ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS EM JUNHO/14
Consultor Régis Varão/¹
O endividamento das famílias brasileiras continua
elevado, acima de 60%, embora tenha apresentado recuo em jun/14, ante o mês
anterior, próximo do observado em jun/13, mas acima do registrado em jun/12, devido,
em parte, a uma postura mais cautelosa das famílias quanto ao endividamento, segundo
dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da
Confederação Nacional do Comércio (CNC).
De acordo com a PEIC-CNC de jun/14, o percentual de
famílias endividadas atingiu 62,5% em jun/14, ante 62,7% em mai/14, embora próximo
do observado em jun/13 (63%), mas ainda distante do registrado em jun/12
(57,3%). Embora tenha apresentado declínio de 0,2 p.p. em jun/14 ante maio, o
nível de endividamento das famílias manteve-se no mesmo patamar de jun/13.
Com relação à proporção de famílias endividadas, o
percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso declinou para 19,8% em
jun/14, de 20,9% observado em mai/14, e atingiu 20,3% em jun/13. Embora com
declínio de 1,1 p.p. entre maio e jun/14, um percentual de dívidas e contas em
atraso próximo de 20% é considerado relativamente alto, explicado possivelmente
pelo desconhecimento das famílias quanto ao montante total de juros e multas
pagas sobre os saldos devedores das dívidas. A pesquisa aponta que “Entre as
famílias com contas ou dívidas em atraso, o tempo médio de atraso foi de 60,8
dias em junho de 2014 - acima dos 59,9 dias de junho de 2013.” O total de
famílias que se dizem sem condições de pagar suas dívidas também caiu atingindo
6,6% em jun/14, ante 6,8% no mês anterior, de 7,2% observado em jun/13.
Considerando a análise por faixa de renda do
percentual das famílias sem condições de pagarem suas dívidas em atraso, os
dados divulgados pela CNC apresentaram semelhança entre os grupos pesquisados.
Na faixa de renda mais elevada, acima de 10 salários mínimos (SM), o indicador
atingiu 2,3% em jun/14, ante 2,5% em mai/14 e 3% em jun/13. Para o grupo de
renda até 10 SM o percentual dessas famílias manteve-se praticamente estável ao
recuar de 8% em mai/14 para 7,8% em jun/14.
O número de famílias que se declararam muito
endividadas caiu para 11,9% em jun/14, ante 12,2% em mai/14, de 12,7% observado
em jun/13. O percentual de famílias que se declararam mais ou menos endividadas
atingiu 23,4% em jun/14, frente a 23,5% do mês anterior, de 23,7% verificado em
jun/13. Já a proporção de famílias que se declararam pouco endividadas subiu
para 27,3% em jun/14, ante 27% em mai/14, de 26,6% observado em jun/13.
O cartão de crédito ainda na liderança, continua bem
posicionado como um dos principais tipos de dívida por 76,1% das famílias em
jun/14, ante 76,2% observado em igual período de 2013, mantendo-se praticamente
estável nesse patamar. Para famílias com renda até 10 SM, o percentual sobe
para 77,3% e para famílias com renda acima de 10 SM declina para 71,2% em
jun/14, sendo um percentual elevado para qualquer faixa de renda. Em jun/13, a
dívida com cartão de crédito para famílias com renda até 10 SM estava em 77,8%,
enquanto com renda acima de 10 SM estava em 69,8%, logo, no segmento de renda
mais elevada aumentou 1,4 p.p em jun/14 quando comparado a igual mês de 2013. O
endividamento com cartão de crédito tem custo elevado, comprometendo a
qualidade de vida das famílias, tendo em vista que os encargos cobrados por
atraso ou pelo hábito de muitos devedores pagarem o mínimo da fatura levam a
cobranças de juros na faixa de dois dígitos mensais, atingindo três dígitos ao
ano.
O segundo principal tipo de dívida são os carnês
que atingiram 16,4% em jun/14, ante 17,1% observado em jun/13, logo, um recuo
na mesma base de comparação. Nas famílias com renda até 10 SM, as dívidas com
carnês participam com 17,6%, enquanto acima de 10 SM ficam em 11,1%, o que de
um modo geral retrata a preferência das famílias de menor padrão de renda por
essa modalidade.
No terceiro tipo de dívida está o financiamento de
carro com 13,4% em jun/14, frente a 11,4% verificado em igual período do ano
anterior. Nessa modalidade de dívida, para as famílias com mais de 10 SM o
percentual atinge 25,6% em jun/14, enquanto para famílias até 10 SM chega a
10,8%.
O crédito pessoal é o quarto colocado por tipo de
dívida, atingindo 9,8% em jun/14, ante 10% de igual mês de 2013, praticamente
estável nessa base de comparação. Na sequência, temos o financiamento de casa
com 7,7% em jun/14, ante 5,6% observado em jun/13, um aumento de 2,1 p.p. nessa
base de comparação, podendo inferir que os estímulos que vem sendo dado podem
ser responsáveis por esse crescimento.
Dos cinco mais importantes tipos de dívida
apresentados na pesquisa da CNC, de jun/14, considerando o período jun/13 e
jun/14, o cartão de crédito manteve-se praticamente estável, respectivamente
com 76,2% e 76,1% (-0,1 p.p.), carnês apresentou declínio (-0,7 p.p.),
financiamento de carro (+2 p.p.), crédito pessoal (-0,2 p.p.) e financiamento
de casa (+2,1 p.p.) apresentando o maior incremento.
O endividamento está diretamente associado ao nível
de educação financeira das famílias, podendo ser reduzido pelo engajamento do setor
público e empresas com campanhas educativas a respeito desse assunto, contribuindo
indiretamente para elevação da produtividade dos trabalhadores desses setores.
Por outro lado, governo federal e empresariado têm boa parcela de culpa nesse
processo de endividamento das famílias, o primeiro por estimular o consumo via
crédito bancário, e o segundo por estar mais preocupado com os seus ganhos, e pouco
atento à qualidade de vida de seus empregados.
¹/ Consultor de Finanças Pessoais e palestrante,
Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor
Universitário e ex-servidor do BACEN. Acessar http://www.ravecofinancas.com.
Nenhum comentário:
Postar um comentário