sábado, 1 de agosto de 2015

A CRISE BATE NA PORTA DOS BRASILEIROS
Régis Varão/¹

O orçamento do brasileiro tem sofrido com a combinação perversa de desemprego, endividamento, inflação, juros crescentes e restrição de crédito. A crise se instalou na casa dos brasileiros e tudo indica que teremos um longo período de “vacas magras.” As poucas conquistas dos últimos anos estão com os dias contados e deverão impactar negativamente a qualidade de vida e nos hábitos de consumo da população em geral.

Embora o tema finanças pessoais tenha chegado ao Brasil no início da década passada, exemplo do livro Pai Rico Pai Pobre (2000) de Robert Kiyosaki e Sharon Lechter, como literatura de autoajuda, apenas após alguns anos o tema educação financeira se firmou como relevante tendo em vista as diversas mudanças registradas no sistema financeiro nacional, com suas diversificadas linhas de crédito, diferenciadas opções de pagamentos por meios eletrônicos etc, o que levou as decisões dos consumidores a ficarem mais complexas.

Pode-se afirmar que é grande a quantidade de pessoas que desconhecem educação financeira, basta verificar o nível e a forma de endividamento do brasileiro nos últimos anos. Vamos ilustrar com algumas estatísticas do livro Seu bolso, de Nuccio & Dana: 8 em cada 10 brasileiros não têm controle de suas despesas pessoais; 57% não sabem informar, com precisão, quanto gastam em extras mensalmente; 56% chegam ao último dia do mês sem poupar um centavo; 45% declararam que viveriam bem sem o cartão de crédito e fazendo compras à vista; 12% só conseguem comprar tudo que precisam com empréstimos e parcelamentos; 35% dos estudantes do ensino médio não pesquisam o mesmo produto em outras lojas antes de comprar e 53% dos brasileiros fazem compras por impulso.

Pesquisas demonstram que os indivíduos tendem a superestimar seus conhecimentos de finanças, elevando o risco de decisões equivocadas. Assim, quanto maior o nível de desconhecimento de educação financeira, maior o risco de tomarem decisões erradas, pagar juros mais elevados, contrair dívidas, aumentar o endividamento, comprar por impulso e fazer más escolhas quanto a seus investimentos.

Segundo o Boletim Focus do Banco Central (BCB), de 24.7.15, a estimativa do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para este ano está em 9,23%, e em 25.7.14 indicava 6,21%, incremento de 3,02 p.p. em doze meses. O IPCA, índice oficial que mede a inflação, apresentou forte incremento (+3,02 p.p.), segundo previsões do mercado, no espaço de doze meses, ampliando a redução do poder aquisitivo das famílias.

O Focus de 24.7.15 indica declínio de 1,76% do Produto Interno Bruto - PIB em 2015, enquanto a pesquisa de 25.7.14 estimava crescimento de +1,50% para aquele ano. Quanto a 2016, o boletim de 24/7/15 projeta +0,20% de crescimento do PIB, enquanto em igual período de 2014 estimava variação positiva de 1,50%, uma deterioração das expectativas do mercado em apenas doze meses.

Pesquisa da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento-ACREFI , de julho deste ano, indica que 84% dos consumidores não pretendem tomar mais crédito e estão dispostos a não fazerem mais dívidas, enquanto 86% acreditam que o desemprego vai aumentar nos próximos meses.

Segundo a ACREFI houve crescimento no número de pessoas que acreditam que o consumo das famílias vai piorar assim como a oferta de crédito. Em jul/15 para 71% dos entrevistados, a situação do País é ruim ou péssima, enquanto ótima ou boa está em apenas 4%. Em abr/15, 66% dos pesquisados considerava a situação ruim ou péssima, enquanto ótima ou boa representava 34%. Com relação à situação pessoal, 84% dos consumidores pretendem mudar o padrão de consumo economizando mais em 2015.

A Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário (PIMES), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que contempla mai/15, afirma que o total do pessoal ocupado assalariado na indústria caiu 1%, ante o mês anterior, sem ajuste sazonal, quinta taxa negativa consecutiva, acumulando no período perda de 3,1%. O decréscimo em mai/15 foi o maior desde fev/09 (-1,3%). Na comparação com mai/14, o emprego industrial decresceu 5,8% em mai/15, o mais forte decréscimo desde set/09 (-6,1%). No período jan-mai/15, o total do pessoal ocupado caiu 5%. Preocupante a quantidade de trabalhadores que perdeu o emprego nos últimos meses, e em especial em mai/15 (-1%), que apresentou o maior declínio desde fev/09 (-1,3%). Um quadro desanimador se instalou na indústria nacional, que também reduziu a quantidade de horas trabalhadas e o valor da folha de pagamento no quinto mês deste ano. O desempenho da indústria ao desempregar grande contingente de trabalhadores, contribui para pressionar a inadimplência.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a participação percentual de famílias endividadas em jul/15 registrou declínio tanto na comparação mensal como em relação a igual mês do ano anterior. Apesar do declínio do endividamento, o percentual de famílias com dívidas ou contas em atraso atingiu 21,5% em jul/15, de 18,9% em jul/14. O percentual de famílias que continuavam inadimplentes, isto é, sem condições de pagar suas contas, passou de 6,6% em jul/14, para 8,1% em julho deste ano. O percentual das famílias com renda até 10 salários mínimos (SM) atingiu 63,3% em jul/15, de 64,3% em jul/14. Já com renda superior a 10 SM o percentual de endividamento decresceu de 57% em jul/14, para 55,4% em jul/15.

