quinta-feira, 30 de julho de 2015

POEMA EM LINHA RETA
Régis Varão/¹

O atual momento econômico e político brasileiro tem deixado a população e todos os que pagam tributos em dia preocupados e até aterrorizados, e a maioria envergonhados com tamanha incompetência e irresponsabilidade daqueles que deveriam proteger e tratar com respeito o bem público e não utilizá-lo como barganha para fins privados.

Os meios de comunicação, jornais, revistas, blogues e afins, tem-nos brindado vinte quatro horas por dia com uma quantidade imensa de relatos tenebrosos, crimes diversos e a maioria incursos no Código Penal e/ou Código Civil, corrupção desenfreada em todas as esferas públicas, saindo dos municípios, passando pelos estados e chegando a esfera federal, e tudo parece ser normal, seguindo um padrão já esperado e até aceito por uma pequena parte da sociedade.

Pensando nisso e acompanhando o desempenho magnífico pela TV e jornais, dos malfeitores de colarinho branco, injustiçados ou perseguidos, lembrei-me de presentear meus leitores com o interessante, atualíssimo e oportuno Poema em Linha Reta, do escritor português Fernando Pessoa (1888-1935), nascido em Lisboa. Se Pessoa estivesse vivo, assim diria: o Brasil está cheio de “príncipes,” que nunca tiveram um ato ridículo, e que nunca foram senão “príncipes.”

Poema em linha reta
Fernando Pessoa

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os ter amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.”

Portanto, o poema de Fernando Pessoa, representa muito bem parte dos gestores públicos, e mais ainda, nas entre linhas deixa explícito ao bom entendedor, o descalabro porque passam os brasileiros honestos e bem intencionados, que pagam suas obrigações de tributos a carnês de lojas em dia e acreditam em um Brasil melhor, mais justo, mais limpo e menos hipócrita.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais, educador financeiro e palestrante com experiência em educação financeira, finanças pessoais, educação corporativa e conjuntura econômica. Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do Banco Central. Visite o site www.ravecofinancas.com.

Um comentário:

  1. Muito boa a associação do poema de Fernando Pessoa com o momento político atual.

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