ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS CAIU EM 2014
Régis Varão/¹
Na semana passada a Confederação Nacional do
Comércio (CNC) divulgou a
Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) referente
a 2014, que mostra uma queda de 0,8% em 2014, ante o ano anterior, atingindo a
média anual de 61,9% do total das famílias brasileiras.
O número médio das famílias brasileiras endividadas
com cartão de crédito, cheque especial, cheque pré-datado, crédito consignado,
crédito pessoal, carnês, financiamento de carro, financiamento de casa, entre
outros, decresceu 0,8% em 2014, ante 2013. O percentual desse endividamento no 1T
(primeiro trimestre) e no 2T (segundo trimestre) de 2014 ultrapassou o patamar
observado em igual período de 2013. Com o declínio mais forte no 4T14, o
percentual médio de famílias com dívidas atingiu 61,9% em 2014. Nos últimos
cinco anos o endividamento apresentou o seguinte comportamento: 59,1% em 2010, 62,2%
em 2011, 58,3% em 2012, 62,5% em 2013 e atingiu 61,9% em 2014, o terceiro menor
valor em cinco anos. Quanto a valores absolutos passou de 8.642,6 mil em 2010
para 8.470,6 mil em 2012 e atingiu 9.041,2 mil em 2014, um incremento de 4,6% nos
últimos cinco anos.
No período 2010-14, a queda na média anual de
famílias com conta em atraso foi 24,7%. As famílias com conta em atraso
apresentaram o seguinte desempenho: 25% em 2010, 22,9% no ano seguinte, 21,4%
em 2012, 21,2% em 2013 e registrou o menor valor em cinco anos com 19,4% em
2014. Em valores absolutos, passou de 3.766,9 mil em 2010 para 3.039,5 em 2012
e atingiu 2.836,6 mil famílias em 2014.
Com relação às famílias sem condições de pagar as
dívidas em atraso, logo, permaneceram inadimplentes, a média anual registrou os
seguintes aumentos percentuais: 8,8% em 2010, 8% em 2011, 7,1% em 2012, 6,9% em
2013 e 6,3% em 2014, o menor ante o ano anterior, declinou 1,6% em 2013 frente
a 2012, recuou 11,9% naquele ano, ante 2011 e caiu neste último 10,6% ante
2010. Em números absolutos, o total de famílias inadimplentes passou de 1.288,4
mil famílias em 2010 1.015,3 mil em 2012 e atingiu o menor nível em 2014 com 899,9
mil famílias.
Nos últimos cinco anos o cartão
de crédito tem liderado como o tipo de dívida mais citada pelas
famílias brasileiras. É a principal fonte de endividamento das famílias, além
de mais cara, seguido por carnês,
financiamento de carro, crédito pessoal, financiamento de casa, cheque
especial, crédito consignado, cheque pré-datado e outras dívidas/não
sabe/não respondeu em última posição.
Cartão de crédito passou de 70,9% em 2010, para
72,7% no ano seguinte, 73,6% em 2012, e manteve praticamente estável em 2013
com 75,2% e 75,3% em 2014. Nos últimos cinco anos registrou elevação de 4,4
p.p. Cabe observar que essa modalidade de dívida continua na liderança e é a
mais cara linha de crédito ofertada pelo sistema bancário, causando prejuízos
ao orçamento
familiar. Essa linha de crédito está muito distante do segundo colocado.
Carnês ocupa a segunda posição na preferência das
famílias com dívidas, atingindo 25% em 2010, 22% em 2011, 19,8% em 2012, 18,7%
em 2013 e finalmente 2014 registrou 17%, o menor percentual ao longo dos
últimos cinco anos. Entre 2010 e 2014 apresentou declínio de 8 p.p., a maior
queda verificada no período entre os tipos de dívidas pesquisadas.
Financiamento de carro, em
terceiro lugar na preferência das famílias, apresentou o seguinte comportamento:
10,3% em 2010 e 10% em 2011, 11,5% em 2012, atingiu 12,2% em 2013 e chegou ao
maior valor do período em 2014 com 13,8%. Esse tipo de dívida registrou crescimento
de 3,5 p.p. no período. A facilidade concedida pelo setor automobilístico na
aquisição de carros novos, a disponibilidade de crédito e prazos mais elásticos
contribuíram para o crescimento do financiamento de carros.
Crédito pessoal é o quarto na preferência das
famílias passando de 11,3% em 2010 para 10,8% no ano seguinte, subindo para
11,3% em 2012, caindo para 10,5% em 2013 e atingindo o menor valor em 2014 com
9,5%. Esse tipo de dívida apresentou decréscimo de 1,8 p.p. no período.
