sábado, 2 de agosto de 2014

AS FINANÇAS EM CADA FASE DA VIDA
Consultor Régis Varão/¹

Em cada fase da vida, nossas necessidades mudam, podendo ficar mais dispendiosas com o passar dos anos. Quando se é jovem tempo não é problema, não falta energia e disposição para erros e acertos, mas com o passar dos anos o tempo vira produto escasso, e as decisões sabiamente tomadas há vinte, trinta, quarenta anos renderão bons frutos na maturidade.

O tempo passa e as necessidades de cada fase da vida começam a pressionar, mas normalmente é a partir da adolescência que começamos a nos preocupar com os projetos que envolvem atitudes financeiras e que ajudam a transformar sonhos em projetos reais, levando as pessoas, por suas escolhas e atitudes a um futuro com prosperidade ou não.

Segundo Pedro Carrilho (2013), a maioria das pessoas mede sua situação financeira em função de fatores externos, como o imóvel em que vive, o carro ou o emprego que tem, e se esquece que deveria medir sua situação financeira em função da fase financeira em que se encontra e de seus objetivos pessoais.

Tendo em vista que muitas pessoas têm me perguntado a respeito de fases para iniciar projetos que serão realizados em vinte, trinta, quarenta anos depois, resolvi falar a respeito dessas fases da vida financeira. Alguns podem não se enquadrar, entretanto, podem tomar atitudes financeiras adequadas, na época oportuna, e com certeza aproveitarão os benefícios da decisão.

Um percentual elevado de pessoas inicia sua vida financeira próxima aos vinte anos, alguns mais cedo, mas a maioria ainda não terminou o ensino médio ou está iniciando o curso superior. Vamos trabalhar com a seguinte faixa etária:

(a) Até os 20 anos: algumas crianças entre os 7 e 8 anos já demonstram interesse pelo dinheiro,  buscam informações a respeito de preços e até guardam dinheiro para comprar objetos. A infância é a fase propícia para que pais e responsáveis trabalhem conceitos de orçamento e poupança. A importância que os pais atribuem ao dinheiro provavelmente levarão seus filhos a terem as mesmas atitudes no futuro. José dos Santos (2013) apresenta algumas recomendações aos pais: jamais ceder às chantagens, somente dar brinquedos novos em datas importantes, não comprar itens de vestuário de tamanho justo e em grande quantidade, não dar celular na fase inicial da infância, incentivar a criança a participar das reuniões do orçamento familiar, estimular a criança a praticar atividade física e alimentação saudável entre outros. Na adolescência os gastos tendem a aumentar, são mais suscetíveis aos fatores externos, principalmente os ligados à moda e aos do grupo que se inserem. É natural que os pais banquem despesas com educação, alimentação, vestuário, lazer etc. Segundo Cherobim e Espejo (2010), o que não é natural e, infelizmente, acontece muito é um jovem de 14 anos precisar trabalhar para auxiliar a família. A adolescência é uma fase de muita despesa na família, pois o jovem precisa alimentar-se bem, são elevados os gastos com educação, precisa praticar esportes, divertir-se etc. Santos (2013) apresenta as seguintes recomendações aos pais: incentivar o adolescente nas discussões mensais do resultado do orçamento familiar, incentivá-lo a fazer cursos de aprimoramento profissional (informática, língua estrangeira etc), convencê-lo a fazer cursos de finanças pessoais, ajudá-lo na definição da escolha do curso superior etc. De acordo com Murilo Carneiro (2014) ”Isso vai permitir a formação de uma pessoa equilibrada, que conhece a vida e vai ter a opção de escolher o caminho a seguir.” Um curso técnico ou superior que leve a oportunidades de crescimento, com rendimentos dignos é fruto do investimento realizado na vida pessoal, logo, um desses cursos é o mínimo do ponto de vista de investimento pessoal;

(b) Dos 20 aos 30 anos: para muitas pessoas, a vida adulta se inicia com casamento, mas não vamos discutir essa opção, até porque há controvérsia. De acordo com Santos (2013), ”Nessa fase, mais precisamente a partir dos vinte anos, espera-se que o jovem bem orientado na adolescência já esteja estudando em uma faculdade, trabalhando e, no mínimo, conseguindo arcar com suas despesas pessoais.” É a fase em que a pessoa tem rendimentos próprios e é autossustentável. Pedro Carrilho (2013) afirma que essa etapa inicial da vida financeira é uma das mais importantes, pois são cometidos os maiores erros financeiros, e muitas vezes acabam por tirar alguns anos para consertá-los. Nessa fase os ganhos são menores, e aqueles que ainda moram com os pais aumentam a capacidade de poupar. Também pode pensar no próprio negócio, nesse caso, deve consultar o Sebrae. Assim, o foco das finanças deve ser investimento em educação, cursos de idiomas, pós-graduação e outros, é a hora da capacitação. Caso a pessoa não tenha filhos pode correr riscos financeiros, como apostar em aplicações de renda variável e até outras alternativas mais arriscadas. No entanto, o ideal é iniciar o processo de acumulação, guardando parte do que ganha, de preferência o equivalente a um salário bruto mensal por ano;

