HÁBITOS FINANCEIROS SAUDÁVEIS
Régis Varão/¹
A grande maioria das pessoas com problemas
financeiros decorre da inadequada gestão de seus recursos financeiros. Gastar
mais do que ganha, viver constantemente no vermelho, pagar o valor mínimo da
fatura do cartão de crédito, comprar sempre a prestação, são alguns dos motivos
que contribuem para que as pessoas tenham uma qualidade de vida financeira
ruim.
A má gestão dos recursos financeiros diários decorre,
em grande parte, de atitudes e hábitos inadequados e repetitivos na administração
das receitas provenientes de salário, pró-labore, bónus, premiações, comissões
e outros, e que interferem negativamente no sucesso de nossa vida financeira.
Maus hábitos no trato com o dinheiro podem levar ao endividamento, com danos paralelos,
pois pesquisas demonstram que indivíduos endividados ou com problemas
financeiros vão ao médico com mais frequência, faltam mais ao trabalho, usam
mais atestados médicos, discutem mais com colegas e familiares, estão mais
sujeitos a perderam o emprego, reduzem o nível de concentração, diminuem a
produtividade e se separam/divorciam com mais frequência que os indivíduos sem
problemas financeiros.
Hábitos que ajudam as pessoas a terem um desempenho
positivo na gestão de suas receitas mensais:
1. Economizar sempre:
Qualquer
pessoa sabe ou deveria saber que economizar é essencial para uma
vida financeira tranquila. A prosperidade está associada em parte, aos recursos
financeiros que são guardados mensalmente em uma reserva financeira. A bíblia
faz várias referências à prosperidade, e em Jeremias 29-11 temos: Porque sou eu que conheço os planos que
tenho para vocês', diz o Senhor, 'planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar
dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro. Na citação de Jeremias o
termo prosperidade está associado à esperança de dias melhores e um futuro com
segurança e tranquilidade.
Para
atingir a prosperidade, você pode iniciar economizando 5% da renda líquida
mensal e gradualmente - elevar esse percentual até atingir 30%, em um prazo de
até seis meses. Considere as peculiaridades de cada um, muitas famílias têm avós,
pais, filhos e netos morando juntos, nesse caso, esses percentuais servem como
indicativo, mas cuidado para não perder qualidade de vida. Muitas vezes 10%,
20% pode ser adequado para uma família padrão - marido, mulher e filhos -, no
entanto, um assalariado de alta renda pode guardar entre 25% e 50% de seus recebimentos
mensais líquidos sem afetar seu padrão de vida. A regra básica universal: economize sempre. Muita atenção com os
supérfluos. Não precisa ser um “Tio Patinhas,” guardar dinheiro por guardar,
tenha um ou mais objetivos bem definidos, estabeleça metas e as discuta com sua
mulher e filhos, afinal de contas trata-se da sua família. Transmita aos seus
filhos hábitos saudáveis, oriente-os enquanto são jovens e serão adultos responsáveis
financeiramente. Economizar parte do que se ganha é um hábito saudável, é
simplesmente uma questão de sabedoria. Incorpore esse hábito no seu dia-a-dia e
de sua família.
2. Fazer Planejamento Financeiro:
Fazer orçamento pessoal/familiar e gastar menos do
que se ganha é questão de bom senso e até de sobrevivência financeira. Faça mensalmente
um orçamento
pessoal, liste as receitas provenientes de aluguéis,
aplicações financeiras, salários, pró-labore, gratificações, bónus, premiações,
comissões etc. Relacione os recibos com as despesas realizadas no mês,
inclusive os pequenos valores, crie grupos de despesas como alimentação,
educação, lazer, moradia, saúde e transporte, isso ajuda nos controles e no
planejamento financeiro.
Com receitas e despesas relacionadas já se tem um
indicativo para onde está indo o dinheiro, que na maioria das vezes desaparece
sem deixar vestígios, é como um grande ralo embaixo de um chuveiro ligado. Ao
listar as despesas, observe com muita atenção todos os valores, sem exceção, o
que ajudará a tomar conhecimento e a decidir qual a melhor estratégia para
realizar o planejamento financeiro e locar melhor o dinheiro recebido
periodicamente.
3. Fazer Reserva Financeira:
Muitos não fazem reserva
financeira por desconhecerem e até não compreenderem sua
importância. Deve-se reservar um percentual da renda líquida mensal para
formá-la, comece com 5% e gradualmente chegue a 30% ou até mais (ver Economize
sempre). Todos estão
sujeitos a surpresas: agradáveis (formatura do filho, casamento da filha, MBA
dos filhos, pós-graduação em boa universidade etc); e desagradáveis como perda
do emprego, acidentes diversos, doenças em família, gravidez inesperada, desemprego
etc.
O ideal é ter uma reserva que seja suficiente para
cobrir gastos entre 6 e 12 meses (alguns educadores financeiros falam em mais meses).
No entanto, se conseguir formar uma reserva que cubra os gastos equivalentes às
despesas totais realizadas em 6 meses, já está bom. Exemplo: se você gasta em
média R$ 4.000,00 por mês, incluindo despesas fixas e variáveis, você deveria
ter no mínimo R$24.000,00 (6 x R$4.000,00) depositado no sistema financeiro.
Por outro lado, se puder manter em banco o equivalente a um ano de despesas,
total de R$48.000,00 (12 x R$4.000,00), seria bem melhor. Os valores acima podem
servir como colchão financeiro em casos de desemprego e dívidas inesperadas,
mas também podem ajudar nas despesas com o casamento da filha etc. O objetivo da reserva
financeira é atender a demandas inesperadas, sem endividar a família. Ela pode
ter destinos diversos, desde que atenda as necessidades e não leve a pessoa a
tomar crédito no sistema bancário. Mantenha muita distância das carteiras de
crédito do setor bancário.
