PEQUENOS GRANDES
NÚMEROS
Régis
Varão/¹
No
final dos anos noventa, o consultor norte-americano de finanças pessoais David
Bach desenvolveu a teoria denominada Fator Café, que foi publicada no livro O
Milionário Automático, um best seller
internacional. A teoria mostra basicamente que a chave para o progresso
financeiro pessoal é ficar atento aos pequenos valores gastos diariamente.
A
maioria das pessoas acredita que o segredo da prosperidade consiste unicamente
em buscar novas fontes de receita, procurar alternativas de emprego com salários
mais elevados, mudar de empregador, aumentar a renda, trocar de cidade, de profissão
etc, como se essas alternativas resolvessem os problemas da gestão financeira
individual. Aproveito para registrar a citação atribuída ao físico Albert
Einstein a respeito de hábitos: “a definição de insanidade é fazer a mesma
coisa repetidas vezes e esperar resultados diferentes.”
Einstein
estava correto, se não houver alteração nos hábitos de consumo e na postura do
indivíduo/família frente ao dinheiro, com certeza os problemas da má gestão financeira
continuarão, e serão agravados, pois os juros bancários no Brasil são elevadíssimos
e não perdoam devedores.
As
pessoas que mudam de trabalho, de cidade e até de país, continuam praticando os
mesmos erros, pois não entendem o que disse Einstein. Grande parte dos brasileiros
desconhece os rudimentos de finanças pessoais, planejamento financeiro e o impacto
multiplicador dos juros compostos nas dívidas. Dados do Banco Central de dez/15
afirmam que os juros médios cobrados no crédito rotativo/cartão de crédito e
cheque especial atingiram 431,4% a.a. e 287% a.a., respectivamente.
Existem
comportamentos que marcam o modo de agir das pessoas que não conhecem finanças
pessoais, basta perguntarmos a uma pessoa que teve aumento de renda no ano anterior
se a sua reserva financeira apresentou variação positiva após o aumento de receita.
Com certeza a resposta é não para os que não praticam educação financeira. Na
maioria das vezes quanto mais ganhamos mais gastamos, e o aumento de despesas costuma
ser proporcionalmente superior ao aumento da receita.
Muitas
vezes as pessoas têm aumento de renda e a gastam antes de recebê-la, e para
piorar existem profissionais bem pagos criando campanhas publicitárias de
estímulo ao consumo. Nos feriados, dia das crianças, das mães, dos namorados,
semana santa, natal e outros, a publicidade trabalha para induzir o cidadão a consumir
cada vez mais, pois são desenvolvidas campanhas sofisticadas que contribuem
para tirar recursos que deveriam quitar dívidas ou formar reserva financeira. Muita
gente cai nessas armadilhas ao entrarem nos shoppings com nova decoração. Por
falta de planejamento financeiro, o endividamento familiar tem
aumentado nos últimos anos.
Retornando
ao Fator Café, Bach afirma que “As chamadas ninharias em que desperdiçamos
dinheiro diariamente podem com rapidez atingir um volume capaz de modificar a
nossa vida e custar-nos a liberdade.” Há um pouco de exagero na afirmação, mas
não devemos desconsiderá-la, pois muitos consumidores não pensam nos gastos do
dia a dia, e se preocupam apenas com valores mais elevados, prestação da casa
própria, financiamento do carro, aluguel, condomínio, salário da empregada
doméstica, previdência privada, colégio das crianças entre outros, sem
considerar que as pequenas despesas também reduzem o que sobra. Muitos esquecem
os pequenos valores, e não param para pensar que poderiam acumular boa poupança
se controlassem melhor essas despesas.
Todos
têm despesas aparentemente insignificantes, seja por hábito ou vício. Exemplos:
1.
Um café expresso após o almoço custa R$5,00
em média: (a) no final do mês totaliza R$150,00; (b) em 12 meses soma R$1.800,00
(R$150,00 x 12); (c) esse valor corrigido com juros de 0,8% a.m. totaliza em 12
meses R$1.980,61; (d) em 5 anos sobe para R$2.903,38; (e) em 10 anos chega a R$4.683,13;
(f) em 20 anos está em R$12.184,29; e (g) em 30 anos atinge a elevada quantia de R$31.700,35;
2.
Ida à manicure
no salão de beleza custa entre R$ 30,00 e R$60,00 por semana, pé e mão, sem
considerar o deslocamento e em alguns casos o valor do estacionamento: (a) vamos
trabalhar com o gasto de R$40,00 por semana, no final do mês soma R$ 160,00;
(b) em um ano R$1.920,00; (c) corrigindo esse valor atinge R$2.112,65 em 12
meses; (d) em 5 anos chega a R$3.096,94; (e) em 10 anos R$4.995,34; (f) em 20
anos R$12.996,58; e (g) em 30 anos totaliza R$33.813,71;
3.
Um fumante
que consome um maço de cigarro por dia ao preço de
R$ 7,00: (a) no mês ele gasta R$ 210,00; (b) em um ano R$2.520,00; (c) com
correção de 0,8% a.m., em 12 meses fica em R$2.772,85; (d) em 5 anos temos R$4.064,74;
(e) em 10 anos totaliza R$6.556,38; (f) em 20 anos atinge R$17.058,01; e (g) em
30 anos sobe para R$44.380,49;
4.
