POEMA EM LINHA RETA
Régis
Varão/¹
O atual momento econômico
e político brasileiro tem deixado a população e todos os que pagam tributos em
dia preocupados e até aterrorizados, e a maioria envergonhados com tamanha incompetência
e irresponsabilidade daqueles que deveriam proteger e tratar com respeito o bem
público e não utilizá-lo como barganha para fins privados.
Os meios de
comunicação, jornais, revistas, blogues e afins, tem-nos brindado vinte quatro
horas por dia com uma quantidade imensa de relatos tenebrosos, crimes diversos
e a maioria incursos no Código Penal e/ou Código Civil, corrupção desenfreada em
todas as esferas públicas, saindo dos municípios, passando pelos estados e
chegando a esfera federal, e tudo parece ser normal, seguindo um padrão já
esperado e até aceito por uma pequena parte da sociedade.
Pensando nisso e
acompanhando o desempenho magnífico pela TV e jornais, dos malfeitores de
colarinho branco, injustiçados ou perseguidos, lembrei-me de presentear meus
leitores com o interessante, atualíssimo e oportuno Poema em Linha Reta, do
escritor português Fernando Pessoa (1888-1935), nascido em Lisboa. Se Pessoa
estivesse vivo, assim diria: o Brasil está cheio de “príncipes,” que nunca
tiveram um ato ridículo, e que nunca foram senão “príncipes.”
Poema em linha reta
Fernando Pessoa
“Nunca conheci quem
tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos
têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes
reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes
irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente
sujo,
Eu, que tantas vezes
não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes
tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado
os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido
grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido
enxovalhos e calado,
Que quando não tenho
calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido
cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho
sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito
vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a
hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade
do soco;
Eu, que tenho
sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não
tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu
conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato
ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe
- todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir
de alguém a voz humana
Que confessasse não
um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não
uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o
Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo
mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus
irmãos,
Arre, estou farto de
semideuses!
Onde é que há gente
no mundo?
Então sou só eu que
é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres
não os ter amado,
Podem ter sido
traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido
ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar
com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido
vil, literalmente vil,
Vil no sentido
mesquinho e infame da vileza.”
Portanto, o poema de
Fernando Pessoa, representa muito bem parte dos gestores públicos, e mais
ainda, nas entre linhas deixa explícito ao bom entendedor, o descalabro porque
passam os brasileiros honestos e bem intencionados, que pagam suas obrigações
de tributos a carnês de lojas em dia e acreditam em um Brasil melhor, mais
justo, mais limpo e menos hipócrita.