PERFIL DO INVESTIDOR E DIREÇÃO
Consultor Régis Varão/¹
Mensalmente são publicadas revistas que tratam de
finanças e investimentos, entre essas a InfoMoney. Na edição de mai-jun/14 foi
publicado o artigo: “A forma de dirigir influencia como invisto?”, de Pedro H.
Dejneka, presidente da PHDerivativos Internacionais.
Em geral os artigos desse periódico abordam temas
relevantes para os que se interessam por investimentos e assuntos correlatos. Chamou
minha atenção o artigo de Dejneka, que apresenta uma análise pouco ortodoxa ao relacionar
o comportamento de motoristas no trânsito com nível de aceitação ou não de
riscos, enfim, uma discussão interessante.
O autor discorre a respeito de uma família que
resolve visitar o shopping em um sábado qualquer e se depara com uma avenida
congestionada próxima à entrada do centro comercial e uma grande fila de
veículos, e segundo ele “...a maioria dos carros vindos da avenida principal
estão alinhando em uma das duas pistas de conversão.”
Com base nessa informação, Dejneka coloca duas
opções:
“A) alinha seu carro atrás do último carro na fila
mais longa, pois imagina que, se a maioria dos carros ali estão, deve existir
um motivo perfeitamente plausível para isso.
B) decide “arriscar” e manobrar o carro para a segunda
pista de acesso, ainda perplexo com a escolha da maioria dos motoristas de
ficarem na fila mais longa, uma vez que a segunda pista de acesso funciona perfeitamente.”
Continua o autor: “E aí? Qual foi sua escolha? E o
que isso tem a ver com investimentos?”
As opções apresentadas acima são uma constante no
dia a dia das médias e grandes cidades, o que é pouco usual é a análise
criativa a seguir.
Segundo Dejneka: se “Você escolheu a opção A?
Ótimo. É bem provável que você tenha um perfil mais conservador: o medo de
perda é bem maior que o desejo de ganho. Se você investe no mercado financeiro,
é bem provável que seja um investidor de longo prazo, mais cauteloso e
metódico. Gosta de aprender a respeito de mercados e sabe de possíveis
vantagens de investimentos em Bolsa, mas, ao mesmo tempo não gosta de riscos,
prefere ativos seguros e, se decide arriscar, geralmente o faz após muita
análise, leitura e consideração.” Afirma ainda, que você se encaixa no perfil
da maioria das pessoas, onde o receio da perda é muito maior que o prazer do
ganho, e por esse motivo, prefere investimentos conservadores.
Se “Escolheu a opção B? Você pode muito bem se encaixar
no perfil de um trader ². O medo da
perda existe, mas o desejo de ganho é maior. Você provavelmente tem algum
dinheiro na poupança ou títulos do governo, mas a maioria de seu capital é
dedicado a investimentos de renda variável, alguns mais arriscados e outros
menos.” Dejneka afirma que o perfil do investidor dessa opção é “leitor ávido
de livros e artigos sobre investimentos, solicita a opinião de “experts” do
mercado, mas baseia a maioria de suas decisões, sejam elas boas ou não, no seu
próprio palpite ou “feeling” sobre o mercado.”
Relatamos o criativo argumento determinado por uma relação
existente entre investidores que suportam ou não o risco (incerteza quanto ao
resultado futuro de um investimento que pode ser aferido quantitativamente), e o
comportamento de motoristas ao escolher filas com maior ou menor número de
veículos.
Em finanças, adota-se a premissa de que o
investidor racional é avesso ao risco, isto é, frente a dois investimentos com
a mesma rentabilidade, ele escolherá aquele que apresentar o menor grau de
risco para suas economias. A análise de investimento apenas pelo ângulo da
rentabilidade (rendimento obtido da valorização do investimento realizado no
curto, médio e longo prazos) torna-se incompleta e perigosa, sendo importante
considerar dois outros fatores: liquidez, que é a capacidade de converter
rapidamente o investimento em dinheiro; e segurança, que é a certeza do retorno
do dinheiro aplicado. Os três formam o tripé que sustentam a tomada de decisão do
investidor em qualquer parte do mundo. Podemos afirmar que seus componentes são
mutuamente excludentes, não havendo nenhum tipo de investimento que maximize
simultaneamente os três.
Dejneka em sua análise discorreu apenas a respeito
de dois perfis de investidor, o conservador e o trader (arrojado ou agressivo). No entanto, de acordo com o grau de
risco que o investidor se dispõe a aceitar, é possível definir o investidor em
três tipos: o conservador, o moderado e o agressivo, cada um com suas
peculiaridades, e que ajuda a definir a composição mais adequada de seu portfólio.
O conservador quer rentabilidade, mas não aceita
correr riscos, deseja ganhar pelo menos a média do mercado. O moderado aceita
algum nível de risco, pode investir em aplicações um pouco mais complexas e
busca rentabilidade um pouco acima da média praticada pelo mercado. Já o agressivo
aceita bem as oscilações do mercado financeiro, inclusive rendimentos negativos
durante algum período, pois mira no longo prazo.
Algumas inconsistências no argumento de Dejneka:
fatores como perfil do investidor e avaliação de risco são cruciais na tomada
de decisão, enquanto a escolha errada de uma fila tem impacto apenas na
possível perda de tempo; a tomada de decisão, na maioria das vezes demanda
conhecimento e acompanhamento do mercado, enquanto a escolha de uma rua ou fila
tem nível de complexidade absurdamente inferior; carro normalmente se faz
seguro, ainda mais se for um modelo caro, enquanto não existe seguro para dinheiro
aplicado em investimentos de risco; uma fila em que o motorista desconhece o
tamanho e não vê o início, e a escolhe, o máximo que pode acontecer é perder tempo
caso haja bloqueio para manutenção, acidentes etc, enquanto o resultado da
escolher de um investimento desconhecido pode tirar noites de sono; em uma fila
extensa você encontrará veículos esportivos caros e modelos populares, mas não
podemos dizer que os primeiros motoristas se enquadram na categoria de
investidores agressivos e os motoristas de populares são conservadores, talvez possamos
pensar em fatores com renda, gosto, preferência etc; ao escolher a pista errada
(poucos ou nenhum veículos), e retornar para a primeira, isso não dificultará o
acesso ao shopping, enquanto investimento realizado sem obedecer qualquer tipo
de análise detalhada pode trazer prejuízos para o apressado investidor.
Portanto, decisões de investir recursos próprios e
de terceiros devem ser tomados com base no conhecimento de fatos presentes que se
tem e da probabilidade que pode ser verificadas no futuro, em um horizonte de
curto, médio e longo prazos, não podendo ser comparado à simples decisão do
motorista pela escolha momentânea de uma fila que possa levá-lo mais rápido ao
destino escolhido.
¹/ Consultor
de Finanças Pessoais e palestrante, Economista com mestrado e doutorado em
economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do BACEN.
Acessar http://www.ravecofinancas.com.
²/ É todo e qualquer indivíduo que trabalha com
transferência de ativos financeiros, seja pessoalmente, seja para terceiros.
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