segunda-feira, 20 de novembro de 2017

FALTA EDUCAÇÃO FINANCEIRA AO BRASILEIRO
Régis Varão/¹

O nível de endividamento das famílias brasileiras passou de 59,8% em out/16 para 61,8% em out/17, enquanto as famílias com dívidas ou contas em atraso saiu de 24,7% para 26%, na mesma base de comparação. Esses dados são da última Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), de out/17, da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

A preferência das famílias endividadas está distribuída da seguinte maneira: a liderança é do cartão de crédito com 76,7%, seguido de carnês de lojas (16,7%), financiamento de carro (10,2%), crédito pessoal (9,8%), financiamento de casa (7,8%), cheque especial  (6%) e crédito consignado com 5,2%, segundo a PEIC.

O número de consumidores inadimplentes no Brasil em out/16 atingiu o recorde de 61 milhões, 4,45% acima do observado no mesmo período de 2016 quando estava em 58,4 milhões. O volume financeiro envolvido totaliza R$269,1 bilhões, de acordo com a Serasa Experian. A pesquisa mostra que a região com maior percentual de inadimplentes em out/17 é a Sudeste com 44,8% do total, seguida pelo Nordeste (25,5%) e em terceiro lugar a região Sul (12,7%). Ainda segundo a Serasa Experian, o segmento de micro e pequenas empresas contabilizava 4,8 milhões de inadimplentes em ago/17, 13,2% acima de igual período de 2016.

A seguir, algumas informações a respeito do comportamento do brasileiro no quesito educação financeira:

(a) De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais-ANBIMA, de 9.11.17, em todo o País, menos de um quarto da população economicamente ativa (23,8%) afirma fazer algum tipo de investimentos, e entre o público que se declara investidor, a maioria está na classe A (42%), com a classe C na ponta oposta  com 18%. Segundo a pesquisa, 13,84% conhece, mas não faz nenhum tipo de investimento, enquanto 62,34% não conhece nenhum tipo de investimento.

Segundo Aquiles Mosca da ANBIMA, “Os brasileiros ainda têm pouca consciência de seu protagonismo em relação às próprias finanças. O hábito de priorizar o consumo, ao invés de poupar, é uma questão cultural por aqui”. Continua, “Na América Latina, somos o país com a menor taxa de poupança, atrás até de nações cuja renda per capta é menor". O percentual da população que já começou a investir, a caderneta de poupança lidera com 16,41%, os fundos de investimentos (renda fixa) vêm em segundo lugar com 2%, seguido por plano de previdência privada (1,85%), compra e venda de imóveis (1,45%), títulos públicos (tesouro direto) com 1,39% e os fundos como ativos de renda variável (ações e multimercados) com 1,24%.

(b) A pesquisa Brasil Econômico, de 30.1.17, “mostra  que 58% dos poupadores não sabem quais os investimentos com as melhores taxas de retorno - percentual que aumenta para 66% entre as mulheres e 63% entre os pertencentes às classes C, D e E. Em contrapartida, 42% garantem saber os rendimentos de suas aplicações”. A caderneta de poupança, “mesmo sendo a aplicação menos indicada e rentável, é a com maior procura entre os brasileiros tendo sido citada na pesquisa por 61% dos respondentes. O tempo médio que o brasileiro deixa o dinheiro na poupança é de três anos tendo como valor médio acumulado no período de R$ 2.152. Para 38% dos que investem na poupança, a escolha desse investimento deve-se ao fato da flexibilidade para o uso do dinheiro guardado quando necessário”.

(c) Segundo a publicação Você S/A, Especial Previdência, de ago/14, 54% dos pesquisados não pouparam nenhum centavo no mês anterior; 51% dos que têm conta em banco estão com o saldo zero ou no vermelho; 82% não sabem ao certo quanto ganham ou gastam; 36% não sabem o valor exato das contas mensais; 28% atrasam as contas de água, luz e telefone; 63% tem algum tipo de dívida no momento; 52% não sabem calcular juros; 69% financiam compras pensando no valor da parcela, e não nos juros; 40% admitem que fazem gastos que poderiam ser cortados e 30% das pessoas pesquisadas admitem comprar por impulso;

As informações acima são motivos de preocupação tendo em vista o desconhecimento das famílias a respeito de educação financeira, o que observamos pelas estatísticas mostrando o elevado percentual de pessoas que não faz poupança, atrasam contas, não sabem calcular juros, miram no valor da parcela e não se preocupam com o consumo consciente. Essa desinformação pode, a longo prazo, contribuir para elevar o endividamento, o que vem acontecendo, contribuindo para reduzir a produtividade da economia como um todo e aumentar os custos da saúde pública para atender os problemas decorrentes desses descontroles financeiros.

