sábado, 31 de janeiro de 2015

ATVIDADE INDUSTRIAL EM BAIXA
Régis Varão/¹

A publicação Sondagem Industrial (SI), de dez/14, publicada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) finaliza o ano apontando baixa atividade industrial, frágeis expectativas, precárias condições financeiras e o setor empresarial preocupado com a elevada carga tributária, com o declínio da demanda e uma concorrência cada vez mais forte. A pesquisa abrange uma amostra de 2.146 empresas, sendo 846 pequenas, 778 médias e 522 grandes.

A SI apresenta novo indicador, o Índice de Intenção de Investimento (III), que mede a disposição do empresário em investir nos próximos seis meses. O III em jan/15 atingiu 52 pontos, 0,4 ponto abaixo do observado em dez/14 (52,4) e 9,5 pontos inferior ao verificado em jan/14 com 61,5 pontos, mês em que foi registrado a maior intenção de investimento em 2014. O índice varia de 0 a 100 pontos e quanto mais próximo estiver de 100 pontos, maior será a propensão do empresário a investir na indústria.

O declínio da produção de dez/14, embora esperada devido aos aspectos sazonais do mês, foi mais forte que a verificada nos anos anteriores. Quanto à utilização da capacidade instalada é a mais baixa observada para dezembro desde 2011 quando iniciou a série. O emprego segue em queda. Com relação aos aspectos positivos, os dados de dez/14 apresentam ajuste dos estoques, próximos ao planejado. Por outro lado, dez setores permanecem com elevado nível de estoques.

A Sondagem Industrial de dez/14 registrou forte contração da atividade industrial naquele mês. O índice de evolução de produção de dez/14 registra 38,3 pontos, número muito distante da linha média de 50 pontos do índice que varia de 0 a 100 e é o menor da série mensal, iniciada em jan/10. A intensidade do decréscimo do setor industrial entre novembro e dez/14 foi a maior da série. O emprego também apresentou declínio e o índice de evolução do número de empregados de 44,2 pontos é o menor da série mensal.

Cabe ressaltar que o fraco desempenho do setor fica patente ao analisarmos o percentual médio da utilização da capacidade instalada na indústria (UCI). A UCI média de dez/14 atingiu 68%, sendo a mais baixa para o mês desde o início da série em 2001. A UCI em dez/11 atingiu 71%, em dez/12 e dez/13 ficou em 70%, respectivamente.

Quanto aos estoques de produtos finais o índice foi de 47,5 pontos, abaixo da linha média de 50 pontos, o que demonstra queda dos estoques. O índice é o menor da série mensal e significa que a redução dos estoques no período nov-dez/14 foi a maior verificada desde jan/11. Os estoques da indústria voltaram ao nível planejado Segundo a SI, “Dez setores mostram excesso de estoques (índices acima de 51 pontos), enquanto doze mostram nível efetivo abaixo do planejado (índices abaixo dos 49 pontos)”.

Com relação às condições financeiras das empresas, a satisfação com o lucro operacional e a facilidade de acesso ao crédito pioraram no último trimestre de 2014, enquanto a satisfação com a situação financeira ficou praticamente estável quando comparada ao trimestre anterior e a evolução dos preços de matérias-primas vem apresentando elevação nos últimos trimestres.

A satisfação com o lucro operacional passou de 44,9 pontos no 4º trimestre de 2012 (4T12) para 45,1 em igual trimestre de 2013, caindo para 40,6 no 4T14 e abaixo do observado no 3T14 com 41,2 pontos. A satisfação com a situação financeira também permaneceu insatisfatória, subindo para 46 pontos no 4T14, de 45,9 no trimestre anterior, que ficou acima do 2T14 (44,6), e inferior ao 4T12 (50,2) e ao 4T13 com 49,2 pontos. A facilidade de acesso ao crédito tem declinado desde o 4T13 (42,2 pontos) chegando no último trimestre de 2014 com 36,8 pontos, de 37,6 pontos observados no 3T14. A evolução dos preços de matérias-primas vem apresentando elevação desde o 2T14 quando ficou em 58,9 pontos, passou para 61,6 no trimestre seguinte e fechou o 4T14 com 63 pontos.

Repetindo o comportamento das pesquisas anteriores, a elevada carga tributária liderou os problemas enfrentados pelas empresas brasileiras no 4T14, e o problema ganhou relevância pelo segundo trimestre consecutivo e foi indicado por 59,7% das empresas industriais. Os dois itens mais ligados aos problemas que a indústria enfrenta para vender seus produtos, falta de demanda e competição acirrada de mercado, permanecem alternando em posições. A falta de demanda ficou em segundo lugar com 38,5% no 4T14, enquanto a competição acirrada de mercado com 34% ficou em terceiro lugar. No último trimestre de 2014, ganharam mais importância entre os principais problemas o alto custo da matéria-prima (29,4%) e as taxas de juros elevadas com 25,4% das indicações.

Quanto às expectativas dos empresários em jan/15 mostraram-se mais otimistas, ainda que permaneçam baixas. Todos os índices mostram melhora das expectativas na comparação com dez/14, mas ainda abaixo do observado em jan/14. Há expectativa de aumento modesto da demanda, de estabilidade da quantidade exportada e das compras de matérias-primas, ante expectativa de declínio, nos três itens, no mês anterior. As perspectivas quanto ao número de empregados nos próximos seis meses seguem negativas.

Observa-se que o Boletim Focus de 23.1.15, com as expectativas do mercado divulgadas semanalmente pelo Banco Central, reduziu o crescimento da indústria para 0,69% em 2015, ante 0,71% publicada na semana anterior, mostrando o fraco desempenho nas expectativas do mercado para o setor industrial neste ano. Já para 2016, o Focus trabalha com um crescimento de 2,50%, ante +2,65% de elevação na projeção divulgada na semana anterior.

Portanto, a contração da atividade no final de 2014 foi mais intensa que em anos anteriores e tudo indica que não haverá mudanças substanciais - positivas - para os próximos meses. Vários problemas foram detectados e confirmam os grandes gargalos existentes segundo percepção do setor como elevada carga tributária, taxas de juros elevadas, dificuldade de acesso ao crédito e falta de financiamento de longo prazo, alto custo da matéria-prima em baixa utilização da capacidade instalada entre outros.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais e palestrante com experiência em educação financeira e conjuntura econômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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