quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

ATITUDES FINANCEIRAS SAUDÁVEIS LEVAM A PROSPERIDADE
Régis Varão/¹

Os efeitos negativos da crise econômica, o pouco conhecimento dos instrumentos de finanças pessoais e os maus hábitos financeiros contribuem fortemente para elevar a inadimplência e o endividamento das famílias brasileiras, conforme indica a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor-PEIC, de dez/17, da Confederação Nacional do Comércio-CNC.

O percentual de famílias endividadas com cartão de crédito, carnês de loja, crédito pessoal, financiamento de carro, cheque especial, cheque pré-datado, crédito consignado, financiamento de casa, entre outros passou de 59% em dez/16 para 62,2% em dez/17. De acordo com O perfil do endividamento das famílias brasileira em 2017-PEFB, o percentual médio de famílias endividadas com esses tipos de dívida, passou de 60,2% em 2016 para 60,8% em 2017.

Os indicadores de inadimplência apresentaram crescimento entre dez/16 e dez/17, de acordo com a PEIC. O percentual de famílias com dívidas em atraso passou de 24% para 25,7%, naquela base de comparação. A média anual do percentual de famílias com dívidas em atraso saiu de 24,2% em 2016 para 25,4% em 2017, segundo a PEFB.  Já o percentual de famílias que declararam sem condições de pagar suas dívidas e que permanecem inadimplentes, subiu de 9,1% em dez/16 para 9,7% em dez/17. A média anual nessa modalidade passou de 9,2% em 2016 para 10,2% no ano seguinte.

O endividamento decorre, na maioria das vezes, de atitudes e hábitos financeiros inadequados dos indivíduos e das famílias, pelo consumismo exagerado, pelo desconhecimento de princípios básicos de economia, contabilidade e matemática financeira, que juntos contribuem para a má gestão das finanças pessoais no dia a dia.

As pesquisas mostram que pessoas com problemas financeiros vão ao médico e a hospitais com mais frequência, faltam mais ao trabalho, usam mais atestados médicos, se desentendem mais facilmente com colegas de trabalho, discutem com mais frequência com familiares, perdem a concentração, a produtividade do trabalho é afetada, se separam ou divorciam mais que os indivíduos financeiramente estáveis.

Atitudes que podem contribuir para a prosperidade financeira:

1. FAZER PLANEJAMENTO FINANCEIRO:

Antes de abrir a carteira, passar o cartão de crédito ou utilizar o talão de cheques é necessário avaliar se temos dinheiro suficiente no banco para liquidar a fatura integral do cartão de crédito ou pagar as prestações ou financiamentos sem ficar devendo. É muito importante fazer orçamento financeiro e acompanhá-lo periodicamente. Relacione as receitas e todas as despesas, inclusive as de pequenos valores, como o café espresso, o lanche etc. Liste as despesas em tópicos como: moradia, educação, saúde, transporte, lazer etc. Ao elaborar o orçamento, você conhecerá a estrutura de despesas e como está gastando mensalmente. A grande vantagem é que você descobrirá os ralos por onde o dinheiro some e poderá tomar as devidas providências.

2. ECONOMIZAR NO DIA A DIA:

Prospera aquele que economiza no dia a dia. Assim, feito o orçamento pessoal, está na hora de guardar a diferença entre a receita (R) e a despesa (D), observando a relação R>D (superávit). A reserva financeira é importante para ajudar nos imprevistos, para garantir a educação dos filhos, a qualidade de vida presente e aposentadoria confortável.

É um compromisso que deve ser levado a sério e envolve todos os membros da família. Estabeleça objetivos possíveis realizáveis e faça tudo para atingi-los. É a oportunidade para que os filhos entendam que a liberdade financeira depende de planejamento, disciplina e muito trabalho. Dinheiro é fácil de perder e mais difícil ainda é mantê-lo. Oriente seus filhos desde a infância e serão adultos financeiramente responsáveis. Bons hábitos financeiros começam na infância.

3. PLANEJAR SUA APOSENTADORIA:

Muitos acreditam que o benefício pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), não será suficiente para manter boa qualidade de vida na aposentadoria, período em que se gasta mais com planos de saúde, médicos, dentistas, remédios etc. Se não nos planejarmos, o valor recebido mensalmente será insuficiente para pagar as despesas na aposentadoria. Nesse caso devemos ficar atento e reservar um percentual do salário todos os meses para depositar no banco e fazer uma reserva financeira.

Vamos trabalhar um exemplo: inicie retirando 10% da renda líquida e guarde em um banco. Verifique após três meses como está sua qualidade de vida, se não foi alterada mantenha o recolhimento por mais nove meses. A partir daí entra no automático. Esse valor depositado mensalmente não deve ser mexido, ele trará uma renda extra ou renda passiva no futuro, garantindo melhor qualidade de vida na aposentadoria. Chame essa conta de Liberdade Financeira. Após o primeiro ano descontando 10%, inicie outra depositando 5% da renda líquida, obedecendo o mesmo raciocínio, três meses e depois mais nove e assim sucessivamente. Essa conta, dos 5%, é para atender necessidades urgentes em geral. A mudança da aposentadoria que deverá ocorrer em breve pode servir de estímulo para as pessoas começarem a pensar a respeito da conta Liberdade Financeira. Comece o quanto antes.

