Consultor Régis Varão/1
O modelo de política econômica vigente continua refletindo negativamente na oferta de crédito e contribuindo indiretamente para a elevação do endividamento das famílias brasileiras, o que pode ser visto na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor-PEIC, da Confederação Nacional do Comércio-CNC, divulgada no final de maio. Por outro lado, parte das dificuldades financeiras por que passam as famílias na atual conjuntura decorrem da inadequada e muitas vezes inconsequente gestão de seus recursos financeiros no dia a dia.
Segundo os dados da pesquisa, o percentual das famílias endividadas atingiu 62,7% em mai/14, ante 62,3% observado em abril, mas abaixo dos 64,3% registrado em mai/13, e distante dos 55,9% verificado em mai/12. Embora tenha apresentado declínio de 1,6 p.p. em mai/14 ante mai/13, foi observado incremento de 0,4 p.p. em mai/14 ante o mês anterior, no nível de endividamento das famílias.
Na pesquisa da CNC a respeito do endividamento das famílias, a economista Marianne Hanson afirma que os brasileiros estão mais cautelosos na contratação ou renovação de empréstimos e financiamentos, devido à elevação do custo do crédito, e que juros mais altos e ganhos de renda mais modestos levam a condições menos favoráveis para o endividamento.
As dívidas ou contas em atraso mantiveram-se praticamente estáveis, atingindo 20,9% em mai/14, ante 21% do mês anterior e 21,6% frente a mai/13. Essa aparente estabilidade é preocupante, tendo em vista que o percentual de dívidas/contas em atraso em duas casas decimais está elevado, o que talvez explique o desconhecimento das famílias no que se refere ao montante de pagamento de juros e multas que incorrem nos saldos devedores de contas com essa característica.
Por outro lado, o declínio do número de famílias com dívidas/contas em atraso no bimestre abr-mai/14 (de 21% para 20,9%) ocorreu nas duas faixas de renda pesquisadas (até 10 SM e acima de 10 SM). O percentual de famílias pesquisadas que informaram não ter condições de pagar suas contas em atraso, continuando inadimplentes, atingiu 6,8% em mai/14, frente a 6,9% de abr/14, mas reduzindo 0,7 p.p. com relação a mai/13 (7,5%).
O número de famílias que se declararam muito endividadas subiu para 12,2% em mai/14 de 11,8% em abril, ante 12,5% de mai/13. A proporção de famílias que se declararam mais ou menos endividadas nos meses de mai/13 (23,4%) e mai/14 (23,5%) manteve-se praticamente constante, enquanto as que se declararam pouco endividadas atingiu 27% em mai/14, ante 28,4% de igual período de 2013, mas acima dos 21,7% observado em mai/12.
O cartão de crédito continua sendo apontado como o principal tipo de dívida por 75,3% das famílias em mai/14, ante 76,4% em igual período de 2013, 74,8% em mai/12 e 71,8% em mai/11. Percentual acima de 70% pode ser considerado preocupante tendo em vista que a característica desse endividamento pode levar a família a comprometer sua qualidade de vida presente e futura, tendo em vista a exorbitante cobrança de juros e multas incidentes nos saldos devedores desse tipo de ativo, que comprovadamente está em três dígitos anuais.
A seguir, por oportuno, relacionamos algumas regras básicas para evitar o endividamento no cartão de crédito: programe-se financeiramente antes de realizar qualquer compra; liquide a fatura total mensalmente; evite mais de um cartão; solicite isenção das taxas anuais; prefira cartões sem anuidades; concentre-se nos benefícios que o cartão oferece; informe-se qual a melhor data da compra; não saia com talão de cheques e cartão de crédito, leve um apenas; negocie o limite de crédito com a administradora; se você está com problemas financeiros negocie um limite de crédito de no máximo 25% dos rendimentos líquidos; lembre-se, o valor disponível do cartão de crédito não é seu; cuidado com compras parceladas; não empreste seu cartão de crédito; não gaste mais do que o planejado; se está com dívida elevada no cartão, evite usá-lo e renegocie urgentemente. Ver artigo completo a respeito de cartão de crédito no blogue: regisvarao.blogspot.com.br.
O segundo tipo em ordem decrescente de importância são os carnês que vêm apresentando declínio ao longo dos últimos anos, atingindo 16,8% em mai/14, contra 19,5% em mai/13 e 20,4% em mai/12.
O terceiro tipo de dívida mais importante é o financiamento de carro que vem apresentando crescimento nos últimos anos, chegando a 13,5% em mai/14, ante 12,8% e 9,4%, respectivamente em mai/13 e mai/12. A falta de maior critério na concessão do crédito para financiamento de automóvel pode explicar a expansão verificada nos últimos anos.
O quarto tipo fica com o financiamento de imóvel, que também vem crescendo a um ritmo forte atingindo 7,9% em mai/14, contra 5,7% em mai/13 e apenas 3,7% em mai/12.
Na sequência vem o cheque especial atingindo 5,1% em mai/14, ante 6,7% em mai/13 e 7,8% em mai/12, também uma modalidade que penaliza fortemente o consumidor com elevadas taxações e multas por atraso. Já o 6º colocado, o crédito consignado apresentou pequeno declínio em mai/14 (+4,5%), ante 5% observado em mai/13, mas acima dos 3,8% de mai/12.
Dos seis tipos de dívida apresentados nas pesquisas CNC, considerando o período mai/13 e mai/14, o cartão de crédito apresentou declínio de 1,1 p.p., carnês (-2,7 p.p.), cheque especial (-1,6 p.p.) e o crédito consignado (-0,5 p.p.) apresentaram declínio, enquanto financiamento de carro (+0,7 p.p.) e financiamento de casa (+2,2 p.p.) registraram elevação nesses dois meses.
O segredo da educação financeira está no planejamento financeiro e no controle orçamentário. Não descuide do orçamento familiar, e troque as dívidas ruins por dívidas boas, por exemplo: troque a dívida do cartão de crédito e do cheque especial, que praticam juros exorbitantes de três dígitos, pelo crédito consignado, que trabalha com juros de um dígito, implicando em custo mais barato para o consumidor, e mais facilidade na sua obtenção.
1/ Consultor de Finanças Pessoais, Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do BACEN. Ver site: www.ravecofinancas.com.
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