sábado, 30 de janeiro de 2016

HÁBITOS FINANCEIROS SAUDÁVEIS
Régis Varão/¹

A grande maioria das pessoas com problemas financeiros decorre da inadequada gestão de seus recursos financeiros. Gastar mais do que ganha, viver constantemente no vermelho, pagar o valor mínimo da fatura do cartão de crédito, comprar sempre a prestação, são alguns dos motivos que contribuem para que as pessoas tenham uma qualidade de vida financeira ruim.

A má gestão dos recursos financeiros diários decorre, em grande parte, de atitudes e hábitos inadequados e repetitivos na administração das receitas provenientes de salário, pró-labore, bónus, premiações, comissões e outros, e que interferem negativamente no sucesso de nossa vida financeira. Maus hábitos no trato com o dinheiro podem levar ao endividamento, com danos paralelos, pois pesquisas demonstram que indivíduos endividados ou com problemas financeiros vão ao médico com mais frequência, faltam mais ao trabalho, usam mais atestados médicos, discutem mais com colegas e familiares, estão mais sujeitos a perderam o emprego, reduzem o nível de concentração, diminuem a produtividade e se separam/divorciam com mais frequência que os indivíduos sem problemas financeiros.

Hábitos que ajudam as pessoas a terem um desempenho positivo na gestão de suas receitas mensais:

1. Economizar sempre:

Qualquer pessoa sabe ou deveria saber que economizar é essencial para uma vida financeira tranquila. A prosperidade está associada em parte, aos recursos financeiros que são guardados mensalmente em uma reserva financeira. A bíblia faz várias referências à prosperidade, e em Jeremias 29-11 temos: Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês', diz o Senhor, 'planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro. Na citação de Jeremias o termo prosperidade está associado à esperança de dias melhores e um futuro com segurança e tranquilidade.

Para atingir a prosperidade, você pode iniciar economizando 5% da renda líquida mensal e gradualmente - elevar esse percentual até atingir 30%, em um prazo de até seis meses. Considere as peculiaridades de cada um, muitas famílias têm avós, pais, filhos e netos morando juntos, nesse caso, esses percentuais servem como indicativo, mas cuidado para não perder qualidade de vida. Muitas vezes 10%, 20% pode ser adequado para uma família padrão - marido, mulher e filhos -, no entanto, um assalariado de alta renda pode guardar entre 25% e 50% de seus recebimentos mensais líquidos sem afetar seu padrão de vida. A regra básica universal: economize sempre. Muita atenção com os supérfluos. Não precisa ser um “Tio Patinhas,” guardar dinheiro por guardar, tenha um ou mais objetivos bem definidos, estabeleça metas e as discuta com sua mulher e filhos, afinal de contas trata-se da sua família. Transmita aos seus filhos hábitos saudáveis, oriente-os enquanto são jovens e serão adultos responsáveis financeiramente. Economizar parte do que se ganha é um hábito saudável, é simplesmente uma questão de sabedoria. Incorpore esse hábito no seu dia-a-dia e de sua família.

2. Fazer Planejamento Financeiro:

Fazer orçamento pessoal/familiar e gastar menos do que se ganha é questão de bom senso e até de sobrevivência financeira. Faça mensalmente um orçamento pessoal, liste as receitas provenientes de aluguéis, aplicações financeiras, salários, pró-labore, gratificações, bónus, premiações, comissões etc. Relacione os recibos com as despesas realizadas no mês, inclusive os pequenos valores, crie grupos de despesas como alimentação, educação, lazer, moradia, saúde e transporte, isso ajuda nos controles e no planejamento financeiro.

Com receitas e despesas relacionadas já se tem um indicativo para onde está indo o dinheiro, que na maioria das vezes desaparece sem deixar vestígios, é como um grande ralo embaixo de um chuveiro ligado. Ao listar as despesas, observe com muita atenção todos os valores, sem exceção, o que ajudará a tomar conhecimento e a decidir qual a melhor estratégia para realizar o planejamento financeiro e locar melhor o dinheiro recebido periodicamente.

3. Fazer Reserva Financeira:

Muitos não fazem reserva financeira por desconhecerem e até não compreenderem sua importância. Deve-se reservar um percentual da renda líquida mensal para formá-la, comece com 5% e gradualmente chegue a 30% ou até mais (ver Economize sempre). Todos estão sujeitos a surpresas: agradáveis (formatura do filho, casamento da filha, MBA dos filhos, pós-graduação em boa universidade etc); e desagradáveis como perda do emprego, acidentes diversos, doenças em família, gravidez inesperada, desemprego etc.

O ideal é ter uma reserva que seja suficiente para cobrir gastos entre 6 e 12 meses (alguns educadores financeiros falam em mais meses). No entanto, se conseguir formar uma reserva que cubra os gastos equivalentes às despesas totais realizadas em 6 meses, já está bom. Exemplo: se você gasta em média R$ 4.000,00 por mês, incluindo despesas fixas e variáveis, você deveria ter no mínimo R$24.000,00 (6 x R$4.000,00) depositado no sistema financeiro. Por outro lado, se puder manter em banco o equivalente a um ano de despesas, total de R$48.000,00 (12 x R$4.000,00), seria bem melhor. Os valores acima podem servir como colchão financeiro em casos de desemprego e dívidas inesperadas, mas também podem ajudar nas despesas com o  casamento da filha etc. O objetivo da reserva financeira é atender a demandas inesperadas, sem endividar a família. Ela pode ter destinos diversos, desde que atenda as necessidades e não leve a pessoa a tomar crédito no sistema bancário. Mantenha muita distância das carteiras de crédito do setor bancário.