Um lanche, café com leite grande (R$3,50)
e um misto quente (R$5,00) pela manhã custa R$8,50 em uma padaria popular,
abaixo dos preços praticados em localidades mais caras: (a) trabalhando com
R$8,50, no mês totaliza R$255,00 (R$8,50 x 30); (b) no ano atinge R$3.060,00;
(c) corrigindo esse valor chega a R$3.367,04 em 12 meses; (d) em 5 anos fica em
R$4.935,75; (e) em 10 anos alcança R$7.961,32; (f) em 20 anos sobe para R$20.713,29;
e (g) em 30 anos atinge R$53.890,60;
5.
O lazer é importante, assim, um filme
em Brasília-Pier 21 nos feriados e entre
5ª e domingo sai por R$27,00 a matinê e R$30,00 à noite. Vamos trabalhar com um
ingresso de R$27,00, sem desconto: (a) no mês fica em R$ 108,00; (b) no ano totaliza
R$1.296,00; (c) com correção de 0,8% a.m. atinge R$1.426,04 em 12 meses; (d) em
5 anos alcança R$2.090,44; (e) em 10 anos soma R$3.371,85; (f) em 20 anos chega
a R$8.772,69; e (g) em 30 anos sobe para R$22.824,25.
O
café expresso,
a manicure, o cigarro, o lanche e cinema, quando somados atingem R$883,00 em um
mês, e sobe para R$10.596,00 em doze meses. Corrigido a 0,8% a.m., em 10 anos chega
a R$27.568,03, em 20 anos alcança R$71.724,85, e finalmente em 30 anos atinge a
quantia de R$186.609,40. Se cortar pela metade essas despesas, a qualidade de
vida ficaria inalterada, ganharia mais saúde e ainda teria uma significativa
reserva financeira de R$93.304,70 para uma boa aposentadoria. Até mesmo uma
aplicação medíocre como a poupança, que paga juros abaixo da inflação, renderia
uma quantia satisfatória, aliás, qualquer quantia é melhor que nenhuma.
É
o poder dos pequenos números se manifestando. Por esse motivo denomino o Fator
Café de Pequenos Grandes Valores, que são irrisórios quando isolados, mas
somados a outros pequenos valores se transformam em grandes números, é o efeito
dos juros compostos fazendo a diferença.
Cada
indivíduo desenvolve o seu Fator Café, que pode ser simples ou caro. O hábito
de tomar um ou mais expressos por dia, o cigarro, o cinema seguido do jantar, a
manicure aos sábados, o café da manhã fora de casa, o lanche da tarde, as saídas
com os amigos, os presentes dados sem motivo, as revistas, dois ou mais pontos
de TV a cabo, as gorjetas, o estacionamento, as constantes refeições fora de
casa são hábitos que ao longo dos anos endividam as pessoas.
Segundo
Mauro Calil, “A partir do momento em que compromete a renda ao ponto de
precisar cancelar um pacote de TV por assinatura, ou fazer empréstimo para
quitar dívidas, o cidadão deve se reeducar”. Logo, reduzir gastos sem alterar a
qualidade de vida é a maneira adequada para se atingir a prosperidade e se
preparar para uma aposentadoria tranquila.
Para
evitar problemas financeiros, estabeleça metas de gastos no dia a dia para evitar
surpresas desagradáveis no fim do mês. Se a pessoa gosta de um expresso após o
almoço, tudo bem, mas evite um segundo à tarde ou após o jantar. O fumante ao
reduzir o consumo de cigarros melhora a saúde e o bolso. O lanche próximo ao
trabalho deve ser feito em casa. Alugar filmes custa menos que ir ao cinema,
pois tem o combustível, a pipoca, o sorvete e até um jantar. As mulheres podem economizar
indo uma vez por mês ao salão ou resolver fazer como uma grande amiga que faz
as unhas em casa, e está feliz. Ao reduzir as noitadas com os amigos, além de economizar
evita problemas com o Detran.
Assim,
existem gastos pequenos diários que não damos importância, mas no final do mês
se transformam em grandes valores. Muitas vezes o desperdício pode estar nos
detalhes, é o banho demorado, a torneira aberta ao escovar os dentes, luzes acesas
em ambientes sem ninguém, sobras do almoço que não aproveitadas no dia
seguinte, isso tudo leva a grandes desperdícios financeiros. Um chuveiro aberto
durante 5 minutos consome entre 40 e 50 litros de água, enquanto uma torneira
em igual período gasta entre 15 e 20 litros, sem contar a despesa de energia
elétrica no primeiro caso.
Embora
controles pareçam chatos, tomar cuidado com os pequenos valores podem fazer
grande diferença ao longo dos anos. Não vamos perder qualidade de vida ou
deixar de fazer o que gostamos, nem virar Tio Patinhas, apenas devemos prestar
atenção às pequenas despesas que parecem inofensivas vistas isoladamente, mas
se tornam perigosas na contabilidade mensal.
Portanto,
além de tentar reduzir os gastos com o café expresso, o cigarro, o lanche e
outros, preste atenção às dicas: ao escovar os dentes feche a torneira, ao
ensaboar-se ou usar shampoo feche o chuveiro, verifique periodicamente se existem
vazamentos em sua residência, evite interurbano com celular, estabeleça dia
específico para lavar e passar roupa, não abra a geladeira muitas vezes, e tudo
isso contribui para economizar dinheiro. Hábitos saudáveis são importantes para
o meio ambiente e para o bolso.
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