Considerando o elevado nível de inadimplência, o crescente endividamento das famílias e a opção por dívidas mais caras (cartão de crédito), vamos apresentar algumas dicas que possam contribuir para que os consumidores saiam do vermelho, e até mesmo criem mecanismos para evitar o endividamento:

01. O inadimplente não deve adquirir mais bens ou serviços, evite fazer novas dívidas;

02. Liquide dívidas que cobram taxas de juros muito elevadas (cartão de crédito, cheque especial etc), e não as mais caras ou com vencimento mais próximo;

03. Liquide a fatura do cartão de crédito mensalmente, use o débito automático. Mesmo com as mudanças realizadas pelo Banco Central em abr/17, quanto ao pagamento do rotativo do cartão de crédito, os juros cobrados continuam elevadíssimos;

04. Faça planejamento financeiro, elabore uma lista de prioridades, compre apenas o necessário e não esqueça que as despesas precisam estar de acordo com o orçamento. Fuja de   parcelamentos;

05. Pense nas despesas de início de ano, como matrícula de colégios, faculdades, material escolar dos filhos, IPTU, IPVA, seguros e outros;

06. Muitas famílias têm tirado os filhos das escolas particulares, logo, se puder mantê-los nesses colégios é a hora para negociar descontos, algumas escolas reduzem as mensalidades em até 50%;

07. Se a família estiver endividada transfira os filhos para uma escola pública;

08. Não antecipe a parcela do 13º junto a bancos, os juros cobrados continuam elevados. Caso precise de um empréstimo, compare antes o custo de antecipar o 13º com o de outras linhas de crédito como o consignado;

09. Se o dinheiro não está sendo suficiente para quitar as dívidas, negocie com a empresa uma antecipação de férias ou a venda de alguns dias de trabalho;

10. As compras natalinas devem ser observadas pelo ângulo da necessidade e não do desejo. Pergunte-se qual a necessidade de cada presente, pesquise, compre em com antecedência os presentes de Natal, busque alternativas mais baratas, seja criativo, faça amigo oculto;

11. Sempre na última sexta-feira de novembro temos o Black Friday, considerado o maior evento de e-commerce do Brasil. Pode ser um bom momento para adquirir bens ou serviços que estão no orçamento doméstico e principalmente para o Natal. Atenção com a maquiagem de preços, compras por internet e cuidado com o valor do frete, este, foi um grande vilão em anos anteriores;

12. Por último, guarde uma parcela da gratificação de Natal para reforçar a reserva financeira. No entanto, se estiver endividado a prioridade é a quitação de dívidas.

Portanto, quanto mais cedo começar a poupar e formar uma reserva financeira mais certeza terá de uma aposentadoria com qualidade de vida. Está na hora de começar a pensar no futuro. Não espere chegar aos 50 ou 55 anos para iniciar uma poupança, o esforço será muito grande. Lembre-se que as regras de aposentadoria estão se alterando, e nem sempre nos satisfazem. Quanto mais cedo pensar em uma poupança para a aposentadoria, maior será a renda gerada por essa reserva financeira. Após décadas de trabalho, você merece a tão sonhada liberdade financeira, mas ela depende de atitudes que você adota ao longo de sua vida como nunca gastar mais do que ganha, ser parcimonioso e evitar gastos desnecessários no dia a dia.

¹/ Coach Financeiro, especializado em finanças pessoais e desenvolvimento de pessoas, educador e planejador financeiro há 25 anos e palestrante de temas ligados à educação financeira, liderança e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, é também bacharel em direito. Tem se dedicado ao estudo do dinheiro nos últimos 34 anos. Foi professor universitário durante vinte e três anos e servidor do Banco Central por 36 anos. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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