4. NÃO PARCELAR COMPRAS:

Muita gente parcela compras, o que pode ser demonstrado pelo percentual de famílias endividadas com carnês de lojas (17,5%), financiamento de carro (10,9%) e financiamento de casa (8,7%), segundo a PEIC de dez/17. Se não tiver dinheiro para comprar à vista não compre, deixe para o próximo mês ou para o próximo semestre.

Antes de abrir a carteira pergunte-se: Eu preciso? Tenho dinheiro? Tem que ser agora? Havendo uma resposta negativa não compre, se ocorrerem três respostas positivas, compre, mas antes negocie um desconto. Não faça dívidas, fuja dos carnês de lojas, evite parcelar compras. Muitas vezes pequenas parcelas quando somadas, se transformam em grandes valores. Planeje suas compras, siga seu orçamento, seja um consumidor consciente.

5. FUGIR DAS ARMADILHAS DO COMÉRCIO:

As promoções e a publicidade são tentadoras durante todo o ano. Temos a páscoa em abril, dia das mães em maio, dia das crianças em outubro, Black Friday em novembro, Natal em dezembro e muitos outros feriados em que o exagero publicitário pega muita gente desprevenida. O Black Friday foi criado nos EUA nos anos 60 e chegou no Brasil em 2010. Tem tido muito sucesso e poderá mudar a data em 2018 evitando ficar próxima ao período de Natal. Afinal de contas, vender é o foco principal do comércio.

Em todos esses períodos comemorativos o comércio se prepara antecipadamente para as vendas, e as promoções muitas vezes escondem maquiagem de preços e outros deslizes que podem levar os incautos ao endividamento. As campanhas promocionais fantásticas nos shoppings e no comércio em geral ajudam a elevar as estatísticas da inadimplência. Logo, para fugir das inúmeras e ardilosas armadilhas atenha-se ao planejado.

6. UTILIZAR O CARTÃO DE CRÉDITO EM ÚLTIMO CASO:

Um dos fatores do endividamento decorre da má utilização do cartão de crédito (CC) e do não pagamento da fatura integral. O Banco Central divulgou em 26/1/17 as novas regras para o pagamento do rotativo que vigoram a partir de 3/4/17, limitando o parcelamento do débito e obrigando as instituições a renegociarem as dívidas.

Segundo a PEIC de dez/17, cerca de 76,7% das famílias brasileiras se endividam com cartão de crédito - famílias com renda de até 10 salários mínimos o percentual está em 77,6% e as com renda acima de 10 cai para 72,9%. Uma péssima decisão, se considerar que os juros estão em torno de 300% a.a. no crédito rotativo. O cartão de crédito pode ser um grande aliado quando utilizado com disciplina, exemplo dos programas de milhagens que ajudam a obter passagens aéreas gratuitas e outros benefícios. Use-o com parcimônia e apenas quando necessário, nunca com supérfluos.

7. RENEGOCIAR AS DÍVIDAS:

Troque as dívidas caras, rotativo do cartão de crédito e cheque especial por um consignado, se um corte de despesas não resolver inicialmente. Financiamento imobiliário ou de automóvel, por exemplo, pode ser negociado quanto a valores e prazos. A portabilidade é um mecanismo que vem dando grandes resultados na redução do endividamento. Você troca o agente financeiro, o que pode baratear os valores das prestações/financiamento e até conseguir redução de prazos. Ao renegociar as dívidas cria-se nova e melhor condição de pagamento mas atenção com o endividamento. Uma dica, fique atento ao Feirão Limpa Nome 2018-SPC SERASA, um evento que pode ajudar os endividados a renegociarem dívidas.

As pessoas que desenvolvem bons hábitos financeiros sofrem menos estresse, têm elevada produtividade, mantém o foco o tempo todo, não descuidam da saúde física e mental e buscam relacionamentos pessoais e profissionais saudáveis. Não compre por impulso, economize todos os dias, faça reserva financeira, evite pagar juros, não faça parcelamentos e nunca despreze o poder dos pequenos valores.

Portanto, as pessoas que alcançam a prosperidade financeira são disciplinadas, têm objetivos claros e bem definidos, trabalham com metas realizáveis, fazem poupança no dia a dia, controlam despesas, não compram por impulso, buscam liberdade financeira o tempo todo, têm atitudes responsáveis na utilização do dinheiro, usam o crédito com parcimônia, estão atentas às mudanças na e da economia e à rentabilidade dos principais ativos financeiros.

¹/ Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoas e potenciais líderes, educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, inteligência financeira, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, é também bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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