Financiamento de casa está em
quinta posição na preferência das famílias e registra a maior variação positiva
no período 2010-14 com 4,6 p.p. Ao longo dos últimos cinco anos, o
financiamento de casa começou com 3,2% em 2010, foi para 3,5% no ano seguinte, subiu
para 4,5% em 2012 e registrou expressivos aumentos em 2013 (6,1%) e em 2014 com
7,8%. Existe compatibilidade no crescimento desse tipo de dívida com as
facilidades existentes na concessão de crédito.
Cheque especial ocupa o sexto lugar por tipo de
dívida. Das linhas de crédito ofertadas pelo setor bancário, o cheque especial
só perde para o cartão de crédito em termos de custos para o devedor. Uma
modalidade dispendiosa para o orçamento das famílias, tendo em vista o montante
de juros cobrados pelos bancos quando de sua utilização. A boa notícia é que as
famílias vêm reduzindo o endividamento com esse tipo de crédito. Comportamento
nos últimos cinco anos: 8,3% em 2010, 6,8% em 2011, 6,2% em 2012 e 2013,
respectivamente, e atingindo 5,6% em 2014, o menor valor do período. Nos
últimos cinco anos houve declínio de 2,7 p.p. nesse tipo de dívida, tendo
registrado o segundo maior declínio entre 2010 e 2014 entre os tipos de dívidas
listadas.
Crédito consignado é o sétimo colocado e de mais
baixo custo para as famílias. Estava em 3,9% em 2010 e 2011, respectivamente,
subiu para 4% em 2012, atingiu 5,2% em 2013 e caiu em 2014 para 4,7%. No
período apresentou crescimento de 0,8 p.p. Interessante observar que esse tipo
de dívida é a de mais baixo custo entre todas as listadas, mas não tem a
simpatia por parte das famílias que preferem modalidades mais caras com o
cartão de crédito.
Cheque pré-datado é o oitavo classificado e
apresentou o terceiro maior declínio no período 2010-14, com -1,8 p.p. Em 2010
estava em 4%, caiu para 3% no ano seguinte, e continuou caindo em 2012 (2,7%),
2013 (2,2%) e 1,8% em 2014.
Outras dívidas/não sabe ou não respondeu, no
conjunto, apresentou pequenas mudanças ao longo dos últimos cinco anos, saindo
de 3% em 2010 e chegando a 2,8% em 2012 e 2014, respectivamente.
Embora tenha melhorado o perfil das dívidas das
famílias, houve crescimento do nível de comprometimento da renda familiar com
pagamento de dívidas. Os juros elevados
pressionaram o custo do crédito, que vem ficando elevado nos últimos meses. Nos
últimos cinco anos o aumento do prazo médio de comprometimento da renda
familiar apresentou o seguinte comportamento: em 2010 estava em 6,68 meses,
ficou praticamente estável em 2011 com 6,69 meses, caiu para 6,53 em 2012,
subiu para 6,74 em 2013 e atingiu 6,90 meses em 2014, a mais elevada no período.
Já a parcela média da renda mensal familiar comprometida com o pagamento de
dívidas ficou em 29,9% em 2010, caiu para 29,6% em 2011, subiu para 30% em
2012, declinou para 29,4% em 2013 e registrou o maior percentual no período com
30,4% em 2014.
Embora tenha havido elevação do comprometimento de
renda das famílias, a redução do percentual de famílias brasileiras com dívida
e o perfil mais favorável do endividamento familiar ajudou para que as famílias
tivessem uma percepção mais favorável em relação ao nível de endividamento. A
média anual do percentual de famílias que afirmaram estar muito endividadas
atingiu 14% em 2010, 15,9% em 2011, 13% em 2012, 12,4% em 2013 e atingiu no
período em análise o menor percentual em 2014 com 11,6%. As famílias que se
consideram mais ou menos endividadas passou de 21,1% em 2010 para 20,8% em 2012
e atingiu o maior percentual em 2014 com 23,8%. As famílias pouco endividadas passaram
de 24% em 2010, para 23,9% em 2011, subiu para 24,5% em 2012, atingiu o maior
percentual em 2013 (27,2%) e fechou 2014 com 26,6%.
Portanto, o nível de endividamento das famílias
brasileiras em 2014 diminuiu quando comparado ao ano anterior, tendo o moderado
aumento do crédito e um consumo mais modesto contribuído para esse declínio. Embora
tenha havido decréscimo do endividamento e da inadimplência, houve aumento do
comprometimento de renda das famílias que se declararam endividadas. A alta dos
juros elevou o custo do crédito e contribuiu para aumentar o peso do serviço das
dívidas na renda das famílias.
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