segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS CAIU EM 2014
Régis Varão/¹

Na semana passada a Confederação Nacional do Comércio (CNC) divulgou a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) referente a 2014, que mostra uma queda de 0,8% em 2014, ante o ano anterior, atingindo a média anual de 61,9% do total das famílias brasileiras.

O número médio das famílias brasileiras endividadas com cartão de crédito, cheque especial, cheque pré-datado, crédito consignado, crédito pessoal, carnês, financiamento de carro, financiamento de casa, entre outros, decresceu 0,8% em 2014, ante 2013. O percentual desse endividamento no 1T (primeiro trimestre) e no 2T (segundo trimestre) de 2014 ultrapassou o patamar observado em igual período de 2013. Com o declínio mais forte no 4T14, o percentual médio de famílias com dívidas atingiu 61,9% em 2014. Nos últimos cinco anos o endividamento apresentou o seguinte comportamento: 59,1% em 2010, 62,2% em 2011, 58,3% em 2012, 62,5% em 2013 e atingiu 61,9% em 2014, o terceiro menor valor em cinco anos. Quanto a valores absolutos passou de 8.642,6 mil em 2010 para 8.470,6 mil em 2012 e atingiu 9.041,2 mil em 2014, um incremento de 4,6% nos últimos cinco anos.

No período 2010-14, a queda na média anual de famílias com conta em atraso foi 24,7%. As famílias com conta em atraso apresentaram o seguinte desempenho: 25% em 2010, 22,9% no ano seguinte, 21,4% em 2012, 21,2% em 2013 e registrou o menor valor em cinco anos com 19,4% em 2014. Em valores absolutos, passou de 3.766,9 mil em 2010 para 3.039,5 em 2012 e atingiu 2.836,6 mil famílias em 2014.

Com relação às famílias sem condições de pagar as dívidas em atraso, logo, permaneceram inadimplentes, a média anual registrou os seguintes aumentos percentuais: 8,8% em 2010, 8% em 2011, 7,1% em 2012, 6,9% em 2013 e 6,3% em 2014, o menor ante o ano anterior, declinou 1,6% em 2013 frente a 2012, recuou 11,9% naquele ano, ante 2011 e caiu neste último 10,6% ante 2010. Em números absolutos, o total de famílias inadimplentes passou de 1.288,4 mil famílias em 2010 1.015,3 mil em 2012 e atingiu o menor nível em 2014 com 899,9 mil famílias.

Nos últimos cinco anos o cartão de crédito tem liderado como o tipo de dívida mais citada pelas famílias brasileiras. É a principal fonte de endividamento das famílias, além de mais cara, seguido por carnês, financiamento de carro, crédito pessoal, financiamento de casa, cheque especial, crédito consignado, cheque pré-datado e outras dívidas/não sabe/não respondeu em última posição.

Cartão de crédito passou de 70,9% em 2010, para 72,7% no ano seguinte, 73,6% em 2012, e manteve praticamente estável em 2013 com 75,2% e 75,3% em 2014. Nos últimos cinco anos registrou elevação de 4,4 p.p. Cabe observar que essa modalidade de dívida continua na liderança e é a mais cara linha de crédito ofertada pelo sistema bancário, causando prejuízos ao orçamento familiar. Essa linha de crédito está muito distante do segundo colocado.

Carnês ocupa a segunda posição na preferência das famílias com dívidas, atingindo 25% em 2010, 22% em 2011, 19,8% em 2012, 18,7% em 2013 e finalmente 2014 registrou 17%, o menor percentual ao longo dos últimos cinco anos. Entre 2010 e 2014 apresentou declínio de 8 p.p., a maior queda verificada no período entre os tipos de dívidas pesquisadas.

Financiamento de carro, em terceiro lugar na preferência das famílias, apresentou o seguinte comportamento: 10,3% em 2010 e 10% em 2011, 11,5% em 2012, atingiu 12,2% em 2013 e chegou ao maior valor do período em 2014 com 13,8%. Esse tipo de dívida registrou crescimento de 3,5 p.p. no período. A facilidade concedida pelo setor automobilístico na aquisição de carros novos, a disponibilidade de crédito e prazos mais elásticos contribuíram para o crescimento do financiamento de carros.

Crédito pessoal é o quarto na preferência das famílias passando de 11,3% em 2010 para 10,8% no ano seguinte, subindo para 11,3% em 2012, caindo para 10,5% em 2013 e atingindo o menor valor em 2014 com 9,5%. Esse tipo de dívida apresentou decréscimo de 1,8 p.p. no período.

