sábado, 15 de novembro de 2014

VALORIZE OS PEQUENOS NÚMEROS
Consultor Régis Varão/¹

Nos anos noventa o consultor norte-americano David Bach desenvolveu a teoria denominada “Fator Café”, que prefiro chamar poder dos pequenos números, que consiste basicamente em mostrar que a chave para o progresso financeiro consiste em ficar atento aos  pequenos valores gastos diariamente.

A maioria das pessoas acreditam que o segredo da prosperidade consiste unicamente em buscar novas fontes de receita, e procuram alternativas como um cargo mais elevado na empresa, um novo emprego, alguns mudam de cidade e outros até de profissão, como se tais mudanças resolvessem os problemas do endividamento. A citação atribuída ao físico Albert Einstein afirma “a definição de insanidade é fazer a mesma coisa repetidas vezes e esperar resultados diferentes”, sem alterar hábitos de consumo e postura frente ao dinheiro, não resolve problemas financeiros.

As pessoas que mudam de trabalho, de cidade e até de profissão continuam cometendo os mesmos erros, logo, não prestaram atenção às palavras de Einstein, pois, continuam desconsiderando muitas vezes por ignorância o grande potencial que o dinheiro tem de se multiplicar (juros compostos), particularmente em nosso País, que pratica as maiores taxas de juros do mundo.

Existem muitos erros que costumam marcar o modo de agir das pessoas que desconhecem educação financeira, podemos confirmar o poder dessa falta de conhecimento perguntando a uma pessoa que teve aumento de renda no ano anterior se a sua reserva financeira melhorou após o aumento de receita. Com certeza a resposta é não, pois na maioria das vezes quanto mais ganhamos mais gastamos, e o aumento de despesas costuma ser superior ao aumento de receita.

Muitas vezes, pessoas que têm aumento de renda o gastam antes de recebê-lo, e para piorar a situação temos profissionais especializados criando campanhas todos os dias de estímulo ao consumo. No final do ano a publicidade e a mídia com o objetivo de levar as pessoas a gastarem o 13º salário ou o suado bônus natalino, desenvolvem campanhas fantásticas que contribuem para tirar recursos que deveriam quitar dívidas e até formar poupança.

Retornando à discussão do “Fator Café”. Segundo David Bach, “As chamadas ninharias em que desperdiçamos dinheiro diariamente podem com rapidez atingir um volume capaz de modificar a nossa vida e custar-nos a liberdade.” Sem dúvidas, um exagero essa afirmação, mas não devemos desconsiderá-la totalmente, pois muitos consumidores não pensam nos gastos, e quando o fazem se concentram em grandes valores, como a prestação da casa própria, o financiamento do carro, o aluguel, o condomínio, o salário da empregada doméstica, a previdência privada, as férias, o colégio das crianças entre outros, sem considerar que os pequenos gastos é que minam o que sobra após pagar as grandes despesas. Muitos se esquecem dos pequenos valores, e o que é pior não param para pensar que poderiam acumular boa poupança se controlassem melhor as despesas.

Todos têm despesas aparentemente insignificantes, seja por hábito ou vício. Vamos citar alguns exemplos:

1. Um café expresso após o almoço por R$ 4,50: (a) no mês fica em R$ 135,00; (b) no ano soma R$ 1.620,00; (c) no ano, com juros de 0,65% a.m. totaliza R$ 1.690,10; (d) em 5 anos chega a R$ 9.931,98; (e) em 10 anos alcança R$ 24.582,81; (f) em 20 anos custa R$ 78.074,35 e em 30 anos a despesa atinge  R$ 194.470,48;

2. Manicure no salão de beleza ao custo de R$ 30,00 por semana: (a) no mês soma R$ 120,00; (b) no ano totaliza R$ 1.440,00; (c) com juros fica em R$ 1.502,31 no ano; (d) em 5 anos atinge R$ 8.828,42; (e) em 10 anos soma R$ 21.851,39; (f) em 20 anos totaliza R$ 69.399,42 e em 30 anos alcança R$ 172.862,65;

3. Um fumante que consome um maço de cigarro por dia ao preço de R$ 7,00: (a) no mês chega a R$ 210,00; (b) no ano alcança R$ 2.520,00; (c) corrigindo esse valor fica em R$ 2.629,05 no ano; (d) em 5 anos temos R$ 15.449,74; (e) em 10 anos totaliza R$ 38,239,93; (f) em 20 anos atinge R$ 121.448,98 e em 30 anos sobe para R$ 302.509,64;

