ARMADILHAS FINANCEIRAS
Régis Varão/¹
O setor bancário está repleto de pegadinhas
financeiras, a começar
pelas contas correntes que incluem inúmeras tarifas, muitas vezes impossíveis
de serem entendidas pelo cidadão que não dispõe de conhecimentos
em finanças pessoais, matemática financeira e economia. Os juros praticados internamente
pelos bancos nacionais e pelo Banco Central (Taxa
Selic) estão entre os mais elevados do
mundo, e segundo a consultoria Moneyou é a mais elevada taxa de juros reais (descontado a
inflação) entre quarenta economias pesquisados.
Os juros praticados no Brasil são
elevadíssimos e torna o crédito concedido internamente o mais caro do mundo, o
que já é suficiente para que o cidadão evite as modalidades cartão de crédito,
cheque especial, crédito direto ao consumidor, carnês de lojas, compras
parcelas etc. Nas muitas artimanhas do setor bancário temos a generosa oferta
de títulos de capitalização e consórcios que praticamente só são vendidos no
Brasil e são considerados excelentes negócios apenas para o sistema bancário e bons quando
o consumidor é sorteado.
Pensando no bolso do consumidor resolvi
alertá-los a respeito das mais frequentes armadilhas. Do dicionário Michaelis tiramos
duas definições de armadilha, que ilustra minha preocupação: “qualquer artifício
com que se apanha a caça” e “meio ardiloso de enganar alguém.” Simples de
verificar a relação, a caça nesse caso é o cliente, o consumidor de produtos
bancários ou melhor o tomador de crédito.
As linhas de crédito mais comuns
utilizadas pelos consumidores são: cartão de crédito, cheque especial, cartões
de lojas e compras a prazo. Existem inúmeras maneiras do cidadão se endividar,
mas vamos mostrar o que causa mais problemas nos orçamentos das famílias e são
motivos frequentes de descontroles financeiros e endividamento:
1. CARTÃO DE CRÉDITO: esse
prático e moderno meio de pagamento de plástico
- para cada 10 brasileiros existem 8 cartões
de crédito, pode deixar muita gente em dificuldade ao facilitar
a aquisição rápida de bens e serviços diretamente com o vendedor/fornecedor ou
pela internet. Pague a fatura integral, não pague o valor mínimo, pois os juros
incidentes sobre o saldo devedor é o mais elevado do mercado, pode chegar a
dois dígitos ao mês e no ano atingir três dígitos. Utilize essa linha de
crédito a seu favor, cadastre-o em programas de milhagem/fidelidade (Tam, Gol
entre outras) que podem ajudar a adquirir passagens nacionais e internacionais
gratuitamente entre outros benefícios. Segundo a Confederação Nacional do
Comércio (CNC), cerca de 75% dos consumidores brasileiros têm se endividado com
cartão de crédito, ao invés de buscarem outras modalidades mais baratas como o
crédito consignado. Utilizando a Calculadora do cidadão no site do Banco Central vamos fazer algumas simulações do custo do crédito rotativo do cartão
de crédito. Uma dívida no cartão de crédito - rotativo - de R$1.000,00, em 12
meses e juros de 7,80% a.m. totaliza R$2.462,78 e os juros atingem 146,28% a.a.
Estamos utilizando uma taxa de juros de 7,80% a.m. para cliente preferencial de
uma grande instituição bancária nacional, sendo que taxas praticadas fora dessa
categoria podem atingir até 12% a.m. o que anualizado fica em 289,60% a.a. e o
valor sobe para R$3.895,98. Se as compras forem realizadas fora do País, em
outra moeda estrangeira, existe a incidência (fora a conversão cambial) de uma
alíquota de 6,38% de IOF, um presente dado no final de dez/13 aos que viajam para fora do País. Assim,
liquide a fatura integralmente todo mês para não ficar endividado e evite
quando fora do Brasil compras com cartão de crédito. Não contribua para
aumentar os lucros do setor bancário;
2. CHEQUE ESPECIAL: os juros são
calculados diariamente com base em uma taxa prefixada e definida mensalmente
por cada instituição financeira, variando de acordo com o risco de cada
cliente. A cobrança dos juros pela utilização do cheque especial é feita
normalmente no primeiro dia útil do mês, sendo debitada diretamente na conta
corrente. Assim, cada cliente pagará uma taxa de juros específica. Os juros do cheque especial atingiram, em set/14,
o maior nível em 15 anos, movimentando nos nove primeiros meses de 2014 o
montante de R$ 23 bilhões. Juntamente com o cartão de crédito é uma das
modalidades mais caras de linhas de crédito. Segundo estatísticas divulgadas no
site da revista Exame, entre 27 instituições
pesquisadas, os juros variaram de 27,80% a.a. (Banco Sofisa S.A) a 322,99% a.a.