4. Observar o Poder dos Pequenos Valores:

Muita gente comete equívocos ao pensar que pequenos valores não são importantes na estrutura global de despesas das famílias. Um simples café expresso de R$5,00, tomado sete vezes por semana fica em R$35,00, que chega a R$140,00 no mês, e atinge R$1.680,00 no ano, em 10 anos temos R$16.800,00, sem considerar os juros incidentes. Um lanche diário de R$9,00, custa R$63,00 por semana, R$252,00 por mês e no ano R$3.024,00. Junte-se a eles o cigarro (R$7,00) e a cerveja com os amigos (R$12,00), e temos um valor razoável. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, de 21.11.13, o “Brasileiro que consome um maço de cigarros por dia durante 50 anos gasta, no mínimo, o equivalente a um Golf zero quilômetro; despesa anual do governo com a saúde dos fumantes soma R$ 21 bilhões.” Somando esses pequenos valores gastos no dia-a-dia, a despesa anual atinge R$11.088,00, um valor elevado que pode reduzir a qualidade de vida da família e nada contribui para uma saúde melhor.

Produtos necessários para a família, como alimentos, vestuário e lazer, poderiam ser adquiridos com esses “pequenos grandes valores” se economizados. Imagine o que você poderia adquirir para sua casa, sua mulher e seus filhos, evitando esses gastos excessivos. Reduza essas despesas pela metade e temos uma sobra de R$5.544,00 (R$11.088,00/2), que pode ajudar na reforma da casa, na troca da velha máquina de lavar roupas e até mesmo nas férias da família. Logo, fique atento ao Poder dos Pequenos Valores.

5. Evitar Compras Parceladas:

Evite comprar a prazo, pois muitas vezes várias pequenas prestações podem levar ao endividamento quando agregadas. Segundo a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da Confederação Nacional do Comércio-CNC, de dez/15, o carnê de loja é o segundo tipo de endividamento preferido das famílias brasileiras com 16,8%, perdendo apenas para o cartão de crédito com 78,6% das preferências, na sequência temos o terceiro lugar com financiamento de carro (12,5%). O segredo do sucesso financeiro é: se não tiver dinheiro para comprar a vista não compre, deixe para o próximo mês, para o próximo semestre ou ano.

- Antes de abrir a carteira pergunte-se:
(a) Eu preciso? (b) Tenho dinheiro? (c) Tem que ser agora?

Com apenas uma resposta negativa a qualquer das perguntas, não compre. Se as respostas forem positivas, antes de comprar peça desconto, proteja seu dinheiro. Portanto, não faça dívidas, evite compras parceladas, adquira “apenas” o necessário e planeje-se para adquirir algum produto novo, pode ser que você não esteja precisando dele e até em muitos casos pode ter um parecido.

6. Desconfiar da Memória:

A grande armadilha das finanças pessoais é o mau hábito de confiar nas chamadas contas mentais. Anote toda e qualquer despesa, solicite recibos/notas fiscais - o vendedor é obrigado por lei a fornecer os comprovantes - para não ter surpresas desagradáveis no final do mês. Um bom Planejamento Financeiro e o cuidado com os pequenos valores nos gastos do dia-a-dia podem ajudar a evitar as armadilhas preparadas pela memória. Tudo que é gasto é importante, mesmo os pequenos valores, e sempre peça nota fiscal de tudo o que adquirir, pois além de facilitar o controle das despesas pode contribuir para reduzir o IPVA e o IPTU em cidades como Brasília (nota legal) e São Paulo (nota paulista), e até mesmo receber valores em espécie como devolução.

7. Tirar Proveito do Cartão de Crédito:

Pague sempre a fatura integral, não pague o valor mínimo em hipótese alguma, pois os juros incidentes sobre o saldo devedor é o mais elevado do mercado, e ultrapassa dois dígitos ao mês. Segundo dados divulgados pelo Banco Central a taxa média do crédito rotativo do Cartão de Crédito (taxa para quem paga o valor mínimo da fatura e financia o restante) atingiu 431,4% a.a. em dez/15, mantendo-se no maior patamar da série histórica (o segundo mais caro foi o cheque especial com 287% a.a. em dez/15, maior taxa dos últimos 21 anos).

Utilize o cartão de crédito a seu favor, cadastre-o em programas de milhagem, que podem ajudar a adquirir passagens gratuitamente, obter descontos em bens e serviços entre outros benefícios. Não leve na carteira cartão de crédito e talão de cheques, os dois juntos podem estimular o consumo desnecessário, coloque apenas um na carteira. Só saia com o cartão de crédito quando estiver realmente precisando de adquirir um produto essencial, como comida, remédio etc. Siga a regra dos 3 SIM’s e pergunte-se: Eu preciso ? Tenho dinheiro ? Tem que ser agora ?

Portanto, o segredo da prosperidade está em fazer planejamento financeiro, economizar sempre, evitar compras por impulso, fazer reserva financeira, não comprar a prazo, evitar muitas prestações, não pagar juros e manter-se atento ao poder multiplicador dos juros compostos e dos pequenos grandes valores. Bons hábitos reduzem o estresse, aumenta o humor, melhora a pressão sanguínea, eleva a produtividade e ajuda a manter a qualidade e a expectativa de vida das pessoas.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais, educador financeiro e palestrante nas áreas de educação financeira e corporativa, finanças pessoais e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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