(c) Dos 30 aos 40 anos: essa é a fase em que começa a construção do patrimônio propriamente dito. É a fase dos grandes projetos financeiros, como a casa própria, o casamento e filhos. Faça reserva financeira de um percentual do salário mensal para essa finalidade. Ao comprar a casa própria, caso tenha alguma reserva dê entrada reduzindo a prestação. Comprometa menos que 30% do orçamento familiar com as prestações da casa própria, em hipótese alguma mais que 30%. Crie o hábito de poupar bônus, prêmios e 13º salário, mantendo uma reserva financeira para emergências. Não exceda a soma de 36 salários mensais brutos da família, reduzindo o esforço na hora de pagar a prestação. Você S/A (edição 189) lembra que nessa fase em que os ciclos de carreira estão mais curtos, a pessoa deve investir em cursos de atualização, e que as reservas financeiras ajudarão. Os projetos de curto prazo ou de menor custo demandam aplicações de baixo risco e menor rendimento como caderneta de poupança ou títulos públicos, estes, uma boa escolha. No entanto, para projetos de 5 anos, as opções mudam, e o mercado de capitais poderia ser uma opção, e após exaustiva pesquisa, fundos multimercados. As Letras de Crédito Agrícolas (LCA) e os títulos do tesouro (Tesouro Direto-STN) vêm apresentando boa rentabilidade, além da liquidez e grande segurança. É interessante um Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL), uma modalidade de plano de previdência privada, que possibilita a dedução das contribuições no cálculo do imposto de renda, até um limite de 12% da renda total tributável;

(d) Dos 40 aos 50 anos: você já deve ter fontes de rendimento estáveis e provenientes de investimentos realizados anteriormente. O alicerce financeiro está forte e seguro, ainda deve manter um percentual dos ganhos mensais para uma reserva financeira, nesse caso, de três a cinco salários brutos mensais por ano, um valor confortável e que permite alavancar as fontes de rendimentos e continuar a investir. Como provavelmente você está ganhando mais, caso disponha de imóvel financiado, procure antecipar prestações. Os gastos com filhos, principalmente com educação, tendem a aumentar, e tendo reserva financeira utilize-a com cautela. No caso de desemprego, você precisa de uma reserva equivalente a pelo menos seis meses de despesas mensais. Caso se depare com essa situação, enxugue ao máximo as despesas para não sacrificar a faculdade dos filhos. Quanto à previdência privada nunca mexa nela, pois poderá comprometer o planejamento da aposentadoria feito ao longo dos anos;

(e) Dos 50 aos 60 anos: tente reduzir seus gastos e investir um pouco mais já focado na vida pós-aposentadoria. Reserve de 10 a 30% dos ganhos para a previdência privada e continue buscando investimentos seguros como títulos do tesouro e alguns fundos de renda fixa. Você está em uma situação em que já deve ter atingido razoável padrão de renda e conforto para ter qualidade de vida. Você já deverá ter rendimentos de investimentos que correspondam a pelo menos 50% de suas despesas mensais. É importante que nessa fase você faça as coisas que mais lhe dão prazer, sem buscar remuneração. Você S/A afirma que a expectativa de vida é de mais de 74 anos, mas os consultores sugerem fazer um planejamento como fosse viver 90 anos, e lembre-se que nessa fase as despesas médicas subirão, portanto, invista em um bom plano de saúde;

(f) Acima dos 60 anos: segundo José dos Santos (2013), “espera-se que o individuo bem orientado em todas as etapas anteriores da vida tenha construído um patrimônio financeiro que financie, no mínimo, suas necessidades básicas para desfrutar de uma aposentadoria saudável.” Nessa fase, o esforço na formação de patrimônio feito ao longo dos anos deve ser recompensado com uma aposentadoria tranquila, com viagens e mais qualidade de vida. É quando você pode realizar alguns sonhos, conhecer novos lugares, estudar um novo idioma etc. Mesmo aposentado é importante continuar aplicando as regras de poupança e investimento, buscando aplicações com baixo risco. Adote uma segunda carreira numa área que lhe dê prazer, pois além de espantar o tédio ajuda a preservar a poupança. Um novo negócio nessa fase é arriscado, pois são reduzidas as chances de recuperação.

Portanto, infelizmente para muitas pessoas, quando a aposentadoria chega não estão preparadas emocional e financeiramente para esse dia, pois ao longo de suas vidas não pensaram em fazer poupança. Pesquisa indica que 64% dos brasileiros entrevistados nunca pouparam para a aposentadoria, e um terço não tem a intenção de fazê-lo, o que explica a quantidade de pessoas acima de 60 anos ainda na ativa, que não se aposentam por não estarem financeiramente preparadas para essa nova fase. O futuro depende de atitudes que você adota no presente.

¹/ Consultor de Finanças Pessoais e palestrante, Economista com mestrado e doutorado em economia, Bacharel em Direito, Professor Universitário e ex-servidor do BACEN. Acessar o site http://www.ravecofinancas.com/.

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