o valor mínimo. Logo, liquide mensalmente a fatura integral do cartão, evitando esse “assalto legal” ao seu orçamento. De acordo com o Banco Central, a taxa de juros do rotativo do cartão de crédito chegou a 395,3% a.a. em julho de 2015, o que representa elevação de 23,2 p.p. quando comparada à taxa praticada no mês anterior. A taxa mensal do rotativo em jul/15 atingiu o recorde na série histórica iniciada em mar/11. Por outro lado, você pode utilizar o cartão de crédito a seu favor, ao se cadastrar em programas de milhagem/fidelidade (TAM, Gol entre outras) que podem ajudar a adquirir passagens nacionais e internacionais gratuitamente entre outros inúmeros benefícios. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), cerca de 77% dos consumidores brasileiros têm se endividado com cartão de crédito, ao invés de buscarem outras modalidades mais baratas como o crédito consignado. Utilizando a Calculadora do cidadão encontrada no site do Banco Central, vamos fazer algumas simulações do custo de utilização do crédito rotativo do cartão de crédito. Uma dívida no cartão de crédito de R$1.000,00 e juros de 14,26% a.m., o valor corrigido totaliza R$4.951,43 no final de 12 meses, com juros que atingem 395,3% a.a. O que pagamos mensalmente de juros por não quitarmos a fatura integral do cartão de crédito é muito superior à rentabilidade anual da grande maioria das aplicações financeiras, e é possível que chegue ao dobro da rentabilidade da caderneta de poupança. Muita atenção se as compras forem realizadas fora do País, em outra moeda estrangeira, pois existe a incidência, fora a conversão cambial, de uma alíquota de 6,38% de IOF incidente em compras realizadas fora do País, um presente dado no final de dez/13 aos que viajam para fora do Brasil. Assim, liquide a fatura integralmente todo mês para não ficar endividado e evite quando fora do Brasil compras com cartão de crédito. No exterior compre com moeda estrangeira evitando o IOF de 6,38%. Não contribua para aumentar os lucros do setor bancário;

2. CHEQUE ESPECIAL: outra modalidade dispendiosa, os juros são calculados diariamente com base em uma taxa prefixada e definida mensalmente por cada instituição financeira, variando de acordo com o risco de cada cliente. A cobrança dos juros pela utilização do cheque especial é feita normalmente no primeiro dia útil do mês, sendo debitada diretamente na conta corrente. Assim, cada cliente pagará uma taxa de juros específica. Os juros do cheque especial atingiram, em set/14, o maior nível em 15 anos, movimentando nos nove primeiros meses de 2014 o montante de R$ 23 bilhões. Juntamente com o cartão de crédito é uma das modalidades mais caras de linhas de crédito. Segundo estatísticas divulgadas no site do Banco Central, entre 20 instituições pesquisadas, os juros no período 12.8 a 18.8.15 variaram de 44,50% a.a. no Banco do Nordeste do Brasil (menor taxa), a 335,03% a.a. no Banco Santander Brasil S.A, a maior. Os dois maiores bancos públicos brasileiros, o Banco do Brasil S.A (com 206,65% a.a.) e a Caixa Econômica Federal (com 207,02% a.a.) ficaram em 12ª e 13ª posição, respectivamente, enquanto o Banco de Brasília S.A (107,25% a.a.) ficou em 8º lugar. Fique atento ao utilizar o cheque especial e caso aconteça procure liquidar o mais rápido possível para evitar a incidência dessa elevada taxa de juros;

3. COMPRAS PARCELADAS: a compra a prazo é aquela em que se divide o valor do bem ou serviço adquirido em parcelas ou prestações. Antes de decidir pelo parcelamento pense em suas contas mensais, em prestações já existentes, em seu orçamento, em sua reserva financeira e na necessidade de fazer aquela compra, pois durante meses haverá o compromisso de pagar as novas prestações, muitas vezes desnecessárias, e quando somadas a outras parcelas já existentes se transformam em grandes valores, podendo prejudicar compromissos importantes e levar a dificuldades financeiras e até mesmo ao endividamento. Parte das compras realizadas vem associada ao fator impulso que termina levando o consumidor ao endividamento. Se não tiver dinheiro para comprar a vista não compre, deixe para o próximo mês, próximo semestre e até mesmo para o próximo ano ou simplesmente não compre. Muitas vezes a compra parcelada ou a prazo é uma opção razoável e até boa quando o consumidor não dispõe de reserva suficiente para pagar o produto à vista, desde que não afete o orçamento mensal do consumidor e atenda aos princípios da necessidade e urgência. Muitos são tentados pelos parcelamentos em cartão de crédito, o que tem elevado fortemente o nível de endividamento das pessoas. Anote cada nova prestação em uma planilha ou caderno e some com as já existentes, para verificar como ficará o pagamento dessa nova dívida e se haverá risco de endividamento. Antes de abrir a carteira faça três perguntas: Eu preciso ? Tenho dinheiro ? Tem que ser agora ? Com uma resposta negativa a qualquer uma das perguntas, não compre. Se as respostas forem positivas, assim mesmo antes de pagar peça desconto. Pedir descontos e negociar as condições oferecidas pelo vendedor ajudam a reduzir o endividamento, pois sempre existe margem para descontos, afinal de contas o empresário brasileiro pratica a maior taxa de lucro do mundo;

