quarta-feira, 25 de junho de 2014

PERFIL DO INVESTIDOR E DIREÇÃO
Consultor Régis Varão/¹

Mensalmente são publicadas revistas que tratam de finanças e investimentos, entre essas a InfoMoney. Na edição de mai-jun/14 foi publicado o artigo: “A forma de dirigir influencia como invisto?”, de Pedro H. Dejneka, presidente da PHDerivativos Internacionais.

Em geral os artigos desse periódico abordam temas relevantes para os que se interessam por investimentos e assuntos correlatos. Chamou minha atenção o artigo de Dejneka, que apresenta uma análise pouco ortodoxa ao relacionar o comportamento de motoristas no trânsito com nível de aceitação ou não de riscos, enfim, uma discussão interessante.

O autor discorre a respeito de uma família que resolve visitar o shopping em um sábado qualquer e se depara com uma avenida congestionada próxima à entrada do centro comercial e uma grande fila de veículos, e segundo ele “...a maioria dos carros vindos da avenida principal estão alinhando em uma das duas pistas de conversão.”

Com base nessa informação, Dejneka coloca duas opções:

“A) alinha seu carro atrás do último carro na fila mais longa, pois imagina que, se a maioria dos carros ali estão, deve existir um motivo perfeitamente plausível para isso.

B) decide “arriscar” e manobrar o carro para a segunda pista de acesso, ainda perplexo com a escolha da maioria dos motoristas de ficarem na fila mais longa, uma vez que a segunda pista de acesso funciona perfeitamente.”

Continua o autor: “E aí? Qual foi sua escolha? E o que isso tem a ver com investimentos?”

As opções apresentadas acima são uma constante no dia a dia das médias e grandes cidades, o que é pouco usual é a análise criativa a seguir.

Segundo Dejneka: se “Você escolheu a opção A? Ótimo. É bem provável que você tenha um perfil mais conservador: o medo de perda é bem maior que o desejo de ganho. Se você investe no mercado financeiro, é bem provável que seja um investidor de longo prazo, mais cauteloso e metódico. Gosta de aprender a respeito de mercados e sabe de possíveis vantagens de investimentos em Bolsa, mas, ao mesmo tempo não gosta de riscos, prefere ativos seguros e, se decide arriscar, geralmente o faz após muita análise, leitura e consideração.” Afirma ainda, que você se encaixa no perfil da maioria das pessoas, onde o receio da perda é muito maior que o prazer do ganho, e por esse motivo, prefere investimentos conservadores.

Se “Escolheu a opção B? Você pode muito bem se encaixar no perfil de um trader ². O medo da perda existe, mas o desejo de ganho é maior. Você provavelmente tem algum dinheiro na poupança ou títulos do governo, mas a maioria de seu capital é dedicado a investimentos de renda variável, alguns mais arriscados e outros menos.” Dejneka afirma que o perfil do investidor dessa opção é “leitor ávido de livros e artigos sobre investimentos, solicita a opinião de “experts” do mercado, mas baseia a maioria de suas decisões, sejam elas boas ou não, no seu próprio palpite ou “feeling” sobre o mercado.”

Relatamos o criativo argumento determinado por uma relação existente entre investidores que suportam ou não o risco (incerteza quanto ao resultado futuro de um investimento que pode ser aferido quantitativamente), e o comportamento de motoristas ao escolher filas com maior ou menor número de veículos.

Em finanças, adota-se a premissa de que o investidor racional é avesso ao risco, isto é, frente a dois investimentos com a mesma rentabilidade, ele escolherá aquele que apresentar o menor grau de risco para suas economias. A análise de investimento apenas pelo ângulo da rentabilidade (rendimento obtido da valorização do investimento realizado no curto, médio e longo prazos) torna-se incompleta e perigosa, sendo importante considerar dois outros fatores: liquidez, que é a capacidade de converter rapidamente o investimento em dinheiro; e segurança, que é a certeza do retorno do dinheiro aplicado. Os três formam o tripé que sustentam a tomada de decisão do investidor em qualquer parte do mundo. Podemos afirmar que seus componentes são mutuamente excludentes, não havendo nenhum tipo de investimento que maximize simultaneamente os três.

Dejneka em sua análise discorreu apenas a respeito de dois perfis de investidor, o conservador e o trader (arrojado ou agressivo). No entanto, de acordo com o grau de risco que o investidor se dispõe a aceitar, é possível definir o investidor em três tipos: o conservador, o moderado e o agressivo, cada um com suas peculiaridades, e que ajuda a definir a composição mais adequada de seu portfólio.

O conservador quer rentabilidade, mas não aceita correr riscos, deseja ganhar pelo menos a média do mercado. O moderado aceita algum nível de risco, pode investir em aplicações um pouco mais complexas e busca rentabilidade um pouco acima da média praticada pelo mercado. Já o agressivo aceita bem as oscilações do mercado financeiro, inclusive rendimentos negativos durante algum período, pois mira no longo prazo.

Algumas inconsistências no argumento de Dejneka: fatores como perfil do investidor e avaliação de risco são cruciais na tomada de decisão, enquanto a escolha errada de uma fila tem impacto apenas na possível perda de tempo; a tomada de decisão, na maioria das vezes demanda conhecimento e acompanhamento do mercado, enquanto a escolha de uma rua ou fila tem nível de complexidade absurdamente inferior; carro normalmente se faz seguro, ainda mais se for um modelo caro, enquanto não existe seguro para dinheiro aplicado em investimentos de risco; uma fila em que o motorista desconhece o tamanho e não vê o início, e a escolhe, o máximo que pode acontecer é perder tempo caso haja bloqueio para manutenção, acidentes etc, enquanto o resultado da escolher de um investimento desconhecido pode tirar noites de sono; em uma fila extensa você encontrará veículos esportivos caros e modelos populares, mas não podemos dizer que os primeiros motoristas se enquadram na categoria de investidores agressivos e os motoristas de populares são conservadores, talvez possamos pensar em fatores com renda, gosto, preferência etc; ao escolher a pista errada (poucos ou nenhum veículos), e retornar para a primeira, isso não dificultará o acesso ao shopping, enquanto investimento realizado sem obedecer qualquer tipo de análise detalhada pode trazer prejuízos para o apressado investidor.

Portanto, decisões de investir recursos próprios e de terceiros devem ser tomados com base no conhecimento de fatos presentes que se tem e da probabilidade que pode ser verificadas no futuro, em um horizonte de curto, médio e longo prazos, não podendo ser comparado à simples decisão do motorista pela escolha momentânea de uma fila que possa levá-lo mais rápido ao destino escolhido.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais e palestrante, Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do BACEN. Acessar http://www.ravecofinancas.com.
²/ É todo e qualquer indivíduo que trabalha com transferência de ativos financeiros, seja pessoalmente, seja para terceiros.

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