A CRISE BATE NA
PORTA DOS BRASILEIROS
Régis
Varão/¹
O
orçamento do brasileiro tem sofrido com a combinação perversa de desemprego,
endividamento, inflação, juros crescentes e restrição de crédito. A crise se
instalou na casa dos brasileiros e tudo indica que teremos um longo período de “vacas
magras.” As poucas conquistas dos últimos anos estão com os dias contados e deverão
impactar negativamente a qualidade de vida e nos hábitos de consumo da
população em geral.
Embora
o tema finanças pessoais tenha chegado ao Brasil no início da década passada,
exemplo do livro Pai Rico Pai Pobre (2000) de Robert Kiyosaki
e Sharon Lechter, como literatura de autoajuda, apenas após alguns anos o tema educação
financeira se firmou como relevante tendo em vista as diversas mudanças registradas
no sistema financeiro nacional, com suas diversificadas linhas de crédito,
diferenciadas opções de pagamentos por meios eletrônicos etc, o que levou as
decisões dos consumidores a ficarem mais complexas.
Pode-se
afirmar que é grande a quantidade de pessoas que desconhecem educação
financeira, basta verificar o nível e a forma de endividamento do brasileiro
nos últimos anos. Vamos ilustrar com algumas estatísticas do livro Seu bolso,
de Nuccio & Dana: 8 em cada 10 brasileiros não têm controle de suas
despesas pessoais; 57% não sabem informar, com precisão, quanto gastam em
extras mensalmente; 56% chegam ao último dia do mês sem poupar um centavo; 45%
declararam que viveriam bem sem o cartão de crédito e fazendo compras à vista;
12% só conseguem comprar tudo que precisam com empréstimos e parcelamentos; 35%
dos estudantes do ensino médio não pesquisam o mesmo produto em outras lojas
antes de comprar e 53% dos brasileiros fazem compras por impulso.
Pesquisas
demonstram que os indivíduos tendem a superestimar seus conhecimentos de
finanças, elevando o risco de decisões equivocadas. Assim, quanto maior o nível
de desconhecimento de educação financeira, maior o risco de tomarem decisões erradas,
pagar juros mais elevados, contrair dívidas, aumentar o endividamento, comprar
por impulso e fazer más escolhas quanto a seus investimentos.
Segundo
o Boletim Focus do Banco Central (BCB), de
24.7.15, a estimativa
do Índice
de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para este ano está em 9,23%, e em 25.7.14 indicava
6,21%, incremento de 3,02 p.p. em doze meses. O IPCA,
índice oficial que
mede a inflação, apresentou forte incremento (+3,02 p.p.), segundo
previsões do mercado, no espaço de doze meses, ampliando a redução do poder
aquisitivo das famílias.
O Focus de 24.7.15 indica
declínio de 1,76% do Produto Interno Bruto - PIB em 2015, enquanto a pesquisa
de 25.7.14 estimava crescimento de +1,50% para aquele ano. Quanto a 2016, o
boletim de 24/7/15 projeta +0,20% de crescimento do PIB, enquanto em igual
período de 2014 estimava variação positiva de 1,50%, uma deterioração das
expectativas do mercado em apenas doze meses.
Pesquisa da Associação
Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento-ACREFI , de julho deste ano, indica que 84% dos
consumidores não pretendem tomar mais crédito e estão dispostos a não fazerem mais
dívidas, enquanto 86% acreditam que o desemprego vai aumentar nos próximos
meses.
Segundo a ACREFI houve crescimento no número de pessoas que acreditam que o consumo das
famílias vai piorar assim como a oferta de crédito. Em jul/15 para 71% dos
entrevistados, a situação do País é ruim ou péssima, enquanto ótima ou boa está
em apenas 4%. Em abr/15, 66% dos pesquisados considerava a situação ruim ou
péssima, enquanto ótima ou boa representava 34%. Com relação à situação
pessoal, 84% dos consumidores pretendem mudar o padrão de consumo economizando
mais em 2015.
A Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário (PIMES), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que contempla
mai/15, afirma que o total do pessoal ocupado assalariado na indústria caiu 1%,
ante o mês anterior, sem ajuste sazonal, quinta taxa negativa consecutiva,
acumulando no período perda de 3,1%. O decréscimo em mai/15 foi o maior desde
fev/09 (-1,3%). Na comparação com mai/14, o emprego industrial decresceu 5,8%
em mai/15, o mais forte decréscimo desde set/09 (-6,1%). No período jan-mai/15,
o total do pessoal ocupado caiu 5%. Preocupante a quantidade de trabalhadores
que perdeu o emprego nos últimos meses, e em especial em mai/15 (-1%), que
apresentou o maior declínio desde fev/09 (-1,3%). Um quadro desanimador se
instalou na indústria nacional, que também reduziu a quantidade de horas
trabalhadas e o valor da folha de pagamento no quinto mês deste ano. O desempenho
da indústria ao desempregar grande contingente de trabalhadores, contribui para
pressionar a inadimplência.