4. CARNÊS DE LOJAS: esse é outro tipo de endividamento que tem aumentado nos últimos anos, tendo em vista o aumento da oferta: Lojas Americanas, Lojas Renner, C&A, Lojas Riachuelo, Lojas Pernambucanas, Magazine Luiza, Ricardo Eletro, Fast Shop, Lojas Cem, Lojas Colombo, Casas Bahia e inúmeras outras espalhadas pelo País. De acordo com a CNC, ao longo dos últimos meses o cartão de crédito tem sido apontado como a principal fonte de endividamento do brasileiro, atingindo 77,4% em julho deste ano. No entanto, o segundo colocado na preferência do consumidor brasileiro é o carnê de loja com 16,3% naquele mês. Observo que nos últimos meses essa ordem de classificação manteve-se praticamente estável. Os juros cobrados nessa modalidade - carnês de lojas - são elevados e chegam a ultrapassar 5% a.m., o que sobe para cerca de 80% a.a., uma opção pouco aconselhável. O pior é que existe consumidor que tem mais de cinco desses carnês, o que compromete fortemente a saúde financeira das pessoas. Lojas de mesma característica como Renner, C&A, Riachuelo e Magazine Luiza praticamente oferecem o mesmo produto - vestuário, cama, mesa e banho. Nesse caso o consumidor pode escolher suas compras em apenas uma loja e não em quatro. Escolha a que oferece produtos de melhor qualidade e variedade e opte apenas por uma dessas lojas. Não há necessidade de comprar parcelado e pagar juros elevados nas quatro lojas. O mesmo pode ser observado em outros segmentos do varejo.

5. EMPRÉSTIMO BANCÁRIO: os empréstimos bancários para pessoas físicas são ofertadas por todo o setor bancário, e variam de banco para banco. A praga do consignado também se inclui nessa modalidade de crédito, verifique com cautela se compensa fazê-lo. Cada cliente tem uma taxa de juros associada à sua renda, patrimônio e capacidade de endividamento e risco. O cliente deve considerar algumas atitudes para tentar escapar das armadilhas existentes: (a) Pergunte quanto vai pagar pelo empréstimo: informe-se sobre o montante de juros cobrados, prazos, o valor das parcelas e compare-os com outras instituições; (b) Negocie a taxa de juros: faça contraproposta, sempre é possível haver uma redução dos juros e até mesmo das diversas taxas cobradas pelos bancos/financeiras; (c) Tome emprestado apenas o necessário: quanto maior é o valor do empréstimo e o prazo mais juros você pagará; (d) Não caia na conversa dos gerentes: muitas vezes eles avisam que aquela condição é válida para aquele dia, que é importante fechar logo o negócio. Só aceite as condições ofertadas pelo banco quando não tiver mais dúvidas; e (e) Não assine o contrato sem ler: leia com calma e sem pressa, assim, não corre o risco de ser surpreendido depois.

Estamos iniciando o último quadrimestre do ano e não está fácil para quem tem problemas de endividamento ou deseja adquirir bens ou serviços, devido entre outros fatores ao elevado custo do dinheiro e à redução do crédito. É um ano de grandes dificuldades tanto para os governos, federal, estadual e municipal, quanto para a população. Alguns estados da federação já estão atrasando salários de servidores e pensionistas, a área federal postergou o pagamento de parcela do 13º dos aposentados do INSS (1ª vez desde 2006), aumento de impostos e tarifas públicas já estão sendo praticadas, além de outros aumentos que devem chegar em breve. Um ano para não ser esquecido.

O governo fará qualquer coisa, até a CPMF com outro nome já foi pensada, para elevar a arrecadação tributária. Os juros continuarão elevados neste segundo semestre e no próximo ano, encarecendo o custo do dinheiro, o crédito continuará restrito para as pessoas físicas e jurídicas, a inflação reduzirá mais ainda o poder aquisitivo do consumidor e o desemprego continuará a subir. A população brasileira deverá pagar caro pelas mazelas do atual governo.

Portanto, não espere, procure fazer uma reserva financeira, poupe o máximo que puder todos os meses do ano, postergue compras não necessárias, evite supérfluos, nada de comprar carro novo, deixe a sonhada reforma na cozinha, na sala ou churrasqueira para o próximo ano, pense antes de abrir a carteira e conte até 10 para adquirir bens ou serviços. Se precisar comprar, compre a vista, mas se for por urgência ou necessidade não parcele as compras, a não ser que seja sem juros. Evite usar o cartão de crédito, empréstimos bancários, cheque especial e carnês de lojas, pois essas são as armadilhas mais frequentes que encontramos no dia-a-dia dos endividados. Seja um consumidor consciente, faça planejamento financeiro e valorize os pequenos números.


¹/ Consultor de Finanças Pessoais, educador financeiro e palestrante nas áreas de educação financeira e corporativa, finanças pessoais e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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