4. Observar o Poder dos Pequenos Valores:
Muita gente comete equívocos ao pensar que pequenos
valores não são importantes na estrutura global de despesas das famílias. Um
simples café expresso de R$5,00, tomado sete vezes por semana fica em R$35,00,
que chega a R$140,00 no mês, e atinge R$1.680,00 no ano, em 10 anos temos
R$16.800,00, sem considerar os juros incidentes. Um lanche diário de R$9,00, custa
R$63,00 por semana, R$252,00 por mês e no ano R$3.024,00. Junte-se a eles o
cigarro (R$7,00) e a cerveja com os amigos (R$12,00), e temos um valor razoável.
Segundo o jornal O Estado de
São Paulo, de 21.11.13, o “Brasileiro que consome um maço de
cigarros por dia durante 50 anos gasta, no mínimo, o equivalente a um Golf zero
quilômetro; despesa anual do governo com a saúde dos fumantes soma R$ 21 bilhões.”
Somando esses pequenos valores gastos no dia-a-dia, a despesa anual atinge R$11.088,00,
um valor elevado que pode reduzir a qualidade de vida da família e nada contribui
para uma saúde melhor.
Produtos necessários para a família, como alimentos,
vestuário e lazer, poderiam ser adquiridos com esses “pequenos grandes valores”
se economizados. Imagine o que você poderia adquirir para sua casa, sua mulher
e seus filhos, evitando esses gastos
excessivos. Reduza essas despesas pela metade e temos uma
sobra de R$5.544,00 (R$11.088,00/2), que pode ajudar na reforma da casa, na
troca da velha máquina de lavar roupas e até mesmo nas férias da família. Logo,
fique atento ao Poder dos Pequenos Valores.
5. Evitar Compras Parceladas:
Evite comprar a prazo, pois muitas vezes várias pequenas
prestações podem levar ao endividamento quando agregadas. Segundo a Pesquisa Nacional
de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da
Confederação Nacional do Comércio-CNC, de dez/15, o carnê de
loja é o segundo tipo de endividamento preferido das
famílias brasileiras com 16,8%, perdendo apenas para o cartão de crédito com
78,6% das preferências, na sequência temos o terceiro lugar com financiamento
de carro (12,5%). O segredo do sucesso financeiro é: se não tiver dinheiro para
comprar a vista não compre, deixe para o próximo mês, para o próximo semestre
ou ano.
- Antes de abrir a carteira pergunte-se:
(a) Eu preciso?
(b) Tenho dinheiro? (c) Tem que ser agora?
Com apenas uma resposta negativa a qualquer das
perguntas, não compre. Se as respostas forem positivas, antes de comprar peça desconto,
proteja seu dinheiro. Portanto, não faça dívidas, evite compras parceladas,
adquira “apenas” o necessário e planeje-se para adquirir algum produto novo,
pode ser que você não esteja precisando dele e até em muitos casos pode ter um
parecido.
6. Desconfiar da Memória:
A grande armadilha das finanças pessoais é o mau
hábito de confiar nas chamadas contas mentais. Anote toda e qualquer despesa,
solicite recibos/notas fiscais - o vendedor é obrigado por lei a fornecer os comprovantes
- para não ter surpresas desagradáveis no final do mês. Um bom Planejamento Financeiro e o cuidado com os pequenos valores nos gastos do dia-a-dia podem
ajudar a evitar as armadilhas preparadas pela memória. Tudo que é gasto é
importante, mesmo os pequenos valores, e sempre peça nota fiscal de tudo o que
adquirir, pois além de facilitar o controle das despesas pode contribuir para
reduzir o IPVA e o IPTU em cidades como Brasília (nota legal) e São Paulo (nota
paulista), e até mesmo receber valores em espécie como devolução.
7. Tirar Proveito do Cartão de Crédito:
Pague sempre a fatura integral, não pague o valor
mínimo em hipótese alguma, pois os juros incidentes sobre o saldo devedor é o
mais elevado do mercado, e ultrapassa dois dígitos ao mês. Segundo dados divulgados
pelo Banco Central a taxa média do crédito rotativo do Cartão de Crédito (taxa para quem
paga o valor mínimo da fatura e financia o restante) atingiu 431,4% a.a. em dez/15,
mantendo-se no maior patamar da série histórica (o segundo mais caro foi o
cheque especial com 287% a.a. em dez/15, maior taxa dos últimos 21 anos).
Utilize o cartão de
crédito a seu favor, cadastre-o em programas de milhagem,
que podem ajudar a adquirir passagens gratuitamente, obter descontos em bens e
serviços entre outros benefícios. Não leve na carteira cartão de crédito e talão
de cheques, os dois juntos podem estimular o consumo desnecessário, coloque
apenas um na carteira. Só saia com o cartão de crédito quando estiver realmente
precisando de adquirir um produto essencial, como comida, remédio etc. Siga a regra dos 3 SIM’s e pergunte-se: Eu preciso ? Tenho dinheiro ? Tem que ser agora
?
Portanto, o segredo da prosperidade está em fazer
planejamento financeiro, economizar sempre, evitar compras por impulso, fazer
reserva financeira, não comprar a prazo, evitar muitas prestações, não pagar
juros e manter-se atento ao poder multiplicador dos juros compostos e dos
pequenos grandes valores. Bons hábitos reduzem o estresse, aumenta o humor,
melhora a pressão sanguínea, eleva a produtividade e ajuda a manter a qualidade
e a expectativa de vida das pessoas.
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