4. Um café com leite grande e um misto quente pela manhã ao custo de R$ 7,75: (a) no mês soma R$ 232,50; (b) no ano totaliza R$ 2.790,00; (c) corrigindo esse valor atinge R$ 2.910,73 no ano; (d) em 5 anos fica em R$ 17.105,07; (e) em 10 anos alcança R$ 42.337,06; (f) em 20 anos soma R$ 134.461,37 e em 30 anos chega a  R$ 334.921,39;

5. Um filme no fim de semana por R$ 26,00: (a) no mês fica em R$ 104,00; (b) no ano totaliza R$ 1.248,00; (c) com correção mensal atinge R$ 1.302,01 no ano; (d) em 5 anos alcança R$ 7.651,30; (e) em 10 anos soma R$ 18.937,87; (f) em 20 anos chega a R$ 60.146,16 e em 30 anos sobe para R$ 149.814,30.

Todavia, vamos analisar alguns desses hábitos: café expresso, cigarro, lanches e cinema, temos um gasto mensal de R$ 681,50, que corrigido sobe para R$ 8.531,89 no ano, em 10 anos chega a R$ 124.097,67, em 20 anos alcança R$ 394.130,87 e em 30 anos atinge a quantia de R$ 981.715,81. É o poder dos pequenos números se manifestando, sem nós percebermos. Se cortarmos a metade dessas despesas, nossa qualidade de vida ficaria inalterada e se colocasse esse valor em uma aplicação, até mesmo na poupança ao longo de três décadas somaria cerca de R$ 490 mil. Até mesmo uma aplicação medíocre como a poupança renderia uma quantia satisfatória, aliás, qualquer quantia é melhor que nenhuma.

Cada indivíduo desenvolve o seu “Fator Café”, que pode ser o simples hábito de tomar um ou dois expressos por dia, a dose diária de veneno - cigarro - para a saúde e para o bolso, o cineminha semanal, a manicure aos sábados, o café com leite toda manhã, o lanche da tarde, as saídas com os amigos, a sobremesa após o almoço, a engraxada nos sapatos, os presentes para familiares fora de hora, as revistas, os jornais, as gorjetas, o estacionamento, os almoços e jantares em restaurantes caros e muitos outros que fazem desaparecer o salário.

Segundo Mauro Calil, “A partir do momento em que compromete a renda ao ponto de precisar cancelar um pacote de TV por assinatura, ou fazer empréstimo para quitar dívidas, o cidadão deve se reeducar”. Logo, reduzir alguns gastos sem reduzir a qualidade de vida é a maneira adequada para se atingir a prosperidade.

Para evitar problemas, a sugestão é estabelecer metas de gastos no dia-a-dia para não ter surpresas desagradáveis no fim do mês. Se a pessoa faz questão de um expresso após o almoço, tudo bem, evite um segundo à tarde ou até um terceiro após o jantar. O lanche feito próximo ao trabalho poderia ser tomado em casa. Alugar filmes sai mais barato que ir ao cinema, pois ao custo do ingresso vem o deslocamento, a pipoca e às vezes um sorvete e até mesmo um jantar. As mulheres poderiam economizar com manicures indo uma vez por mês ao salão. As saídas com os (as) amigos (as) podem ser reduzidas pela metade, inclusive o consumo de cerveja ou vinho, o que no final do mês faz grande diferença. O fumante poderia tentar reduzir o consumo de cigarros, economizando saúde e dinheiro.

Como verificamos, existem muitos gastos pequenos feitos diariamente e que não damos importância, mas quando somados representam grandes valores. O desperdício está nos detalhes, e nesse caso alerto para pequenas outras despesas que ajudam a minar qualquer orçamento, como o banho demorado, a torneira aberta ao escovar os dentes, luzes acesas sem pessoas no ambiente, o pouco caso com os centavos, as sobras do almoço que poderiam ser aproveitadas no dia seguinte, isso tudo pode levar ao que chamo de poder dos pequenos números.

Portanto, embora controles pareçam chatos, tomar cuidado com os pequenos valores podem fazer grande diferença ao longo dos anos. Não vamos perder qualidade de vida ou deixar de fazer o que gostamos, nem virar pão duro, apenas prestar atenção às pequenas despesas que em princípio parecem inofensivas vistas isoladamente, mas se tornam perigosas na contabilidade mensal.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais e palestrante com experiência em educação financeira e conjuntura econômica, Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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