(Banco Santander Brasil S.A). Os dois maiores bancos públicos brasileiros,
Caixa Econômica Federal com 117,83% a.a. e Banco do Brasil S.A com 164,76% a.a.
ficaram em 16ª e 17ª posição, respectivamente, enquanto o BRB-Banco de Brasília
S.A (107,65% a.a.) ficou em 15º lugar. Fique atento ao utilizar o cheque
especial e caso aconteça procure liquidar o mais rápido possível para evitar a
incidência dessa massacrante taxa de juros;
3. COMPRAS
PARCELADAS:
a compra a prazo é aquela em que se divide o valor do bem ou serviço adquirido
em parcelas ou prestações. Antes de decidir pelo parcelamento pense em suas
contas mensais, em prestações já existentes, em seu orçamento, em sua reserva
financeira e na necessidade de fazer aquela compra, pois durante meses haverá o
compromisso de pagar as novas aquisições, muitas vezes desnecessárias, e quando
somadas a outras parcelas já existentes se transformam em grandes valores,
podendo prejudicar compromissos importantes e levar a dificuldades financeiras.
Parte das compras realizadas vem associada ao fator impulso que termina levando
o consumidor ao endividamento. Se não tiver
dinheiro para comprar a vista não compre, deixe para o próximo mês, semestre
etc ou simplesmente não compre. Muitas vezes a compra parcelada ou a prazo é
uma opção razoável e até boa quando o consumidor não dispõe de reserva
suficiente para pagar o produto à vista, desde que não afete o orçamento mensal
do consumidor e atenda ao princípio da necessidade. Muitos são tentados pelos
parcelamentos em cartão de crédito, o que tem elevado fortemente o nível de
endividamento das pessoas. Anote cada nova prestação em uma planilha ou caderno
e some com as já existentes, para verificar como ficará o pagamento dessa nova
dívida e se haverá risco de endividamento. Antes de abrir a carteira
pergunte-se: Eu preciso? Tenho dinheiro?
Tem que ser agora? Com uma resposta negativa a qualquer uma das perguntas,
não compre. Se as respostas forem positivas, assim mesmo antes de comprar peça
desconto;
4. CARNÊS DE LOJAS: esse é outro tipo
de endividamento que tem aumentado nos últimos anos, tendo em vista o aumento da
oferta: Lojas Americanas, Lojas Renner, C&A, Lojas Riachuelo, Lojas
Pernambucanas, Magazine Luiza, Ricardo Eletro, Fast Shop, Lojas
Cem, Lojas Colombo, Casas Bahia e inúmeras outras espalhadas pelo País. De
acordo com a CNC, ao longo dos últimos meses o cartão de crédito tem
sido apontado como a principal fonte de endividamento do brasileiro,
mantendo-se estável em cerca de 75% entre out/14 e novembro deste ano. No
entanto, o segundo colocado na preferência do consumidor brasileiro é o carnê
de loja com 17,3%. Observo que nos últimos meses essa ordem de classificação
manteve-se inalterada. Os juros cobrados são elevados e chegam a ultrapassar 5%
a.m., o que sobe para cerca de 80% a.a. Logo uma opção pouco aconselhável. O
pior é que existe consumidor que tem pelo menos cinco desses carnês, o que compromete
fortemente a saúde financeira das pessoas. Lojas de mesma característica como
Renner, C&A, Riachuelo e Magazine Luiza praticamente oferecem o mesmo
produto - vestuário, cama, mesa e banho. Nesse caso o consumidor pode escolher
suas compras em apenas uma loja e não em quatro. Escolha a que oferece produtos
de melhor qualidade e variedade e opte apenas por uma dessas lojas. Não há
necessidade de comprar parcelado e pagar juros elevados nas quatro lojas. O
mesmo pode ser observado em outros segmentos do varejo.
O ano de 2015 está iniciando e não será fácil para
quem está com problemas de endividamento ou deseja adquirir bens ou serviços.
Será um ano de arrocho, com cortes nas despesas do governo, aumento de impostos
e tarifas públicas, além do já anunciado aumento no preço dos combustíveis. Os
juros continuarão elevados ainda no primeiro semestre, o crédito sofrerá
restrição para pessoa física e jurídica, a inflação alta continuará a reduzir o
poder aquisitivo do consumidor e o nível de desemprego aumentará.
Portanto, procure fazer uma reserva
financeira, poupe o máximo que puder todos os meses do ano, postergue
compras não necessárias, evite os supérfluos, pense antes de abrir a carteira e
conte até 10 para adquirir bens ou serviços. Se precisar comprar (urgência ou
necessidade) não parcele as compras, a não ser que seja sem juros, evite usar o
cartão de crédito, cheque especial e carnês de lojas, pois essas são as
armadilhas mais frequentes que encontramos no dia-a-dia dos endividados. Seja
um consumidor consciente e valorize os pequenos
números.
¹/ Consultor
de Finanças Pessoais e palestrante com larga experiência em educação financeira
e conjuntura econômica, Economista com mestrado e doutorado em economia,
Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do
Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.
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