De acordo com a Pesquisa Nacional de Endividamento
e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a participação percentual de famílias endividadas
em jul/15 registrou declínio tanto na comparação mensal como em relação a igual
mês do ano anterior. Apesar do declínio do endividamento, o percentual de
famílias com dívidas ou contas em atraso atingiu 21,5% em jul/15, de 18,9% em
jul/14. O percentual de famílias que continuavam inadimplentes, isto é, sem
condições de pagar suas contas, passou de 6,6% em jul/14, para 8,1% em julho
deste ano. O percentual das famílias com renda até 10 salários mínimos (SM)
atingiu 63,3% em jul/15, de 64,3% em jul/14. Já com renda superior a 10 SM o
percentual de endividamento decresceu de 57% em jul/14, para 55,4% em jul/15.
De acordo com a CNC, o cartão
de crédito continua apontado como o principal tipo de dívida por 77,4%
dos endividados. Em segundo lugar temos carnês de lojas com 16,3%, seguido por
financiamento de carro (13,5%), crédito pessoal (8,6%), financiamento de casa
(7,9%), cheque especial (6,9%), crédito consignado (4,6%) e cheque pré-datado
com 1,7%. Nas duas faixas de renda, até 10 SM (77,9%) e acima de 10 SM (74,7%)
a liderança está com o cartão de crédito.
Segundo a PEIC, em jul/15, “mais uma vez houve alta do percentual de famílias que
relataram endividamento elevado na comparação anual. As condições menos
favoráveis de contratação de novos empréstimos e de renegociação de dívida,
somadas ao recuo dos rendimentos dos trabalhadores, têm levado a uma piora na
percepção das famílias em relação ao endividamento.”
A Pesquisa Nacional de Intenção de Consumo das
Famílias (ICF), da CNC, que contempla
emprego atual (-13,5%), perspectiva profissional (-12%), renda atual (-23,1%),
compra a prazo (-34,4%), nível de consumo atual (-32,5%), perspectiva de
consumo (-39,7%) e momento para duráveis (-43,4%), apresentou declínios em
todos os indicadores na comparação de jul/15, ante jul/14. A ICF, agregado,
registrou quedas de 5,3% em jul/15, com 86,9 pontos, na comparação com o mês
anterior, e caiu 27,9% frente a jul/14.
Quem não sabe quanto gasta e desconhece quanto
ganha, com certeza terá dificuldades para atingir o equilíbrio
financeiro e problemas para formar poupança. O planejamento financeiro
não foca apenas no sucesso material, ele trabalha com o sucesso pessoal e
profissional e busca o sucesso da família com qualidade de vida. O planejamento
financeiro propicia as pessoas a fazerem reservas financeira, que será útil
para atender situações que surgem ao longo da vida. A educação
financeira é necessária para a família ou indivíduo que deseja ter suas contas
em ordem, e nesse aspecto precisa de um bom orçamento,
que é a projeção de receitas e despesas para determinado período de tempo.
Alguns passos para elaborar um orçamento:
(a): relacione as
despesas feita no período de uma semana, mês etc; guarde todos os comprovantes
de despesas se possível como: café, cigarro, cerveja etc; (b): liste
as receitas (salários ou comissões); (c):
relaciona as despesas: alimento:
açougue, padaria, supermercado etc; moradia:
aluguel, prestação da casa, condomínio, iptu, seguro, água, luz etc; saúde: plano de saúde, consultas,
fisioterapia, remédios etc; vestuário:
roupas, calçados etc; transporte: prestação
de carro, gasolina, manutenção, ipva, seguro etc; educação: mensalidades de colégio/faculdade, matrícula, material
escolar etc; lazer: cinema, teatro, passagens
aéreas, restaurantes, TV a cabo etc; pessoais:
salão de beleza, manicure etc; outras:
presentes, doações etc; financeiras:
juros de empréstimos e do cheque especial, anuidade do cartão de crédito,
tarifas bancárias etc.
Faça o somatório das despesas e receitas e
compare-as para verificar se tem superávit ou déficit. Veja os ralos, muitas
vezes são pequenos valores gastos com cafezinho, cerveja etc. Conhecendo o orçamento
e contornado os maus hábitos, devemos definir o que queremos. Defina e reveja as
prioridades. Se deficitário, temos que cortar despesas, estabelecer metas e
definir um percentual de 10 ou 20% da renda líquida para reserva financeira
(emergência).
Portanto, o orçamento tem que ser colocado em
prática. O endividado tem que rever seus conceitos, adotar novas atitudes e
práticas na gestão de seus recursos e procurar entender a importância do
planejamento para sua vida presente e futura. Aprenda a renegociar suas
dívidas, fuja do cheque especial e de compras parceladas, pesquise preços, e
faça reserva financeira.
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