De acordo com a CNC, o cartão de crédito continua apontado como o principal tipo de dívida por 77,4% dos endividados. Em segundo lugar temos carnês de lojas com 16,3%, seguido por financiamento de carro (13,5%), crédito pessoal (8,6%), financiamento de casa (7,9%), cheque especial (6,9%), crédito consignado (4,6%) e cheque pré-datado com 1,7%. Nas duas faixas de renda, até 10 SM (77,9%) e acima de 10 SM (74,7%) a liderança está com o cartão de crédito.

Segundo a PEIC, em jul/15, “mais uma vez houve alta do percentual de famílias que relataram endividamento elevado na comparação anual. As condições menos favoráveis de contratação de novos empréstimos e de renegociação de dívida, somadas ao recuo dos rendimentos dos trabalhadores, têm levado a uma piora na percepção das famílias em relação ao endividamento.”

A Pesquisa Nacional de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), da CNC, que contempla emprego atual (-13,5%), perspectiva profissional (-12%), renda atual (-23,1%), compra a prazo (-34,4%), nível de consumo atual (-32,5%), perspectiva de consumo (-39,7%) e momento para duráveis (-43,4%), apresentou declínios em todos os indicadores na comparação de jul/15, ante jul/14. A ICF, agregado, registrou quedas de 5,3% em jul/15, com 86,9 pontos, na comparação com o mês anterior, e caiu 27,9% frente a jul/14.

Quem não sabe quanto gasta e desconhece quanto ganha, com certeza terá dificuldades para atingir o equilíbrio financeiro e problemas para formar poupança. O planejamento financeiro não foca apenas no sucesso material, ele trabalha com o sucesso pessoal e profissional e busca o sucesso da família com qualidade de vida. O planejamento financeiro propicia as pessoas a fazerem reservas financeira, que será útil para atender situações que surgem ao longo da vida. A educação financeira é necessária para a família ou indivíduo que deseja ter suas contas em ordem, e nesse aspecto precisa de um bom orçamento, que é a projeção de receitas e despesas para determinado período de tempo.

Alguns passos para elaborar um orçamento:

(a): relacione  as despesas feita no período de uma semana, mês etc; guarde todos os comprovantes de despesas se possível como: café, cigarro, cerveja etc; (b): liste as receitas (salários ou comissões); (c): relaciona as despesas: alimento: açougue, padaria, supermercado etc; moradia: aluguel, prestação da casa, condomínio, iptu, seguro, água, luz etc; saúde: plano de saúde, consultas, fisioterapia, remédios etc; vestuário: roupas, calçados etc; transporte: prestação de carro, gasolina, manutenção, ipva, seguro etc; educação: mensalidades de colégio/faculdade, matrícula, material escolar etc; lazer: cinema, teatro, passagens aéreas, restaurantes, TV a cabo etc; pessoais: salão de beleza, manicure etc; outras: presentes, doações etc; financeiras: juros de empréstimos e do cheque especial, anuidade do cartão de crédito, tarifas bancárias etc.

Faça o somatório das despesas e receitas e compare-as para verificar se tem superávit ou déficit. Veja os ralos, muitas vezes são pequenos valores gastos com cafezinho, cerveja etc. Conhecendo o orçamento e contornado os maus hábitos, devemos definir o que queremos. Defina e reveja as prioridades. Se deficitário, temos que cortar despesas, estabelecer metas e definir um percentual de 10 ou 20% da renda líquida para reserva financeira (emergência).

Portanto, o orçamento tem que ser colocado em prática. O endividado tem que rever seus conceitos, adotar novas atitudes e práticas na gestão de seus recursos e procurar entender a importância do planejamento para sua vida presente e futura. Aprenda a renegociar suas dívidas, fuja do cheque especial e de compras parceladas, pesquise preços, e faça reserva financeira.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais, educador financeiro e palestrante nas áreas de educação financeira e corporativa, finanças pessoais e conjuntura macroeconômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central do Brasil. Visite o site www.ravecofinancas.com.

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