Financiamento de casa está em quinta posição na preferência das famílias e registra a maior variação positiva no período 2010-14 com 4,6 p.p. Ao longo dos últimos cinco anos, o financiamento de casa começou com 3,2% em 2010, foi para 3,5% no ano seguinte, subiu para 4,5% em 2012 e registrou expressivos aumentos em 2013 (6,1%) e em 2014 com 7,8%. Existe compatibilidade no crescimento desse tipo de dívida com as facilidades existentes na concessão de crédito.

Cheque especial ocupa o sexto lugar por tipo de dívida. Das linhas de crédito ofertadas pelo setor bancário, o cheque especial só perde para o cartão de crédito em termos de custos para o devedor. Uma modalidade dispendiosa para o orçamento das famílias, tendo em vista o montante de juros cobrados pelos bancos quando de sua utilização. A boa notícia é que as famílias vêm reduzindo o endividamento com esse tipo de crédito. Comportamento nos últimos cinco anos: 8,3% em 2010, 6,8% em 2011, 6,2% em 2012 e 2013, respectivamente, e atingindo 5,6% em 2014, o menor valor do período. Nos últimos cinco anos houve declínio de 2,7 p.p. nesse tipo de dívida, tendo registrado o segundo maior declínio entre 2010 e 2014 entre os tipos de dívidas listadas.

Crédito consignado é o sétimo colocado e de mais baixo custo para as famílias. Estava em 3,9% em 2010 e 2011, respectivamente, subiu para 4% em 2012, atingiu 5,2% em 2013 e caiu em 2014 para 4,7%. No período apresentou crescimento de 0,8 p.p. Interessante observar que esse tipo de dívida é a de mais baixo custo entre todas as listadas, mas não tem a simpatia por parte das famílias que preferem modalidades mais caras com o cartão de crédito.

Cheque pré-datado é o oitavo classificado e apresentou o terceiro maior declínio no período 2010-14, com -1,8 p.p. Em 2010 estava em 4%, caiu para 3% no ano seguinte, e continuou caindo em 2012 (2,7%), 2013 (2,2%) e 1,8% em 2014.

Outras dívidas/não sabe ou não respondeu, no conjunto, apresentou pequenas mudanças ao longo dos últimos cinco anos, saindo de 3% em 2010 e chegando a 2,8% em 2012 e 2014, respectivamente.

Embora tenha melhorado o perfil das dívidas das famílias, houve crescimento do nível de comprometimento da renda familiar com pagamento de dívidas.  Os juros elevados pressionaram o custo do crédito, que vem ficando elevado nos últimos meses. Nos últimos cinco anos o aumento do prazo médio de comprometimento da renda familiar apresentou o seguinte comportamento: em 2010 estava em 6,68 meses, ficou praticamente estável em 2011 com 6,69 meses, caiu para 6,53 em 2012, subiu para 6,74 em 2013 e atingiu 6,90 meses em 2014, a mais elevada no período. Já a parcela média da renda mensal familiar comprometida com o pagamento de dívidas ficou em 29,9% em 2010, caiu para 29,6% em 2011, subiu para 30% em 2012, declinou para 29,4% em 2013 e registrou o maior percentual no período com 30,4% em 2014.

Embora tenha havido elevação do comprometimento de renda das famílias, a redução do percentual de famílias brasileiras com dívida e o perfil mais favorável do endividamento familiar ajudou para que as famílias tivessem uma percepção mais favorável em relação ao nível de endividamento. A média anual do percentual de famílias que afirmaram estar muito endividadas atingiu 14% em 2010, 15,9% em 2011, 13% em 2012, 12,4% em 2013 e atingiu no período em análise o menor percentual em 2014 com 11,6%. As famílias que se consideram mais ou menos endividadas passou de 21,1% em 2010 para 20,8% em 2012 e atingiu o maior percentual em 2014 com 23,8%. As famílias pouco endividadas passaram de 24% em 2010, para 23,9% em 2011, subiu para 24,5% em 2012, atingiu o maior percentual em 2013 (27,2%) e fechou 2014 com 26,6%.

Portanto, o nível de endividamento das famílias brasileiras em 2014 diminuiu quando comparado ao ano anterior, tendo o moderado aumento do crédito e um consumo mais modesto contribuído para esse declínio. Embora tenha havido decréscimo do endividamento e da inadimplência, houve aumento do comprometimento de renda das famílias que se declararam endividadas. A alta dos juros elevou o custo do crédito e contribuiu para aumentar o peso do serviço das dívidas na renda das famílias.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais e palestrante com experiência em educação financeira e conjuntura econômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.

Nenhum comentário:

Postar um comentário